A Força de um Nome

Heliodora Ekonbeliongo

Inscrito num concurso literário, O Desafio do Escritor, Marcelo não teve um bom desempenho. Obteve resultados ruins na primeira e segunda provocação, e as críticas não eram fáceis de digerir. Quando não está às voltas com a escrita, é um dos gerentes num hotel próximo ao Palácio da Alvorada, o Royal Tulip Alvorada.
Conforme seu amadorismo característico, era extremamente desorganizado e quase empacou na segunda etapa por não ler previamente o cronograma. Ao procurar resultado da primeira etapa, descobriu que tinha apenas uma tarde para elaborar mais um texto, atrapalhando-se por completo. De qualquer modo, o texto saiu e lá estava ele buscando uma nova inspiração.
Mais um dia de trabalho e, naquela manhã, ao chegar no hotel, um dos empregados da recepção já o aguardava para colocá-lo a par do problema. A equipe de policiais já estava no local, e foi levada por outra entrada. Deste modo, tentavam manter certa discrição antes que se espalhasse a notícia de que um hóspede foi encontrado morto nas dependências do Royal Tulip Alvorada.
Sobre a cama da suíte bem decorada e deitado de lado, um indivíduo branco, sem camisa e bastante pálido se destacava ao lado das próprias fotografias. O movimento que fez para levantar, revelou a pequena tatuagem de um sino no antebraço esquerdo. No travesseiro caído havia uma mancha do que poderia ser gelatina de morango.
O hotel tentava localizar alguém da família para tomar as providências necessárias. O contato imediato com agência de publicidade confirmou que Vitor de Alencar era na verdade o nome artístico de Joao Bosco Ferreira. Cumpridas as formalidades iniciais, aguardava-se a chegada da perícia e, só então seria providenciada a retirada do corpo.
18 horas antes, um jovem bastante animado desceu do táxi carregando uma bagagem de mão. No hotel ficaria apenas o período pago pela agência, depois… bom, dependeria de outras coisas.
Sua suíte era no terceiro andar e pensou que seria ótimo usar as escadas, pois tinha medo de elevadores. Após se instalar, resolveu relaxar um pouco. Estava cansado e dormiu tão logo se deitou, acordando apenas na manhã seguinte.
Naquela hora, já era possível observar da varanda o movimento intenso na orla do lago. Ali não havia dúvidas de que o tempo existia para se aproveitar a vida – barcos e pessoas diversas passeando, crianças e seus animais de estimação. Tudo era destinado ao lazer.
O telefone tocou e o recepcionista avisou que alguém o esperava no bar. Desligou sem entender quem seria. No entanto, não se preocupou, seu contrato comercial estava próximo do fim e ambos os acordados não tinham a intenção de renovar. Porém, saiu do quarto na intenção de encontrar seu parceiro de negócios, o qual avisara que viria.
Vitor desceu esperando por uma conversa rápida. Estava definitivamente sem disposição para assuntos daquela natureza. Além disso, tinha uma sessão de fotos logo depois do almoço.
Surpreso, percebeu que o homem que o aguardava era outra pessoa e não gostou. Mas resolveu enfrentar a situação, nada do que dissessem mudaria a relação entre eles – a traição era muito recente e ambos estavam bastante magoados.
Frederico estava arrependido, fizera de tudo para reatarem, até chantagem. Porém, ele se manteve irredutível:
-Fred, o que faz aqui? Combinamos e você concordou que não nos veríamos mais…
– Calma Vitório (só ele o chamava assim)! Vim apenas devolver-lhe estas fotos, não quero mais guardar nenhuma lembrança sua.
Vitor estendeu a mão e, antes que pudesse pegar o envelope, suas mãos se tocaram. Por um momento seus olhares se cruzaram o suficiente para trazer de volta sentimentos que agora preferia não lembrar.
Segurou o envelope enquanto o outro se levantava para sair.
– Frederico!
Fred parou esperançoso.
– Esqueceu a caixinha!
– É sua, disse sem se voltar, são os seus preferidos!
Vitor ia insistir, mas resolveu deixar pra lá, melhor encerrar logo a conversa. Voltou e subiu lentamente em retorno ao seu quarto, contando os degraus. Mais tarde, iria saborear aquelas delícias, nunca resistiu aos bombons de cereja.
Era cedo e, vestindo apenas bermuda, resolveu experimentar um dos chocolates que recebera. No entanto, ao pensar no que o outro lhe fizera quis guardá-los. Mais tarde concluiu que o objetivo daquele presente era desfazer a má impressão. Comeu uns dois bombons jogou as fotografias sobre a cama lembrava das ocasiões em que foram tiradas.
Ao espalhar as fotos, percebeu um santinho de Dom Bosco, no verso um texto descrito em letras bem miúdas. Era do hotel e estava junto com os folders de eventos que ali se realizariam durante aquele mês. Ao pegar o santinho lembrou o quanto seu nome de batismo lhe trouxera sorte e que era quase um sacrilégio usá-lo somente quando era obrigado.
Mas ao mesmo tempo que essas ideias passavam por sua cabeça justificava-se dizendo que no seu ramo um Joao Bosco ainda estaria “escavando minas…” ou já se encontraria enterrado em um buraco qualquer.
De repente, teve vontade de vomitar. Sem conseguir levantar, ficou ali na tentativa de conter o mal-estar. Seu último pensamento foi o de que havia algo errado com a cereja dos bombons, o gosto parecia diferente…
A suíte permaneceu interditada vários dias após o encerramento da investigação. Não houve como abafar o envenenamento de um hóspede. Sabe-se que o único suspeito continua em liberdade.
Marcelo não teve coragem de adaptar aquela história para seu concurso e apesar do resultado ainda não ter saído ele acredita que avança para a etapa seguinte.

