À margem

Ivan Martins

Entra e vai direto para o quarto, onde retira as roupas e coloca em cabides no armário. Abre uma mala sobre a cama, deixa a outra no chão, vai para o banheiro e toma banho. Tem o corpo coberto por tatuagens, todas imperceptíveis quando vestido, a maior delas um enorme sino nas costas. Se seca e caminha até a cama, de onde retira as roupas que veste: um terno cinza de corte clássico sobre uma camisa branca. Vai até a varanda fumar um cigarro e finalmente percebe o lago à sua frente. Fica alguns momentos preso pela luz do sol que bruxuleia sobre as águas, e sorri. Fuma o cigarro olhando a vista das ondas tranquilas, e volta para dentro, onde prepara o nó da gravata de seda. Sai para fumar mais um cigarro, e percebe algo que não vira antes: poucos metros à direita, após o muro lateral do hotel, há um grande campo gramado onde um homem, que parece jovem, está sentado num sofá, ereto, encarando algo à sua frente, como se assistisse televisão. À sua volta há sujeira e objetos largados, e pelas muitas garrafas de bebida parece que uma festa ocorreu ali. Durante todo o cigarro o rapaz se mantém estático. Volta para o quarto e liga para a recepção, uma mulher atende, pede um táxi com inglês carregado. Leva a mala menor até a sala, e a deixa perto da porta. Está quase na hora. Sai para o último cigarro, e vê que o rapaz senta num grande balde ao lado do sofá, e parece ler um jornal cujas páginas restantes estão espalhadas, algumas rasgadas. Lê devagar e de forma afetada, virando as páginas com movimentos extravagantes. Levanta de um salto, caminha em círculos entre o sofá e o balde por algum tempo, senta novamente no sofá, assumindo a posição de espectador outra vez. O telefone toca. Entra, atende e pede em inglês para que o taxista espere um pouco. Volta para fora e o rapaz está agitado com algo que assiste. Ele levanta algumas vezes e grita “não!” ou “não faz isso!”, e logo senta, mas continua alvoroçado. O celular toca, atende e conversa em ídiche por alguns minutos, enquanto assiste a azáfama do rapaz escalar. Quando desliga ele grita e chora palavras incompreensíveis. Os gestos são desesperados e os gritos são intercalados por prantos amargos. O rapaz reúne todo o jornal disperso no chão e organiza com precisão, senta e passa a ler com a atitude afetada. O celular toca mais uma vez, atende em ídiche e dessa vez a conversa é rápida e áspera. O rapaz lê o jornal lentamente, vira uma página segurando na ponta de baixo e gira o braço, lançando todas as páginas para cima. Volta a ler a única que manteve agarrada em sua mão. Após alguns minutos abre toda a folha, dupla, e a rasga ao meio. Rasga outra vez ao meio, e várias outras vezes, enquanto grita “Não! Não! Não!” e passa a pisotear as páginas. O telefone toca. Atende e fala que o motorista será bem recompensado pela espera e que demorará mais um pouco. O panfleto ao lado do telefone chama sua atenção, lê enquanto ouve a atendente traduzir para o taxista. Desliga e vai para a varanda, leva consigo o panfleto. O rapaz corre, apanha e rasga as folhas espalhadas freneticamente. Quando termina senta no sofá e assume a posição espectadora. Lê e relê o panfleto diversas vezes olhando o rapaz estático. O rapaz volta a gritar “Não!” em berros longos e grasnados, puxa os cabelos e corre até os pequenos montes de papel picado onde berra e pranteia. Olha o lago plácido, pega o celular e disca. Uma voz feminina atende em português.
“Oi, tudo bem?”
“Tudo bem.”
“Aconteceu alguma coisa? Não era pra você estar ocupado a essa hora?”
“Você estava certa. Esse lugar é diferente. Você tinha que sentir, é tão forte.”
“Eu queria estar aí com você.”
“É. Não sei se seria uma boa ideia. Aqui é perigoso também.”
“Mas você está bem, não é?”
“Estou sim, meu amor.”
“Eu tô com tanta saudade.”
“Foi por isso que te liguei. Estou indo para o aeroporto. Pego o primeiro voo, em algumas horas estarei aí.”
“Terminou?”
“Não. Não vou mais.”
“Por quê?”
“Eu não preciso mais.”
“Você tem certeza? Eu fico com medo…”
“Eu tenho mais do que certeza. Se você estivesse aqui você entenderia. Não precisa se preocupar.”
“Então vem pra casa ficar comigo. Tô tão sozinha. Faz tanto tempo que você foi embora.”
“Muito tempo… Mas acabou. Em algumas horas estarei em casa, tá bom?”
“Que bom. Te espero.”
“Tchau.”
“Tchau.”
O rapaz pranteia e se contorce sobre as folhas rasgadas e o lago balança devagar e o vento bate agradável refrescando o calor do poderoso sol que a tudo toca, quando dobra o panfleto e põe no bolso de dentro do paletó, entra, vai até o quarto, pega as roupas nos cabides, fecha a mala, carrega até a sala, para e pega mais um dos panfletos sobre a mesa e coloca dentro da mala menor, deixada ao lado da porta. E vai embora.

