A noite do Paranoá

José M. Umbelino Filho

Giovanna se despiu e tomou outro gole de champanhe. Fora muito bem recomendada pelos deputados Salgado e Valadares. Disseram que ela era a mescla perfeita entre a rainha de Sabá e Serena Williams. Os olhos misteriosos só podiam ser da lendária soberana etíope. Já as coxas… O deputado Veloso sorriu ao vê-la nua. Ainda falava ao celular, um charuto pendente no canto da boca, a gravata afrouxada:
– Eu fico muito agradecido, Valadares. Muito agradecido. Se esse projeto não passa, a gente se complica demais. Não só a minha ala, claro. Todo mundo vai pro pau. Todo mundo. Sim, conta com o meu voto de minerva! Temos que marcar alguma coisa para comemorar depois. Com certeza! Com certeza!
A noite estava preta qual borra de café, e lustrosa, sem estrelas, como se alguém a tivesse lixado. Giovanna desfilou pela lateral da lancha. Lá longe, as luzes da cidade refletiam no espelho d’água. O Paranoá respirava, irrequieto e escuro como um grande anfíbio. Então ela sentiu as mãos do deputado enlaçando sua cintura:
– Pronto, belezinha. Desculpe a demora. Vamos comemorar!
– Dia bom no trabalho, querido? Resolveu a fome no Brasil?
– Ah, ah! Você é uma diabinha!
O deputado distrital Veloso era conhecido por duas coisas: pelo bordão de campanha “Veloso, o político zeloso”; e pela mania de levar beldades para passeios noturnos de lancha após vitórias políticas. Naquela noite, ele se sentia particularmente animado. As bases aliadas dependiam dele para passar um projeto de lei providencial. Por isso a lancha e o charuto. Por isso Giovanna.
– O problema desse país, minha filha, é que ninguém confia na classe política.
– É mesmo, querido?
– Nós trabalhamos feito mulas! Temos o serviço mais insalubre de todos, e as pessoas desconsideram isso aí. Entende?
– Claro.
– Esse projetinho, por exemplo, para restringir a fiscalização popular sobre os trabalhos do legislativo…. É um progresso! Nosso trabalho é complicado, não dá para qualquer um ficar metendo o bedelho.
– E só depende do seu voto?
– Exatamente! O país nem sempre entende nosso sacrifício.
– Como salvar o Brasil se o brasileiro vive atrapalhando, não é?
– Ah, Ah! Valadares avisou que você era terrível!
Giovanna sabia que não era preferida dos deputados por sua perspicácia. Eles gostavam mesmo da pele negra, do sorriso amplo, das ancas generosas. Mas ela tinha até certa afeição por aquele tipinho de homens – de algum modo, eles pareciam inocentes, quase ingênuos. Eram como meninos pobres numa sorveteria: sempre com fome, sempre querendo mais.
– Mas vamos ao que interessa, princesa. Você foi bem recomendada…
– O que disseram de mim?
– Que você faz mágicas na cama.
– Delicado da parte deles.
– E não apenas na cama. Disseram que você lê o futuro.
– Ah, mas esse é outro serviço.
– Posso pagar por todos os seus serviços.
– Você pode tudo, querido.
Giovanna desfilou de volta para o deque da lancha. Sentia um pouco de frio, mas não pela noite, que estava quente, e sim pelo lago. Tirou da bolsa um baralho de tarô. O deputado a observava como um cachorrinho. Ela se sentou com ele a seus pés.
– Como você aprendeu essas coisas, princesa?
– Com minha avó. Antes de vir para cá, ela lia cartas no Piauí. Em 1959, as mulheres que chegavam a Brasília acompanhavam seus maridos. Mas não vovó. Ela não veio por causa de homem. Dizia que a nova capital precisava mais de cartomantes que de pedreiros.
– Sua família se estabeleceu onde?
– Numa vila que não existe mais. Vovó acreditava que Brasília era uma cidade predestinada. Erguida sobre profecias, encantada pelas histórias dos que vieram morar e morrer aqui. Milhares de trabalhadores trouxeram seus patuás, seus orixás, seus santos, para cumprir o sonho de uma nação. Brasília, a cidade anjo. Mas resolveram cercá-la com o Paranoá e seus tentáculos de polvo. O anjo de Brasília voa rumo à boca do lago. Como se quisesse cair nele e ser engolido pelas águas.
– Bem disseram que você era articulada.
– Agora, não leio cartas para qualquer um.
– Eu pago.
– As pessoas querem saber mais do que devem.
– Ah, vamos lá. Jogue as cartas por mim. Fale apenas da votação de amanhã.
Giovanna estava séria. O rosto oculto pela noite, os cabelos revoltos, as aureolas dos seios eriçadas como estrelas. Enquanto dispunha as cartas, deputado Veloso estremeceu.
– O tarô fala por imagens. Não há respostas simples. Mas vejo uma vitória. A carta do guerreiro. São Jorge matando o dragão. Parabéns, deputado
– Isso é ótimo! Ótimo!
– Vamos brincar de outra coisa?
– Espera.
O deputado Veloso se pôs de pé. Olhava com sofreguidão para as cartas. Giovanna conhecia aquele olhar de menino pobre na sorveteria. Sempre com fome, sempre querendo mais.
– E a minha morte?
– Não leio essas coisas.
– Sei que lê.
– Deixa disso.
– Eu pago o dobro. Pago o triplo.
Giovanna jogou novamente. Seu semblante, antes sério, agora era uma máscara fria e indecifrável como o rosto de Oxum, a senhora dos rios.
– Querido, apesar dos seus pecados, você terá uma vida longa. Basta que respeite uma condição simples…
– Qual?
– Uma condição ridícula. Se você dormir uma noite sobre os barracos da cidade, na companhia de uma herdeira de Atlântida, então morrerá assassinado.
– Dormir sobre barracos? Eu?
– Isso.
– Com uma herdeira de Atlântida?
O Deputado Veloso deu sua melhor risada. Não quis mais explicações. Puxou Giovanna para si e bebeu de seu champanhe.
– Prometo não fazer nada disso. Mas agora venha aqui e me dê um beijinho.
Entraram para a cabine. A noite seguia absolutamente preta lá fora. Abaixo do céu, a lancha balançava preguiçosa. Abaixo dela, o Paranoá sussurrava sua ladainha anfíbia. E abaixo do Paranoá, silenciosos e tristes, telhados de zinco, sacos de cimento, barracos de tábua, ruelas ocultas, sofás e panelas submersas da Vila Amaury.

