A maldição La Fontaine

Capitão Birobidjan

Depois de trabalhar por três anos no subterrâneo do Plano Piloto, Clemilton ascenderia à superfície. Seu esforço como supervisor da estação de metrô da Rodoviária de Brasília fora finalmente reconhecido pelo destino. O convite para uma recepção de gala no Itamaraty, encontrado durante suas rondas, era a prova incontestável de que, muito em breve, trocaria as galerias pelas coberturas.
— Se livra disso, Miltinho! — advertiu-lhe um colega mais antigo. — Ninguém pega o que pertence à estação. Se lembra da Rose? Aquela bonitinha dos guichês? Pois é. Ela tentou entrar na Nicolândia com um ingresso que encontrou junto das catracas e foi atacada por um exército de formigas antes de ter a chance de se divertir.
— Cascata!
— É sério! E a alma de uma garota pegou o bilhete de volta…
Clemilton debochou da lenda urbana e beijou o convite. Depois que atravessasse os arcos suntuosos do Palácio do Itamaraty, não se sujeitaria mais ao zangarrear de passageiros insatisfeitos.
No dia da solenidade, seus primeiros passos rumo ao topo se deram nos degraus que levam à Pastelaria Viçosa. Precisava comer algo para não fazer feio na recepção e também conferir o efeito que o smoking alugado causaria nas pessoas. Foi quando a cigarra surgiu. Pousada sobre o respaldo de uma cadeira, sua presença desafiava a lógica sazonal. O conveniente seria que ela estivesse debaixo da terra, aguardando pelos cios ensurdecedores de setembro.
— O que faz aqui? — sussurrou com cumplicidade. — Ainda está longe de sua estação, amiguinha. Aliás, pensando bem, se você pode circular por Brasília em uma noite de março, o que me impede de provar do “Bolo de Noiva”?
Indiferente à excitação do aspirante a vigarista, o bichinho agitou as asas brilhantes e levantou voo, dirigindo-se às plataformas de onde partem os ônibus.
― Um sinal! ― concluiu Clemilton, maravilhado.
Pela vidraça do transporte que o levou à Esplanada dos Ministérios, o rapaz olhava para Brasília como se dela já nem lembrasse. Trocaria o metrô por uma embaixada europeia. O futuro diplomático no exterior seria garantido não por um concurso público, mas por seu carisma. Ao dar sinal para descer, percebeu que a cigarra da pastelaria tinha feito o trajeto no mesmo ônibus que ele. Queria aquela diabinha como amuleto, mas teve de saltar do veículo e ir ao encontro da própria sorte pouco depois de ver o inseto voar por uma janela.
Uma vez sob os arcos do prédio, o medo de ser desmascarado fez com que Clemilton vacilasse. O convite não estava nomeado, mas devia haver uma lista. A fim de ganhar tempo, fingiu conversar ao celular no instante em que um grupo de recém-formados do Instituto Rio Branco dirigia-se à entrada principal. Avistando a cigarra sobre o ombro de um dos integrantes da comitiva, sacudiu seus receios no ar e tomou parte na pequena multidão, que teve o acesso facilitado pelo diretor-geral do instituto, efusivo e orgulhoso por tê-los ali.
O intruso caminhou pelo salão feito um lince, sob o incrível teto que parece flutuar. Agiu com naturalidade, apesar da pompa que lhe atordoava a percepção de pobre moço de Taguatinga. Próximo à escada helicoidal, um diplomata descrevia aos colegas a importância de seu trabalho nas relações entre o Brasil e a Namíbia. Outro grupo discutia, junto ao jardim aquático, ações humanitárias realizadas no Haiti. A fim de ganhar coragem e se aproximar de alguma roda de conversa, procurou por seu talismã alado, mas tudo o que viu foi um mundo impenetrável no qual seria difícil ingressar apenas com um sorriso. De atitude tenaz, decidiu conferir a apresentação artística da noite e, quem sabe, ganhar a simpatia de algum amante de música clássica.
A satisfação ao encontrar a cigarrinha faceira sobre a tiara de uma atriz famosa foi quase tão grande quanto o desejo de conquistar uma vida fácil. Mas seu pequeno prazer logo foi tolhido pelo estrilar ruidoso do inseto ─ que até então se mantivera silencioso ─, em total desarmonia com o quinteto de cordas que se apresentava. De repente, contrariando todos os artigos científicos de entomologia, uma nuvem espessa de cigarras interrompeu a execução de “O Guarani” e, ciclônica, avançou sobre Clemilton. Os insetos ziguezagueavam enlouquecidos e fizeram um barulho infernal, retirando o bicão de seu anonimato. Com os tímpanos latejando de dor, mal ouvia as advertências feitas pelos dois seguranças que o afastaram do saguão do Palácio aos safanões.
No caminho de volta para casa, o arremedo de gata borralheira saltou as catracas do metrô e acomodou-se em um vagão aparentemente vazio. “Ainda não foi dessa vez”, pensou aborrecido.
— Gostou da festa, Miltinho? Ouvi dizer que você dançou com algumas amigas minhas — disse uma voz jovial.
— Ai, Jesus! — espantou-se Clemilton ao perceber que uma garota translúcida se encontrava sentada ao seu lado. Pensou em gritar, mas não havia ninguém para socorrê-lo. Então permaneceu quieto enquanto a aparição revelava seu propósito.
— Jesus, não. Fantasma da Estação! — continuou a entidade. — Pouco saio para aproveitar as coisas do mundo. Deveria ter deixado meu convite no lugar onde o encontrou. No próximo dia 31 é meu aniversário, sabia? Você roubou meu presente.
— Deus… O que dizem é verdade!
— Trema! Sou a prova sobrenatural de minha própria existência.
— Pensei que você torturasse os vivos com formigas.
— Ah! O Palácio do Itamaraty merecia um pouco mais de dramaticidade, não acha? Aliás, você conhece La Fontaine? Não paro de ler desde o dia em que esqueceram um livro dele aqui. Assim como eu, ele se utiliza de animais para ilustrar suas histórias, que sempre se encerram com uma moral. Tem de tudo: mulas, lobos, ratos, lebres… Como também formigas e cigarras, que são mais numerosas no cerrado e, como todas nós vivemos aqui embaixo, gostam de me ajudar.
— Que moral devo tirar desse desastre de noite?
— A seguinte: Não se rouba de quem conduz as pessoas a seus destinos!
— Entendi. Ainda bem que não me enviou ratos…
— Ah, não! Quem os controla não sou eu, tolinho, mas o Fantasma do Congresso! — revelou com um riso antes de desaparecer no ar.

