A hora do Angelus

Capitão Birobidjan

Hospedado no Uiraçu Apart Hotel desde a noite anterior, Amadeu Bento ainda não havia conseguido dormir. Vivera por anos como correspondente no Reino Unido e, agora, se encontrava ali, em uma suíte com vista para o Lago Paranoá. Não havia planejado aquele retorno indigesto, mas o pedido partira do Palácio da Alvorada. O presidente empossado nas eleições de 2018 lhe concederia uma entrevista exclusiva após a celebração do dia de São João Bosco, que se realizaria logo mais, na Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida.
Amadeu contemplou da varanda o enigmático céu de Brasília, enquanto formulava perguntas cujas respostas interessariam às potências europeias. Debutante na política, o presidente ainda não havia aprendido a odiar a mídia, o que facilitaria a sabatina. Depois de combinar por torpedo o horário no qual o restante da equipe deveria encontrá-lo, o jornalista resolveu desfazer o restante da mala.
― O que isto faz aqui?! ― espantou-se, dando um salto para trás.
Não entendia como aquele santinho de Dom Bosco fora parar em sua bagagem. A gravura havia se perdido com o tempo e não deveria estar ali, arrancando o passado da cova. Amadeu decidiu tocar o pequeno impresso a fim de provar para si mesmo que sua imaginação o traía, mas o folhetinho parecia bem real. Conferiu o verso da imagem e seus olhos vacilaram. Uma profecia de Dom Bosco ─ que, supostamente, versa sobre a edificação de Brasília ─ estava lá, gravada na parte de trás do cartão. O pai foi candango na construção da Capital, partira do Ceará para o Plano Piloto levando como bagagem de mão apenas aquele santinho.
O passado se esgueirou por trás das cortinas e entre os móveis, ameaçando saltar dos espelhos. De repente, o jornalista se viu remoçado, dentro da pobre casa em que crescera na divisa de Luziânia com Valparaíso. Reviveu o dia em que, febril, o pai gritava por seu nome, implorando para que o filho fizesse a vontade do Beato José Lourenço.
― Você também ouve, Amadeu? O sino foi o sinal de que os aviões cuspiriam a morte sobre a serra do Araripe. As badaladas me salvaram! As badaladas nos salvarão!
Aquela foi a última declaração feita por seu Tonho Bento. Após a morte do pai, muitos anos antes de se formar em jornalismo e deixar o país, Amadeu tatuou um sino sobre o peito esquerdo. Mas acabou se esquecendo do amor que nutria pelo velho, também perdeu o contato com sua mãe e irmãos. Por duas vezes fora a uma clínica estética a fim de livrar-se da pintura corporal, cancelando o procedimento em ambas as tentativas. O sino permanecia ali, como se esperasse pelo momento de ressoar.
O pai de Amadeu havia sobrevivido ao massacre do sítio Caldeirão, no Vale do Cariri, e recebera das mãos do próprio Beato José Lourenço o velho santinho de Dom Bosco. Apesar de ainda ser menino naquela época, seu Tonho lembrava-se com clareza das palavras do profeta, ao dizer que São João Bosco havia se enganado.
― Não vai brotar leite e mel da areia vermelha do cerrado. O Planalto Central vai coroar um matador de miseráveis ― predizia José Lourenço.
O Beato havia profetizado que em 31 de janeiro de 2019, durante a celebração do Dia de São João Bosco, um filho do Sítio Caldeirão teria de assassinar o presidente da república dentro da casa da mãe de Cristo, na hora do angelus. Segundo o líder religioso, o político precisaria ser destruído para que um verdadeiro representante dos pobres ascendesse ao poder.
Determinado a não se deixar influenciar pelos delírios de seu pai morto e pela falácia de um messias do sertão, Amadeu rasgou o santinho e bebeu três garrafinhas de vodca, o que lhe trouxe alguma quietude. Era um jornalista conhecido, um homem prático, não seria vencido por ideias plantadas em sua cabeça quando ainda era rapazote. Aprontou-se com elegância depois de um banho rápido e desceu para o hall do apart-hotel, onde sua equipe já o aguardava.
Chegando ao pátio de entrada do Templo de Nossa Senhora Aparecida, Amadeu sentiu-se observado pelas estátuas de bronze dos Quatro Evangelistas. Elas sussurravam em outra língua, sem mover os lábios metálicos, e sibilavam a inevitabilidade das coisas desde sempre escritas. Já dentro da nave, os seletos convidados participaram da missa em celebração ao santo do dia. O presidente da república, posto de pé na primeira fileira, orava com sua esposa e filhos. Também posaram com o arcebispo para fotografias quando a liturgia foi encerrada.
Durante um coquetel servido nas dependências da igreja, um assessor presidencial pediu para que Amadeu o acompanhasse. Neste instante, feito a voz de Deus, os sinos do campanário anunciaram a terceira hora do angelus. Amadeu sentiu como se a tatuagem em seu peito badalasse, estraçalhando sua carne e ossos. As vozes do pai e do Beato José Lourenço gritavam dentro de sua cabeça e intensificavam o desconforto causado pelos sinos. Ao lado da réplica da Pietá, o presidente o aguardava para a entrevista que seria feita diante da estátua de São João Bosco. Amadeu avançou sobre um dos agentes que fazia a guarda presidencial e, em um gesto veloz, conseguiu arrancar a arma do coldre. Ainda disparou dois tiros antes de ser alvejado pelos demais seguranças.
Caído sobre o chão, o atirador percebeu que jamais havia deixado a suíte do apart-hotel. Olhando para os diversos frascos de remédio junto ao seu corpo, lembrou-se de que era portador de um grave transtorno esquizoide. A estátua ferida de Dom Bosco, sentada sobre o sofá do quarto, fazia de leque uma dezena de santinhos. Enquanto o vermelho do sangue se derramava sobre a alvura do mármore, o porteiro do prédio lamentou com gravidade a manchete noticiada em seu radinho de pilha: O presidente eleito havia morrido de um mal súbito na exata hora do angelus.

