A hora do encontro

Pantaneiro

Já estava quase arrependido de ter vindo. Não era afeito a turismo, principalmente num país onde ninguém cumpria horário, sua maior obsessão. Tinha verdadeira psicose pelo relógio. Não fora decerto o tempo vivido em Londres que o deixara assim. Vinha de família esse rigor com as horas.

Sigmund Hochscheidt ou “Herr Sig”, como era conhecido, nascera em Filderstadt, ao sul da Alemanha. Era um amante das artes e tinha o hábito de frequentar museus. Pouco sabia da cultura brasileira, a não ser dos trabalhos de Athos Bulcão, que o fascinavam e o incentivaram a vir ao País. Conhecera a obra desse grande mestre numa mostra em Londres e, partir daí, fizera-se admirador e estudioso de Bulcão. Então decidiu conhecer pessoalmente os relevos das empenas do Teatro Nacional e as treliças coloridas do salão do Itamaraty. Mas era com os azulejos que ele mais se encantava. Na Igrejinha, ficara sabendo que outros artistas imitavam Bulcão, pirateando sua arte, algo inconcebível, na sua opinião. Sua programação cultural em Brasília incluía também uma visita ao Relógio de Sol do Parque da Cidade. Sempre obcecado por relógio, fazia questão de conhecer aquele que só funciona à luz solar.

Saiu do hotel debaixo de um sol forte, suado, vermelho, afogueado. Não entendia como uma cidade de clima ameno podia ter um sol tão escaldante. Naquele dia, tinha um motivo a mais para enfrentar essa canícula. No gramado próximo ao Relógio de Sol, haveria uma exposição de azulejos raros de Bulcão. Segundo a curadora, era um trabalho inédito do artista. Pouco antes de morrer, Bulcão teria confidenciado a amigos que desenhara aqueles azulejos pensando na estrutura de concreto que sustenta o Relógio de Sol. Herr Sig sentou-se num banco, à sombra de uma árvore, aguardando a hora do evento. De repente se deparou com aquele rosto, que chamou sua atenção.

Juliana chegara com uns amigos e sentara-se a poucos metros dele. Usava um boné, que prendia seus cabelos, impedindo que seu rosto fosse visto por inteiro. De repente, tirou o boné, virou-se de lado e deixou seu rosto à mostra, ajeitando os cabelos. O alemão ficou deslumbrado com a beleza da menina. Sua leveza, sua naturalidade, a suavidade da voz, tudo nela contrastava com o que tinha visto até o momento em Brasília.

Herr Sig, a pretexto de saber qual o horário exato da mostra, puxou conversa em inglês. A moça, percebendo tratar-se de um estrangeiro, respondeu também em inglês, mostrando desenvoltura com o idioma. “Já era um bom começo”, pensou. Depois disso, seguiram-se outros diálogos, que levaram a novos encontros e, aos poucos, engataram um namoro.

Juliana, brasileira, filha de diplomata, cursava mestrado na UnB. Ele, um solteirão convicto, quase quarenta anos, apaixonara-se por ela como um adolescente. Em nome desse amor, resolveu esticar sua permanência na cidade. Contudo, tinha medo de assustar a namorada com suas manias, principalmente por causa de sua obsessão pelos horários. Procurava ser flexível com Juliana, tolerando os pequenos atrasos dela nos encontros, sem reclamar, apesar de sentir-se incomodado com isso. Poucos dias depois, Juliana o convidou para jantar na casa dela, para apresentá-lo aos pais. O evento seria no sábado, às 20h. Aceito o convite, pensou consigo: “Se é um jantar formal, certamente o horário deve ser cumprido à risca”. Como Juliana morava no Lago Sul, Herr Zig tomou o cuidado de, pela manhã, alugar um carro e ir conhecer o local. Assim teria ideia da distância e saberia o tempo de deslocamento do hotel até a residência da amada. Com a ajuda do GPS, fez o percurso em pouco mais de vinte minutos. À noite, decidiu, por precaução, sair do hotel com uma hora de antecedência. Em vinte minutos estava em frente à casa dela. A mansão encontrava-se toda iluminada, embora com as portas ainda fechadas. Estacionou o carro uns 100 metros depois da casa, pois considerava deselegante esperar quarenta minutos na frente da residência. Permaneceu no carro, consultando o relógio a cada 5 minutos. Tentando controlar a ansiedade, decidiu que só tocaria a campainha um minuto antes do horário marcado. Faltando 5 minutos, saiu do carro, dirigindo-se para a frente da casa. Andou uns 50 metros, mas lembrou-se das flores que comprara para Juliana. Voltou ao carro, pegou o buquê e foi para a porta da casa. Quando chegou ao portão, já passavam dois minutos das 20h. A porta principal estava aberta. O mordomo o recebeu, convidando-o a entrar. No hall de entrada, os convidados erguiam um brinde. Ele se apressou, mas foi inútil: perdera o brinde. Quando Juliana o viu, veio sorridente a seu encontro. Percebendo o desconforto do namorado, tentou amenizar-lhe o constrangimento, alegando. “É coisa de papai. Ele tem mania de horário. Exatamente às 20h, mandou abrir a porta e já recepcionou os convidados com um brinde”. “Desculpe se não o preveni disso. Mas não se preocupe. Você não está atrasado”, completou Juliana, desfazendo-se em amabilidades. Herr Sig não se conformava. Logo ele, tão zeloso por horário, atrasar-se para o brinde, tendo chegado ao local com 40 minutos de antecedência?

