A vida imita a arte

Pantaneiro

“Estátuas e cofres e paredes pintadas / Ninguém sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela do quinto andar / Nada é fácil de entender”. Júlia abriu os olhos, consultou o relógio, permaneceu deitada por alguns minutos. Acordara com aquela música na cabeça e pôs-se a meditar sobre o que queria dizer Renato Russo com essas palavras. Pela quinta vez repetia “Pais e Filhos” no Ipod. Já conhecia a canção, mas nunca tivera a oportunidade de analisar letra e imagens que agora via estampadas naqueles versos.
Sempre foi uma adolescente bem resolvida, sem conflitos familiares. Filha única do Dr. Mendonça — proprietário de uma grande construtora — e Dona Heloísa — uma verdadeira dondoca —, Júlia nunca teve vocação para bancar a rebelde sem causa. Além de linda, era muito amada, sobretudo pelo pai, por quem tinha verdadeira loucura. Com Heloísa já tivera pequenos desentendimentos, típicos de mãe e filha, mas nada que deixasse resquício. O pai era seu grande amigo, aliado e exemplo de retidão. Ela também fazia por merecer todo esse carinho, pois sempre fora responsável e aplicada nos estudos. Não por acaso, antes dos dezessete anos, já havia passado no vestibular. Agora, às vésperas de completar a maioridade, cursava o segundo ano de Medicina. O pai a cercava de mimos e, frequentemente, Heloísa chamava-lhe a atenção, para não estragar a menina. Júlia, no entanto, não se deixava levar pelas facilidades da vida.
Heloísa ultimamente sofria de forte depressão e vivia à base de remédios controlados. Era ainda uma mulher jovem, bonita e atraente, mas não tinha mais a alegria de antes. A um mês de completar dezoito anos, Júlia confidenciou ao pai sua vontade de fazer uma comemoração simples, apenas com alguns amigos, no próprio apartamento em que moravam, na Asa Norte. O pai chegou a protestar, pois pretendia fazer uma grande festa, num salão de eventos, com centenas de pessoas, mas acabou acatando a decisão da filha. A única condição era que ela aceitasse o carro com que ele pretendia presenteá-la: um BMW esportivo.
Um dia, ao chegar da universidade, Júlia encontrou a mãe em crise. Mendonça estava viajando. Heloísa chorava muito e parecia drogada. Dizia que ia morrer e precisava contar um segredo à filha. Entre soluços, Heloísa começou: “Júlia, preciso lhe confessar algo, mas não me interrompa, por favor. Tenho de dizer tudo de uma vez”. Júlia tentava acalmá-la, mas Heloísa continuou: “Mendonça não é seu pai. Seu verdadeiro pai morreu quando eu estava grávida de você. Eu já era casada com Mendonça, mas tive um caso com um motorista do Senado. Mendonça desconfiou e contratou um detetive. Eu me encontrava com o Ramón no Setor Militar Urbano, onde hoje é a Praça dos Cristais. Um dia Mendonça me seguiu e nos pegou em flagrante dentro do carro. Ele ficou enfurecido e perdeu a cabeça. Sacou uma pistola e matou Ramón na minha frente. Ele me bateu muito também… só não me matou, porque eu estava grávida. Depois resolveu dar um sumiço no corpo do Ramón”.
“Mãe, não diga mais nada”, implorava Júlia em prantos. “A senhora vai ficar bem”. Mas Heloísa prosseguiu: “Como ele mesmo estava construindo a Praça dos Cristais, enterrou o corpo numa vala que seria concretada no dia seguinte. O corpo do Ramón está enterrado no concreto. Ele levou o carro para um matagal e ateou fogo nele. Também me ameaçou, para eu ficar calada. Sabia que eu estava esperando o filho de outro homem, porque ele é estéril. Filha, eu tinha medo de morrer sem que você soubesse a verdade. Mas não odeie o Mendonça. A culpa é toda minha. Ele sempre foi e será seu pai”.
Heloísa chorava compulsivamente. Júlia ficou sem chão. Toda a sua vida fora uma farsa. O homem que ela idolatrava não era seu pai e, além de tudo, era um assassino. Procurou ser forte. Conseguiu controlar a mãe, aplicou-lhe um sedativo e esperou que ela dormisse. Pesquisou na Internet sobre um motorista do Senado que desaparecera há mais de dezoito anos. Rezava para não descobrir nada, pois esperava que tudo não passasse de um pesadelo. Quando encontrou a reportagem no Correio Braziliense sobre Ramón Fernandes Peixoto, dado como morto, viu seu mundo desmoronar de vez. O jornal dizia que o corpo nunca fora encontrado e que, provavelmente, Ramón tinha sido vítima de latrocínio, pois seus pertences também desapareceram e o carro foi achado carbonizado num matagal.
No dia seguinte, Júlia — que quase não dormira — em vez de ir para a universidade, pegou um táxi e foi conhecer a Praça dos Cristais. Desligou o celular e permaneceu horas ali, analisando, tentando imaginar se era verdade o que sua mãe lhe confessara. De repente viu um pontinha de plástico aparecendo no concreto. Munida de um canivete, que trazia na bolsa, começou uma escavação em volta daquele plástico. Cavocou com cuidado e aos poucos apareceu um papel plastificado que parecia ser um crachá. Cavou mais um pouco. Ela retirou o crachá com cuidado e identificou o nome “Ramón Peixoto”, motorista do Senado, e sua foto bastante desbotada. Guardou o crachá e saiu rapidamente dali.
Júlia disfarçou ao máximo, evitou o pai o quanto pôde, com o pretexto de cuidar da mãe, enferma. No sábado, seria seu aniversário. Heloísa ainda estava sob efeito de remédios: não poderia participar da festa, mas Júlia manteve a comemoração. Recebeu os convidados na cobertura, acomodando-os ao redor da piscina e no espaço gourmet. Depois trancou-se no quarto. Foi para a varanda. Pegou o celular, ligou para o pai e pediu que ele chamasse seus amigos à borda da cobertura e olhassem para baixo, pois ela tinha um surpresa. Os amigos se debruçaram na mureta. Júlia ficou em pé no parapeito da varanda, segurando o crachá. Abriu os braços, fechou os olhos, soltou um grito e mergulhou no abismo. No quarto, a chave de um BMW, e estátuas quebradas, e cofre arrombado, e paredes pintadas. Nada é fácil de entender.