Contagem: 998 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto interessante. Ambiente de Brasília bem integrado à narrativa, com alusões sugestivas, como em “(…) o que me impede de provar o Bolo de Noiva?” (eu tiraria as aspas). Consistente o clima de ascensão que permeia o conto: da cigarra, que “ascenderia à superfície”, do personagem, com “seus primeiros passos rumo ao topo” ao subir os degraus que o levariam à pastelaria Viçosa, como “aspirante a vigarista”. O contraponto entre os subterrâneos das cigarras e do trabalho no metrô e a subida dos insetos desafiando a lógica sazonal, assim como o delírio de ascensão fácil do personagem desafiando o bom senso, confere consistência à narrativa O final é demasiado explicativo, a meu ver.

Alexandre Lobão

A história está muito bem escrita, com um ou outro pequeno ajuste que poderia ser realizado à guisa melhoria (por exemplo, a combinação de diferentes pretéritos em “…ziguezagueavam enlouquecidos e fizeram…” não é necessariamente errada, mas não soou bem). A analogia do trabalho do protagonista com o ciclo de vida das cigarras foi magistral.
O final também ficou um pouco “forçado”, como se uma piadafosse incluída à revelia dos personagens apenas para garantir um fechamento. Por que ratos? Para fazer mais sentido esta menção, no mínimo o personagem deveria ter mencionado anteriormente que odiava ou temia ratos.

Allan Vidigal

Pareceu perder um pouco o ritmo do meio para o fim. Também não gostei muito dos diálogos, que achei – principalmente no caso do Clemilson – meio inverossímeis.
A história é divertida. No começo, achei que ia para o lado do terror; no finalzinho, desvia para o cômico (e talvez seja essa a mudança de ritmo que senti). Foi uma surpresa, mas, infelizmente, não muito agradável.