Visivelmente envergonhado, foi apresentado aos pais de Juliana. Conquanto os anfitriões fizessem tudo para deixá-lo à vontade, Herr Sig quedava-se combalido, como se tivesse sido atingido por um tiro de escopeta. Não conseguia disfarçar o vexame, tampouco perdoar-se pelo ocorrido. Assim que teve uma oportunidade, pediu licença e foi ao toalete imolar-se diante do espelho. Ao entrar no lavabo, ficou pasmo. As paredes eram decoradas com azulejos de Bulcão! Isso o deixou mais relaxado, sentindo-se em casa. Agora entendia o interesse de Juliana pela obra do artista. Aproximou-se para conferir. “Não! Não pode ser!”, exclamou. Aquilo não era autêntico. Eram azulejos pirata de Athos Bulcão. Ficou desoriginado. Saiu apressado sem falar com ninguém. Na manhã seguinte, pegou o primeiro voo para a Alemanha. Naquela tarde, uma bela jovem foi encontrada morta no gramado próximo ao Relógio de Sol do Parque da Cidade. Junto ao pulso cortado, um pedaço de azulejo pirata de Athos Bulcão.

Contagem:  990 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

Atendeu às provocações. Abusou da família “aquele” com sete ocorrências. Como também repetiu “tinha” 5 vezes. Muito longa a descrição da aproximação à casa de Juliana. Parece querer preencher linhas. O conto moderno procura ser mais enxuto, mais dinâmico, com maior impacto. Genial a expressão “desoriginado”. Muito bem escrito. Fechamento de alto impacto.

Ana Vilela

Texto e narrador bem construídos. A ideia da obsessão com as horas é boa e o fato dessa mesma obsessão gerar outra: mostrar que não é obsessivo. Porém, o conto termina abruptamente, como se houvesse pressa em se livrar dele. O suicídio também não é um fim que surpreenda.
O melhor trecho do conto é aquele que segue do momento em que o alemão é convidado para jantar até aquele em que entra na casa atrasado e é recebido pela namorada. Essa parte mostra um narrador seguro, que apresenta bem a obsessão do personagem.

Betty Vidigal

Revisão:
● uma pessoa não tem psicose “por” algo.
A jovem se matou ou foi assassinada? Se matou por que ele foi embora? Ou ele matou ela por causa dos azulejos falsos? ou de vergonha pelo atraso?
De qq forma, não é convincente.
— Se Herr Sig estacionou o carro a 100 metros, ele não viu a movimentação de convidados entrando? Se às 20h02 já chegou atrasado para o brinde, e se os portões foram abertos às 20h00 em ponto, deu tempo para entrarem todos os convidados e o champagne ser servido e o brinde ser feito, em 2 minutos?
O vocabulário é um pouco antiquado em alguns pontos, e não parece ser por opção deliberada (“quedava-se combalido”), por exemplo.

João Paulo Hergessel

Tem palavras demais e marcas estilísticas de menos. Senti que o excesso de ações (acredito que possamos até considerar há descrição dinâmica em demasia dentro dos parágrafos) tornam o texto pesado. Faltaram construções metafóricas que suavizassem um pouco o processo e mostrassem algo da originalidade do autor. Gosto quando existe brincadeira com as palavras, quando o leitor consegue notar que houve cuidado com a sonoridade, quando as construções são feitas de forma a despertar o lado imagético: sugerir mais do que contar; criar afeto mais do que despejar acontecimentos. Com isso, não quero dizer que seja necessário atingir o grau de prosa poética, mas umas estipulias expressivas aqui e ali são muito bem-vindas. Quanto ao conteúdo, a obsessão do alemão me pareceu bastante forçada: por mais fanático que uma pessoa seja no artista, não é verossímil a ideia de que ele assassinaria a namorada apenas porque o pai dela adquiriu réplicas da arte de seu ídolo. A ficção, infelizmente, tem desse mal: é preciso ser crível, mais do que a realidade incrível que vivemos.

Oswaldo Pullen

A construção do personagem Sigmund é interessante, sendo o conto bem conduzido. No entanto, o encerramente compromete com sua fragilidade a qualidade do trabalho até ali realizado.

Nota

 

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 9,0
Ana Vilela 8,0
Betty Vidigal 8,9
João Paulo Hergessel 8,5
Oswaldo Pullen 8,8