Contagem: 987 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Muito sugestiva a letra da música como desencadeadora da narrativa. Conto bem engendrado, exceto pelo detalhe da escavação (como assim, uma pontinha de plástico à vista, após tantos anos?). O detalhe do aparecimento do crachá é forçado. A mãe é apelidada de dondoca, mas o único atributo explorado no texto é a sua depressão. Boa carga dramática, excelente desfecho!

Celso Bächtold

Gramaticalmente, creio que as duas frases que falam sobre a Heloísa, no início do terceiro parágrafo, possam pertencer a algum ponto do parágrafo anterior.
Há, também, alguns erros simples, que podem ser facilmente detectados pelo corretor ortográfico automático da plataforma windows ou similar.
Quanto ao enredo como um todo está excelente, bem desenvolvido, com todas as fases de um conto dramático definidas. O autor utilizou muito bem a bela música de Renato Russo, um dos ícones da música brasiliense e nacional. Porém o argumento utilizado para resolver o problema do objeto-chave “crachá” exigido por este desafio me pareceu inverossímil, estilo Deus ex machina, utilizado no teatro grego antigo.

Paulo Fodra

Ideia interessante e bem executada. Minha única ressalva vai para a falta de verossimilhança no fato da protagonista ter conseguido recuperar o crachá inteiro escavando uma vala de concreto com apenas um canivete.

Roberto Klotz

Estou chocado. Acreditei em cada parágrafo, em cada linha em cada letra. Nossa, parabéns!
Li seu conto ouvindo uma determinada letra de Renato Russo. Agora, fôlego retomado, preciso exercer a minha função de jurado. Senti falta de diálogos. E, em vez de “remédios controlados” eu preferia ter lido, tarja preta ou aguma marca. Dá ainda mais credibilidade. Eu quis acreditar na impossível pontinha do crachá no concreto.

Simone Pedersen

Os elementos do desafio foram atendidos. Uuma pontinha de crachá emergendo do chão é muito difícil de se acreditar. Nessa parte, o autor poderia ter desenvolvido melhor. Uma possibilidade seria a mulher ter escondido o crachá, que estava sobre o console do carro, enquanto o marido tirava o corpo. Depois, ela o teria enterrado perto de uma árvore, com uma carta contando sobre o crime, caso decidisse entregar o marido, um dia.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  8,2
Celso Bächtold 9,0
Paulo Fodra  9,0
Roberto Klotz 9,9
Simone Pedersen  8,5
Total 44,6