Ana Vilela

O texto é bem escrito, limpo, correto, coerente, está bem alinhavado, mas falta força, algo que pegue o leitor. O fantasma é um grande facilitador no desfecho do conto, mas não acrescenta muito. Parece um tanto óvbio ele realmente voltar no final ou, mais ainda, voltar e aplicar uma moral, como nas fábulas – ideia intencional. Talvez o diferente estivesse em quebrar a moral finalizadora. Falta também um ápice, um momento mais forte do que apenas inúmeras cigarras sobre o personagem. É como se o texto seguisse da mesma forma, no mesmo tom, do começo ao fim.

Betty Vidigal

A estória estava ótima até que surgiu a fantasma. Aí virou piada. Pena!

Celso Bächtold

– “O intruso caminhou pelo salão feito um lince, sob o incrível teto que parece flutuar.”: creio ser melhor utilizar o verbo “parecer” no mesmo tempo verbal que o verbo “caminhar”. Assim, poder-se-ia utilizar “que parecia flutuar.”
O entrecho está um tanto inverossímil, mas tem seu valor como um conto que eu classificaria como de terror ameno.

Cinthia Kriemler

Os três elementos solicitados estão aí. Mas não me empolgou. Em vez de criativo, achei uma miscelânea de ideias esse conto. Chegou a me dar a impressão de que o autor não sabia para onde ia. Houve uma orientação do desafio, inclusive, que dizia “A personagem é uma cigarra. Cuidado para não escrever uma fábula ou crônica.” Esta semana, ficou devendo.

João Paulo Hergesel

É um conto que mescla fábula com lenda e, por isso, não sustenta um padrão de gênero textual. Seria mais interessante se o desfecho ocorresse com a aparição do Fantasma da Estação. Os parágrafos seguintes, com o diálogo entre ela e Clemilton extrapola as fronteiras do didatismo e não mantém a literariedade do conto.

Marco Antunes

Havia, na provocação, uma clara advertência para não cair na fábula e o autor não ouviu. O entrecho não chega a ser propriamente fantástico, pois jamais logrou fazer o elo com os aspectos alegóricos que a literatura fantástica exige, de modo que resultou apenas em uma enredo confuso, sem nenhum nível bem construído subterrâneo ou além da superfície dessa história bizarra e sem exegese que acabamos de ler.

Nálu Nogueira

Achei criativo e penso que o autor conseguiu unir bem todos os elementos da provocação. No entanto, a história não me “capturou” e, apesar de correta, achei fraca.

Oswaldo Pullen

Terminou que, com sua lição de moral, virou uma fábula pouco verossímil. O conto se arrasta lentamente até o coral de cigarras, que termina empurrando o personagem central, que não era a cigarra, para os braços do fantasma moralista.

Paulo Fodra

Conto fantástico bem escrito que flerta justamente com o risco de se transformar o texto numa fábula. Embora todos os requisitos tenham sido cumpridos à risca, o final deixou a desejar quando comparado à excelente cena do ataque das cigarras – para mim, o ponto alto deste conto.

Roberto Klotz

Bom começo e melhor fechamento. Empregou com louvor os elementos da provocação. A explicação desnecessaria sobre La Fontaine veio em diálogo, soou professoral e esfriou o fechamento. Extremamente criativo.

Simone Pedersen

Um conto criativo e interessante. Parabéns! Não havia necessidade de explicar, tirou a agilidade do diálogo: “Assim como eu, ele se utiliza de animais para ilustrar suas histórias, que sempre se encerram com uma moral. Tem de tudo: mulas, lobos, ratos, lebres…”.
Gostei do Fantasma do Congresso e seus ratos. A cigarra é personagem?

Wilson Pereira

O desafio foi contemplado pelo conto, que tem enredo interessante, puxado para a fábula. Há coesão e articulação entre os fatos, com boa sequência e desenlace. No entanto, a linguagem está um pouco aquém de um nível literário exemplar.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  8,9
Alexandre Lobão 9,5
Allan Vidigal 8,5
Ana Vilela  8,5
Betty Vidigal  9,6
Celso Bächtold 9,5
Cinthia Kriemler  8,0
João Paulo Hergesel 8,5
Marco Antunes  8,0
Nálu Nogueira 8,5
Oswaldo Pullen  8,5
Paulo Fodra 9,5
Roberto Klotz  9,3
Simone Pedersen  9,5
Wilson Pereira  8,5
Total  132,8