Contagem: 904 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

É interessante a estratégia de entrelaçar ficção e realidade, mas ela constitui, a meu ver, uma zona de risco que neste caso não produziu um texto coeso. A cena da descoberta do morto não sugere, de imediato, que o personagem esteja morto. O tempo verbal utilizado sugere um movimento feito na hora e não o movimento que ele tinha realizado para se levantar antes de morrer. Recomendo uma revisão mais cuidadosa do texto.

Celso Bächtold

Alguns pequenos erros foram percebidos:
– “Ao procurar__ resultado da primeira etapa”. Faltou o artigo definido “o”.
– “…aguardava-se a chegada da perícia e, só então seria providenciada…” Vírgula colocada em local inapropriado.
– “O movimento que fez para levantar, revelou a pequena tatuagem de um sino no antebraço esquerdo”. Esse parágrafo ficou confuso. Quem fez o movimento? O morto?
– “O contato imediato com agência de publicidade…”.Salvo outro juízo, faltou o artigo definido “a” (agência de publicidade).
– “…seu contrato comercial estava próximo do fim e ambos os acordados não tinham a intenção de renovar”. Não seria “as partes” não tinham a intenção de…? Acordado é o objeto do acordo, é o que foi combinado. Renovar o que? Não seria “renová-lo”?
– “Calma Vitório”. Faltou vírgula entre essas duas palavras, por se tratar de vocativo.
– “Comeu uns dois bombons jogou as fotografias sobre a cama lembrava das ocasiões em que foram tiradas”.Frase incompleta. Sugestão: Comeu alguns bombons e jogou as fotografias sobre a cama, enquanto se lembrava das ocasiões em que foram tiradas.
Percebe-se que o autor não teve tempo adequado para escrever esse conto, uma vez que a maioria dos erros pode ser detetada usando-se um corretor ortográfico automático qualquer. Mas o entrecho é muito interessante, bastando que se façam pequenas adaptações para que se torne um excelente texto.
Percebe-se, ainda, que o autor tem uma das principais características de um excelente escritor: a criatividade.

Paulo Fodra

Apesar da sacada de contar uma história dentro de uma história e ousar na metalinguagem, a trama proposta é simplória e previsível. Há erros de pontuação e supressão indevida de artigos. Capriche mais na revisão.

Roberto Klotz

Você mandou bem, Heliodora Ekonbeliongo. Cometeu dois pecadilhos: o primeiro: ser desatenciosa na leitura do regulamento e colocar o Marcelo na história. Por outro lado você tem dois méritos sensacionais: a criatividade e o rápido desenvolvimento do conto. Invista na escrita. Você é talentosa.
Observe que seu conto não perderia em nada, ficaria mais enxuto e mais impactante se deletasse os dois primeiros e o último parágrafos.
Abertura fraca. Desperdiçou a ótima abertura do terceiro parágrafo.
“Quando não está às voltas com a escrita, é um dos gerentes num hotel” a frase está invertida. Gasta-se mais tempo com a profissão. “O amadorismo característico, era extremamente desorganizado” não confere verossimilhança a gerente de hotel. Logicamente, a pressa impediu pequenos ajustes que fariam seu conto subir mais alguns degraus.

Simone Pedersen

Elementos do desafio atendidos. Bem escrito, criativo, final surpreendente. Evitar repetições próximas: “daquela noite”, “naquela noite”.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 7,5
Celso Bächtold  7,5
Paulo Fodra 8,0
Roberto Klotz 8,7
Simone Pedersen  8,3
Total  41,5