A Pequena Cici

Enrico

— Mamãe!
— Hum!
— Conta de novo aquela históia pa mim?
— Que história, Cici?
— Aquela lá, mamãe. A do tatavô;
— Mas a história do tataravô é muito grande e você precisa dormir.
— Mas eu tô sem sono e tenho bastante tempo pa domi!— implorou a cigarrinha, juntando as patinhas.
— Tá bem! Vou contar até o parte do Palácio e aí vamos dormir. Combinado?
— Combinado, mamãe!
— Era uma vez, há muito tempo, um grupo numeroso de pequenas ninfas. Elas haviam sido deixadas num lugar protegido pelas mamães para que se desenvolvessem e virassem lindas cigarras. Combinaram que quando chegasse a hora, se encontrariam para a grande festa da cantoria…
— Pea um poquinho, mamãe…
— O que foi?
— Quando você falá gande, tem que dizer assim ó: gaaaaaande e abí as patas até o fim. Tá bom?
— Tá bem, Cici! Para a graaaaaande festa da cantoria. — Falou a mãe, abrindo bem as patas.
— Assim meloló!.
— Posso continuar? Vai ficar quietinha?
— Pode sim. Vô ficá quietinha. Pometo!
— Quando chegou a época de se encontrarem, as ninfas tinham se transformado em cigarras. O tataravô e sua família começaram a cavar túneis para chegar até as árvores. Mas aí levaram um graaaaaande susto. — A pequena balançou o corpo. — As árvores não estavam mais lá.Tudo o que eles ouviram falar estava diferente e eles caíram num lugar estranho. As outras ninfas haviam desaparecido. No lugar da terra e árvores, tinha sabe o quê? Um bocado de gente. Eles nunca tinham visto um humano de perto. Nem aqueles monstros que se moviam de um lado para o outro.
— Monstos, mamãe?
— Os metrôs, Cici. Lembra?
— Lembo.
— Então, eles não sabiam que, durante o período de sono, o lugar tinha sido transformado numa estação de metrô colocada na rodoviária de Brasília. Aí todos começaram a voar sem direção. Isso assustou as pessoas, que fizeram de tudo para espantá-los, ainda assim eles conseguiram escapar e entraram num banheiro.
— E eles tinham muito medo, né?
— Tinham, sim, mas o tataravô era muito corajoso.
— Lá dentro do banheiro, outro susto. Uma mulher viu nossa família e começou a gritar e dar chineladas no ar. Foi por pouco que um chinelo não acertou a tataravó. Ainda bem que tinha a bolsa de outra mulher lá, em cima de uma pia.
— Agoa vem a mió pate, né mamãe? — falou a ninfa, esfregando as patinhas com satisfação.
— É sim. Foi uma grande aventura. Quando eles viram que a bolsa estava aberta, voaram para dentro dela. Lá dentro tinha um bolso que eles usaram para se esconder. Ficaram bem juntinhos. A mulher pegou a bolsa, fechou o zíper e saiu da estação. Eles tentaram fugir, mas o buraquinho do fecho não era suficiente para passar. Tentaram escapar outras vezes durante o dia, mas não de certo. A primeira vez foi quando a mulher abriu a bolsa para pegar o dinheiro do cabeleireiro. Depois, quando deixou a bolsa aberta numa banqueta para experimentar um sapato e escolher um vestido. Só que por azar sempre aparecia alguém. A melhor chance de fuga, foi quando ela tentou trocar a bolsa grande por uma de festa. Eles acharam que poderiam fugir, mas a mulher precisava carregar um envelope grande, então decidiu ir com a bolsa maior. A vida da nossa família ficou por um fio. Foi um sufoco caber no bolso, espremidos por um envelope. Acabaram indo com a mulher para uma festa de gala no Itamaraty.
— Festa de gala?
— É uma festa importante dos humanos. É como se fosse um dos nossos encontros de cantoria. Mas na festa deles, só vai quem é convidado.
— Como você sabe de todas essas coisas?
— É porque eu já vivi muitos anos. E quem já viveu bastante sabe muitas coisas.Como o tataravô que viveu sete anos.
— Tudo isso????? Um dia você me conta tudo?
— Conto sim. – Mas agora vamos dormir.
— Ué! Ainda não acabou.
— Lembra do combinado?
— Só mais um pouquinho, pu favô?
— Quando chegaram no Palácio, o moço que ficava na porta pediu o bilhete. Ela pegou o envelope e, quando foi retirar o convite, viu o tataravô e toda a turma. Eles acharam que estavam fritos.
— Fitos?
— Em apuros. Mas a mulher disfarçou, mostrou o convite e fechou a bolsa. O segurança estranhou um convite sem nome. Mas deixou a mulher passar assim que ela sussurrou um código. Parece que ela estava numa missão secreta e não podia ser identificada. Coisas de humano. No início da festa, a mulher pediu licença para os outros convidados da mesa e saiu. Lá fora, tirou o grupo da bolsa. Eles estavam meio adormecidos do cansaço. Ela usou o convite, que ainda tinha na mão, para fazer um barquinho e colocar a nossa família dentro. Depois, o colocou no espelho d’água e impulsionou em direção ao jardim do Palácio. E foi assim que viemos morar aqui.
— E pa onde foi a muié, mamãe?
— O tataravô disse que, de cima do barquinho, mesmo com a vista embaçada de sono, viu ela se afastar e virar uma estrelinha.
— Uma estelinha? — Perguntou a menina desconfiada.
— É, uma estrelinha. É por isso que na cerimônia da cantoria, os meninos cantam bem alto. Para a mulher saber que estamos bem.
— E as meninas não cantam, mamãe?
— Não, elas deixam as árvores cheias de bebês como você e depois viram estrelinha também. Se você olhar pelo buraquinho da terra, vai ver que tem um monte delas lá no céu.
— E você não vai ser estelinha, mamãe?
— Vou sim, mas aí já é outra história.
— Tá bem! — Disse a pequena esfregando os olhos e adormecendo para seu longo sono.
Sim, aquela era outra graaaaande história, pensou a mãe antes de adormecer e se juntar às outras no céu.

