A delícia e a desgraça

Borboleta

Sempre acreditou em Papai Noel. Sempre teve motivos para. Quando criança, lutava contra o sono à espera do bom velhinho. No dia seguinte, o presente por que tanto ansiava. Com o passar dos anos, foi entendendo que os pais e avós eram o Papai Noel. Mas continuou acreditando na magia do Natal. Principalmente depois que o avô, Papai Noel do Shopping Center, lhe deu um amuleto da sorte: um velho crachá que usava no trabalho. Junto com o presente uma recomendação: Nunca perca este amuleto. Ele simboliza a delícia e a desgraça. Ela nunca entendeu isso. O avô aposentou-se… depois morreu. Ela cresceu, casou-se, teve dois filhos e manteve a tradição.
Todo ano, prepara a ceia de Natal. Mesa linda e farta. Monta a árvore. Colorida e recheada. Às vezes se veste de Papai Noel. Distribui os presentes para a família. Alegria da criançada. Mas nunca se separa do amuleto. Ano após ano, acontece um fato novo. A magia do Natal. Num ano, o casamento com Valdir, seu príncipe encantado. No ano seguinte, a chegada do primogênito. No subsequente, o nascimento da filha. Seus filhos nascem no fim do ano. Coincidência? Não! O seu presente de Natal. Seu amuleto da sorte. Mãe de família, continua acreditando na existência de Papai Noel. Sempre teve motivos para.
Passam os anos. Os filhos crescem. Vão estudar em São Paulo. No fim do ano, retornam com novidades. Às vezes passa dificuldades. Com a loja, com o marido, com a vida. Não se desespera. Nem perde a esperança. Vai tocando o barco. Vai mantendo a freguesia. Sabe que Papai Noel é infalível. Num ano, o aumento substancial nas vendas. Noutro, o marido ganha na loteria. Conta sua história para as amigas. No ano atrasado, a visita da irmã, de Manaus. Fazia dez anos que não se viam. No ano passado, a formatura do primogênito. Todas se admiram dessa crença. Todas invejam essa coincidência. Ela insiste. Não é coincidência: é o Espírito de Natal. Papai Noel existe mesmo. Pelo menos para mim. Sempre acreditou nisso. Sempre teve motivos para. Sempre preservou o amuleto.
De uns tempos para cá, envolveu-se num romance. Extraconjugal? Não foi culpa dela. O marido se aposentou. Enveredou-se para a boêmia. Ela, sozinha e abandonada. No entanto, bonita e atraente. Então surgiu Olavo. Ela descobriu o amor. Paixão arrebatadora. Conheceu-o às vésperas do Natal, no presépio da Praça dos Cristais. Foi seu presente de Natal. O amante é viúvo. Ela, casada. Por mais que permaneçam afastados no decorrer do ano, em dezembro é festa. Tempo e motivo para encontrar-se. Namorar e estreitar o romance. Ele, todo unânime. Ela, consagrada e convertida.
Os filhos, formados e trabalhando. O mais velho é médico. Está noivo e se casa em maio. A menina estudou Relações Internacionais. Quer ser diplomata. No momento, aeromoça. O Natal se aproxima. Até agora nada. Fez tudo certinho. Montou a árvore. Comprou presentes. Não sabe onde enfiou o crachá. Não consegue encontrá-lo. Tê-lo-ia perdido na Praça dos Cristais? Nos amassos com Olavo? Estranho: 23 de dezembro e nada especial. Nenhuma novidade. Ela não é tão supersticiosa assim. O amuleto é um detalhe. Sabe que Papai Noel não falha. Neste ano, deve ser uma surpresa daquelas.
Os filhos chegam para as comemorações natalinas. Combina com o rapaz. Amanhã bem cedo faremos as compras. Nos últimos anos, os filhos preparam a ceia. Mas ela faz questão de ir às compras com o filho. 24 de dezembro. Madalena acorda cedo e vai chamar o filho. Ainda está dormindo? Mexe com o rapaz. Solta um grito de pavor. O corpo do filho está duro, gelado. Olhos esbugalhados. Ataque cardíaco fulminante aos 26 anos? Agora ela entende: a delícia e a desgraça. Ela nunca mais quer saber de Natal. Ela odeia Papai Noel… e seu maldito crachá. E tem motivos para.

Contagem:  633 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

O conto tem um bom ritmo, um movimento envolvente. Não reconheci uma dondoca na caracterização da adúltera. Achei interessante a forma como, na trama do conto, o natal e o amuleto se vinculam, e contudo quase se desvinculam, pois sugere-se que é a atmosfera da época que garante a felicidade e não o fetiche. O final não chega a ser surpreendente.

Celso Bächtold

Bom entrecho, muito original, que torna esse conto passível de ser aproveitado em um futuro projeto de juntar “contos misteriosos de Natal” (uma ideia a ser explorada!).
Um detalhe de acentuação: “às vezes”, locução adverbial de tempo, recebe crase. É arriscado utilizar muitas frases curtas, pois é um estilo que pode tornar a leitura um pouco cansativa e monótona, meio que truncada, sob o ponto de vista do leitor que, dessa peça, é o ator principal. Portanto, o escritor deve procurar facilitar a leitura, para manter o interesse daquele que a realiza.

Paulo Fodra

Apesar de adequado ao tema proposto, o texto está cheio de pequenos erros de pontuação e construção, ecos e cacos. A ideia forçada não consegue encontrar sustentação no fraco tratamento do texto. O final acaba se tornando previsível, e o desnecessário bordão “sempre teve motivos para”, confere à narrativa um ar pretensioso e um tanto quanto pueril.

Roberto Klotz

Começo ruim com clichê de ideia (acreditar Papai Noel). Só ao fim do primeiro parágrafo descobri que o personagem era feminino: faltou algum “ela”. Senti falta de diálogos. A persongem dondoca não foi caracterizada, parecia ser uma dona-de-casa. Dondoca não passa dificuldades com a loja. O conto poderia ser mais enxuto. Há exemplos natalinos em demasia. Tudo dá certo e é bom com crachá por isso o final sem crachá é previsível. A escrita é ótima. Gosto das frases curtas que aceleram a trama quando necessário.

Simone Pedersen

Os elementos do desafio estão presentes, mas tirando o crachá, os outros elementos não são essenciais ao conto. Não basta colocar os elementos, eles necessitam ser pilares do conto. Independente disso, o fechamento é muito rápido e não enriquece a história.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  8,5
Celso Bächtold 8,8
Paulo Fodra 7,0
Roberto Klotz 7,5
Simone Pedersen  7,5
Total 39,3