Contagem: 856 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Tive dificuldade em compreender o texto. Contudo, a narrativa acerca das movimentações e do comportamento bizarro do personagem observado merece elogios.

Celso Bächtold

Duas observações:
1) “Se seca e caminha até a cama”: caso de ênclise, e não de próclise, além de tornar a frase cacofônica;
2) “…como se assistisse__televisão”: salvo outro juízo, assistir é verbo transitivo indireto e deve ser empregado o “à”.
O texto está muito bem escrito, mas o autor não cumpriu com o estabelecido pelo desafio com relação ao objeto-chave (santinho com a profecia de Dom Bosco). E faltou especificar que estava num apart-hotel, e que este era próximo ao Palácio da Alvorada.

Paulo Fodra

Das premissas da provocação, só a tatuagem foi claramente mencionada. Ainda assim, de maneira muito abrupta destoando do restante do texto, como que só pra cumprir tabela. O quarto poderia ser de qualquer hotel à beira um lago. A narrativa é confusa demais na descrição das ações. O estilo parece querer remeter ao noir de Raymond Chandler, mas falha na clareza das descrições. A ação entrecortada se confunde sempre que duas pessoas interagem na mesma frase. Exemplo: “Volta para o quarto e liga para a recepção, uma mulher atende, pede um táxi com inglês carregado.” Do jeito que a frase está escrita, parece que a mulher que pediu o táxi. Além disso, há o emprego excessivo de “onde” nas descrições, numa construção em que normalmente se recomenda evitar. Para fechar com chave de ouro, a trama fica sem pé nem cabeça. Se há alguma intenção por detrás do texto, ficou só na cabeça do autor, que falhou em se expressar.

Roberto Klotz

A abertura não fisga o leitor. Na sequência há muitos detalhes desnecessários que tornam a leitura cansativa. É inverossímel entender um “não” ou “não faz isso” dito tão distante. A frase “Quando desliga ele grita e chora palavras incompreensíveis.” dá a entender que o hóspede chora. Só duas frases à frente entendemos que se refere ao homem do gramado. O diálogo literário não é uma imitação literal, é fruto de elaboração, mas soa como fala real. Poderia ser mais enxuto, entremeado com colocações explicativas do narrador. A tatuagem, sem motivação, sem simbolismos sem justificativa está apagada na história. Acho que a história pretendia ser surreal, entretanto pareceu-me confusa. Tanto que, infelizmente, não entendi o conflito nem o desfecho.

Simone Pedersen

Os elementos do desafio estão presentes.
Precisa de revisão. Por exemplo, tem sete vezes “e” no último parágrafo.
Eu não fui fisgada por essa história.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  7,0
Celso Bächtold  7,5
Paulo Fodra 7,0
Roberto Klotz 7,0
Simone Pedersen 7,8
Total 37,3