Contagem: 944 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Haja imaginação! O conto é original e bem estruturado. Fui envolvida pela fabulação desenvolvida do ponto de vista da cigarra, pelos diálogos elaborados com grande sensibilidade, pela linguagem doce e consistente que vai ao encontro do universo infantil. Uma delícia de texto!

Alexandre Lobão

A história ficou bonitinha e bem escrita, embora eu acredite que ela esteja mais para uma fábula (devido aos animais falantes…). A escolha por fazer a “criança” é válida, mas o excesso não ficou bom. Neste tipo de situação o ideal é utilizar uma ou outra palavra com erro, que o leitor mentalmente ‘completa’ as demais com o tom infantil.

Allan Vidigal

Olha, tem um problema sério, aqui. A provocação foi muito clara: “Cuidado para não escrever uma fábula”. E daí você foi lá e escreveu uma fábula, caramba!
Deixando isso de lado por um instante, achei muito cansativo (e meio irritante) o jeito de representar a fala da cigarra ninfa.
Agora, o lado bom: você usou todos os elementos do Desafio desta semana, a história é bonitinha, a mitologia inventada para as cigarras é interessante, a personagem humana, idem.
E você ainda deu a sorte de eu achar que, embora nem todo conto seja uma fábula, toda fábula é, pelo menos em parte, um conto.

Ana Vilela

Para caracterizar por meio da fala, seja uma cigarra criança, seja um personagem como o homem do campo, é necessário muito, mas muito cuidado. Essa caracterização pela fala é bem arriscada, pode passar juízos de valor e esteriotipar, ficar piegas, não convencer o leitor. É necessário conhecer muito bem o meio em que o personagem está inserido e, ainda assim, é um perigo. No caso do conto, acho desnecesária essa apresentação. Cada vez menos as crianças usam esse linguajar. Na verdade, acho que mais alguns adultos a usam para falar com as criaças, que as crianças em si, cada vez mais atentas e mais adultas em suas maneiras.
O conto (fábula), por isso, ganha ar um tanto pueril, não propriamente infantil, para crianças, mas pueril.

Betty Vidigal

A melhor coisa foi isto:
“Festa de gala?
— É uma festa importante dos humanos. É como se fosse um dos nossos encontros de cantoria”
Faltou lembrar que são os machos que fazem a cantoria.
Quanto à estória em si… Ok, é um conto infantil, mas a ninfa precisava falar nesse tatibitate? Precisa escrever errado, só porque o personagem não é adulto? O “graaande” é aceitável. O resto não.
Ninfa convive com a mãe? Tá bom que é ficção. Mas tem q ter um mínimo de vínculo com a realidade. Como que a ninfa se “lembraria” de que há humanos? Subiu à superfície? E voltou?
Essa mecânica/ logística da saída das cigarras está muito mal explicada. A mulher viu as cigarras e “disfarçou”? Mas por que disfarçaria? Ela não é culpada de ter cigarras na bolsa! O normal seria levar um susto, ou no mínimo ficar muito surpresa e comentar com o segurança e pedir ajuda a ele para se livrar das cigarras.
E o barquinho? Muito poético. Mas por que uma mulher faria um barquinho para pôr insetos que acabou de encontrar?
Tem ainda isso de o convite não ter nome. O motivo é absurdo! Alguém ser do serviço secreto não é motivo pra andar sem nome por aí… Pode ter nome falso.