Contagem: 990 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto brilhantemente concebido e elaborado, bordado de referências irônicas aos políticos e à política antipopular que ignora e despreza as bases. Personagens muito bem delineados. A tensão que vai se configurando no clima do conto e nos díálogos, prenunciando uma tragédia, é construída com requintada sutileza. Uma sugestão em relação a um detalhe que me tocou: tive dificuldade em imaginar Giovanna, em pelo, desenvolvendo consistentes diálogos. Que tal despi-la lentamente ao longo do texto? O final do conto é absolutamente genial!

Alexandre Lobão

Parabéns pelo texto, bem escrito (faltou apenas um ponto…), com uma história envolvente e personagens bem estruturados e convincentes.

Allan Vidigal

A personagem do Dep. Veloso me pareceu estereotipada demais, caricata, pouco convincente. A da Giovanna, por contraste, é muito boa.
Em alguns pontos, principalmente perto do começo, achei meio exagerado nos adjetivos.
Achei a coisa de “filha de Atlândida” ao mesmo tempo forçada e “solta” demais. Talvez, se a ideia tivesse sido apresentada antes de alguma forma, ainda que sutil, pudesse parecer mais natural. Ou você poderia escolher para a “profecia” alguma outra característica em vez dessa.
Ah, o certo é “aréola”, não “aureola”.
Bom conto.

Ana Vilela

Muito bom o dizer sem dizer ao final. Conto curto, direto, conversa coloquial e bem articulada. Consegue fazer o leitor sentir nojo do tal deputado e ficar imaginando o assassinato sobre as casas inundadas da vila.

Betty Vidigal

… Hum. Do jeito como está escrito, parece que fazer o Veloso ser assassinado é o objetivo da Giovana. É?
Precisa explicitar um pouco mais.
De qualquer forma, falta ao conto um conflito, algum evento que seja o ápice, alguma questão polêmica, alguma reviravolta. Qualquer coisa que supreenda o leitor.

Celso Bächtold

Muito instigante, o epílogo. Apesar de a Vila Amaury ser o cenário secundário, o conto está ótimo, prende a atenção do leitor do início ao fim, e possibilita uma fluidez de leitura muito boa. Excelente!

Cinthia Kriemler

Gostei da sutileza com que a Vila Amaury foi inserida nesse conto. Bem como da correlação entre Atlântida, a cidade submersa, e a referida vila. Achei a história interessante. O diálogo foi perfeito. Reproduziu com fidelidade o jeito de falar tanto dos parlamentares quanto das prostitutas. A ideia da lancha como local de encontro é mais verossímil do que você pensa. O tarô falar do tipo de morte que a pessoa vai ter, tudo bem. Mas não conheço tarôs que falem ou apontem para “herdeiras de Atlântida”.
Fiquei imaginando se terá sido ela mesma a matá-lo. Mas isso seria papo para uma continuação desse conto. Observação: o verbo refletir, com esse uso (incidir em algo), é pronominal “se refletiam”.