Contagem: 972 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Tarefa cumprida com exímia competência literária. O texto me provocou, em especial por conseguir atravessar a linha do tempo, mantendo espantosa atualidade. Os diversos cenários estão muito bem entrelaçados: a história familiar do personagem conectada à fundação de Brasília, as tessituras de diferentes temporalidades que se cruzam, o cenário psicológico do delírio esquizofrênico. Mas apreciei, sobretudo, o desenvolvimento do tema, os recursos usados para configurar a anti profecia e sua inevitável realização. Várias preciosidades do conto me impactaram, pela consistência, criatividade e precisão da linguagem, como por exemplo: “O sino permanecia ali, como se esperasse pelo momento de ressoar”, “o Planalto Central vai coroar um matador de miseráveis”. Uma micro sugestão: na sexta linha a contar do fim, em vez de “lembrou que era portador …”, que tal” deu-se conta que era portador…”

Celso Bächtold

O conto apresenta um elaborado protagonista e utilizou muito bem a inspiração religiosa proporcionada pelo objeto-chave desse desafio. Assim, fixou muito bem a atenção do leitor até o momento final da narração.
Muito interessante o autor usar o momento da Anunciação, feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria, sobre a concepção de Jesus Cristo, para anunciar a morte da maior autoridade do Poder Executivo.
Se o protagonista sabia de sua doença, fica estranho dizer que ele se lembrou disso. Essa frase poderia ser omitida, deixando subentendido para o leitor.
Salvo outro juízo, o correto é “clínica de estética”.

Paulo Fodra

Conto perfeito, bem amarrado e primorosamente arrematado com um final muito criativo e perturbador. O autor conseguiu manter a tensão e o ritmo da narrativa ao costurar com habilidade a história real do Beato José Lourenço em sua trama. Parabéns!

Roberto Klotz

O autor provou que usa ferramentas de pesquisa com saber. Tem criatividade singular. Criou uma história complexa, bem costurada, com todos os elementos solicitados. Gostei muito. Entretanto empregou a família do pronome aquele 5 vezes. É importante observar a verossimilhança: seria improvável haver uma coletiva no dia de S. D. João Bosco (31/01), pois seria necessário que as eleições e a apuração ocorressem antes, no mesmo mês. Senti falta de diálogos. Ninguém conhece a catedral por Templo de Nossa Senhora Aparecida.

Simone Pedersen

Elementos do desafio atendidos. Criativo, bem escrito e cativante. Gostei muito. Indicaria para um amigo ler.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  10,0
Celso Bächtold  9,2
Paulo Fodra 10,0
Roberto Klotz  9,2
Simone Pedersen  9,5
Total  47,9