Celso Bächtold

Texto voltado ao público infanto-juvenil, que mostra muito bem a criatividade do autor. Entretanto, alguns detalhes foram ressaltados:
– “— Aquela lá, mamãe. A do tatavô;”: creio ser ponto final após “tataravô”.
– “— Tá bem! Vou contar até o parte do Palácio…”: creio que deve ser utilizado o artigo definido “a” antes de “parte”.
– “Combinaram que quando chegasse a hora, se encontrariam para a grande festa da cantoria…”: “quando chegasse a hora”, oração subordinada explicativa, deve vir entre vírgulas.
– “: Tentaram escapar outras vezes durante o dia, mas não de certo.”: não seria “deu”?
– “A melhor chance de fuga, foi quando…”: vírgula separando o sujeito do verbo.
– “— Não, elas deixam as árvores cheias de bebês como você e depois viram estrelinha também.”: erro de concordância.

Cinthia Kriemler

Não me agradou. Esta semana quase todo o mundo resolveu ir para o realismo ou para a fábula. Essa linguagem infantil, depois de um tempo, se torna cansativa. É bonitinho na criança, mas não num texto mais longo. E a história é meio sem pé nem cabeça.

João Paulo Hergesel

Contos produzidos unicamente na base do diálogo perdem a complexidade artística quando os personagens envolvidos não têm em sua oratória a justificativa para uma fala poética. Talvez o texto funcionasse como esquete de peça infantil, precisando aperfeiçoar as falas da ninfa – a escolha pela representação da infantilidade não convenceu. Por fim, o texto mais descreveu a proposta e salpicou informações sobre o comportamento das lagartas do que inovou em sua forma e/ou conteúdo.

Marco Antunes

Simpático conto infantil, que resvalou na fábula (que foi proibida neste desafio, mas não se fixou no gênero). Gostei das personagens, embora o abuso em infantilizar a linguagem tenha sido cansativo.

Nálu Nogueira

Achei tão original a ideia, mas realmente não consegui ultrapassar o desconforto com os diálogos, com a linguagem escolhida pelo(a) autor(a) para representar a “criança” no texto. E mais para o fim é como se tivesse esquecido esse detalhe da linguagem e algumas frases saíram normais ou parcialmente normais. Totalmente desnecessário, na minha visão. Já li muitas coisas nessa vida, inclusive infantis – e, mais recentemente, Quarto, um livro narrado inteiro por uma criança menor de 6 anos – e reitero: desnecessário o uso dessa linguagem, desnecessárias as aspas na grafia das palavras, desnecessário….

Oswaldo Pullen

A tentativa de registro de uma voz infantil (de cigarra infantil, inda por cima…) não foi feliz. O conto peca por sua pieguice e escassa verossimilhança.

Paulo Fodra

Conto ousado que se livra da armadilha de cair na fábula, criada pelos elementos da provocação, enfiando uma fábula dentro do conto. O autor demonstra muita habilidade ao se apropriar da linguagem infantil da cigarra-bebê, criando uma narrativa leve que conduz, com muito bom gosto, a um final tocante. Parabéns!

Roberto Klotz

Mandou bem! Diálogos convincentes com linguagem adequada, que deveria ter se mostrado só no início, para marcar a personagam. Inseriu bordão que as crianças adoram. A estação de metrô foi figurante. O sono da criança foi o“Deus ex machina” criado para uma história sem final arrebatador.

Simone Pedersen

Criativo e com personagens cigarras. Uma lenda sobre a cantoria das cigarras. Interessante e original. Não me agrada a fala infantilizada. Uma criança que fala tão errado não teria esse vocabulário extenso, mas como não conheço o desenvolvimento da linguagem das cigarras, fica o comentário em geral. Não precisava dar tantos exemplos de tentativa de fugas, ficou longo e cansativo. Tem doze “mas”, alguns muito próximos.

Wilson Pereira

O conto contém todos os elementos propostos no desafio, no entanto, a trama, construída como fábula, não alcança um vigor narrativo condizente com o melhor nível literário. Falta algo mais consistente que dê verossimilhança aos fatos. A linguagem infantil é artificial, sem representar com propriedade o vocabulário das crianças. Enfim, falta literariedade ao texto.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,7
Alexandre Lobão 8,8
Allan Vidigal  8,0
Ana Vilela 8,0
Betty Vidigal 8,5
Celso Bächtold 9,3
Cinthia Kriemler  8,0
João Paulo Hergesel  8,0
Marco Antunes  9,0
Nálu Nogueira  8,0
Oswaldo Pullen  8,0
Paulo Fodra 10,0
Roberto Klotz  9,0
Simone Pedersen 9.0
Wilson Pereira  7,3
Total 128,6