João Paulo Hergesel

Um conto que tinha potencial para ser ótimo, se não fosse a previsão da morte do deputado, que entregou o final da história e, a partir de então, não surpreendeu mais. A Vila Amaury deveria ter sido usada como cenário, e não como uma possível (ou impossível?) surpresa no final. Por fim, faltou um toque de poesia na cosntrução linguística.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. Há vários erros que poderia apontar como o uso estranho do verbo passar, pois, no jargão político ele se usa mesmo, mas, no caso, seria mais adequado “fazer passar”. Há outros aspectos, mas não vou ocupar esta última oportunidade com coisas que um revisor poderia resolver. Bem, nesse nosso último papo do presente Desafio, quero aproveitar para dar algumas dicas vitais. A primeira refere-se à honestidade simbólica ou alegórica da metáfora, isto é, a sua pertinência ao ambiente textual em que ela está inserida. Veja um exemplo de seu conto: “A noite estava preta qual borra de café, e lustrosa, sem estrelas, como se alguém a tivesse lixado.” Por que borra de café? Como, no contexto em que o conto vinha se desenvolvendo, café ou borra se enquadram, para piorar, por que motivo alguém “lixaria” a noite? Compreende, é essa sabedoria de tirar a metáfora do próprio campo semântico em que se está atuando que distingue os melhores autores. No mais, você cumpriu com elegância as regras mais simples (e por isso mesmo mais difíceis do conto) usou bem as quatro unidades do gênero preconizadas por Massaud Moisés, em especial a de tom. A ação contínua e legitimamente clara foi vigorosa, culminando com um final original e brilhante, mas, acima de tudo, sua escolha bem sacada do foco narrativo que soube, no diálogo dividir com personagens bem construídas, os diferentes focos que o entrecho poderia lidar, incorporando assim além do narrador demiurgo, o foco simplório do político e o amplamente mágico da bela negra. Veja o que recomenda Massaud Moisés e que, inconsciente ou não, você cumpriu com primazia: “No conto moderno, experimentam-se vários agrupamentos do enfoque narrativo, para compensar as desvantagens e conferir vida à fabulação, no sentido de permitir que ela “fale por si, que se escreva sozinha”, ou reflita o cosmorama social de todos os pontos de vista; para fazer desaparecer o “autor” a fim de que que nele (conto) se expressem todas as interferências.” Com este conto, você se credencia, se a pontuação permitir, a vencer o presente desafio em alto estilo.

Nálu Nogueira

É um conto bem escrito, que reúne todos os elementos da provocação, mas achei o enredo, em si, superficial. Não me empolgou.

Oswaldo Pullen

Como pode um espelho d’água ser irrequieto? Como ser escuro, se reflete as luzes da cidade? O final é bom e inesperado.

Paulo Fodra

Bravo! Mais um delicioso conto, muito criativo e bem conduzido, culminando num final inteligente, que se concretiza apenas na mente do leitor. Finais assim são difíceis de acertar: ou o escritor acaba explicando demais e ele soa forçado, ou explica de menos e ele fica sem pé nem cabeça. Neste conto, porém, o autor esbanja personalidade e habilidade narrativa

Roberto Klotz

Bom começo. Há um conflito de imagens em “A noite estava preta qual borra de café, e lustrosa” – a borra de café é opaca. Gostei da metáfora para deputados: “meninos pobres numa sorveteria.”. Gostei muito da criatividade para juntar os elementos propostos. Gosto de sugerir a leitura em voz alta que ajudam a detetectar falhas como a sonoridade, neste caso a sequência da letra p: “dependiam dele para passar um projeto de lei providencial. Por isso…”.O desfecho foi oferecido parágrafos antes do poético fechamento.

Simone Pedersen

Sua escrita sempre me agrada muito. Nesse conto, gostei da trama, do desenvolvimento, mas não gostei tanto do final. A profecia me pareceu estranha. Acho que poderia ter desenvolvido melhor essa parte.
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, já que nenhuma produção artística é linear; é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio proposto. A trama foi bem tecida, com fatos bem sequenciados e bem articulados. Há progressividade narrativa, com fatos bem fundamentados. O desfecho é muito bem engendrado, com surpreendente dramaticidade. A linguagem é bem elaborada. Por fim, o conto atinge elevado padrão literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 10,0
Alexandre Lobão 9,5
Allan Vidigal  9,5
Ana Vilela  9,6
Betty Vidigal  8,9
Celso Bächtold  10,0
Cinthia Kriemler  9,9
João Paulo Hergesel  9,0
Marco Antunes  10,0
Nálu Nogueira  9,0
Oswaldo Pullen 9,2
Paulo Fodra 10,0
Roberto Klotz 9,7
Simone Pedersen  9,3
Wilson Pereira  9,2
Total  142,8