Aí vindes outra vez inquietas sombra

Sitri

Ana Despertou. Mas seus olhos continuavam fechados. Estava deitada sobre o esverdeado chão do jardim e podia sentir que estava cercada pela água, esculturas e flores de uma monumental praça. Era a Praça dos Cristais. Reconhecia pelo olor que emanava da praça. O seu instinto mais aguçado era o olfato, era através do olfato que teve um dos sonhos mais perturbadores dos últimos dias. O cheiro do sonho era gélido e tinha algo que a fazia lembrar dum hospital. Era o mesmo cheiro que havia sentindo alguns anos atrás, quando ainda morava no sul. Esse cheiro que penetrava suas narinas era tão desconfortante que apertava o seu peito e fazia Ana quase esquecer a dor que estava sentindo nas costas, devido à noite que dormiu ali no jardim. Era um aroma nostálgico. E ela, como ninguém, sabia que por mais que tentássemos fugir do passado, vez ou outra ele voltava para atormentar a mente de qualquer ser vivo.
Mesmo ali deitada sobre o chão, não perdia seu encanto. Tinha um rosto com uma tristeza doce, seus cabelos castanhos e longos pareciam se deleitar com o encontro proporcionado pela natureza com as flores do jardim. Não estava má vestida, usava brincos e a maquiagem da noite anterior ainda não havia saído. Sobre seu pescoço havia uma fita azul, que segurava um crachá, algo destoante diante da beleza em que se apresentava. Se não fosse tão antinatural ver um corpo humano deitado entre os jardins de uma praça, poderíamos presumir que aquele corpo fora colocado ali, pelo arquiteto que imaginou aquela praça, como se fosse um anjo esculpido enquanto adormeceu.
Mesmo diante de uma beleza angelical, havia algo que Ana havia notado e era perturbador, e esse, foi um dos motivos que fez com que ela ainda não abrisse os olhos. Apesar de sentir o cheiro nitidamente e sentir seu corpo sobre aquele chão frio, parecia ter perdido a audição. Não ouvia sequer o som gostoso do tintilar das águas. Abriu os olhos abruptamente, e do mesmo modo, levantou-se. De fato, não escutava nada e não havia pessoas, carros ou animais a sua volta. Era um silêncio ensurdecedor. Andou alguns passos e não escutou nem o arrastar dos seus pés. Continuou caminhando desnorteada enquanto direcionava sua mão ao seu peito, de encontro ao crachá. Ao vê-lo, não pode deixar de soltar um grito, mesmo que não o escutasse. O passado sempre retornava. Ao abaixar o crachá e retirar ele do seu campo de visão, não conseguiu controlar o seu segundo grito inaudível. Diante dela havia aparecido outra menina, uma menina idêntica a Ana. Usava o mesmo vestido azul turquesa, os brincos eram iguais aos seus, sapatilhas pratas tamanho 34, seus olhos pretos penetrantes, tudo era fiel a ela. Isso fez seu corpo sentir um calafrio. A menina a sua frente não disse uma palavra, fitava-a, enquanto Ana observava cada detalhe dela, cada semelhança. Até a pinta de nascença à altura da nunca a menina possuía. Isso fez com que o corpo de Ana tremesse. Passados alguns segundos, ela sem entender o motivo, começou a aceitar a figura da menina, e com o dedo a menina convidou Ana a segui-la. A garota tinha o andar sem pressa, Ana a seguiu. Não sabia bem o porquê, mas sentia que devia seguir. A menina a fez caminhar até o início da praça, onde ali avistou uma pequena cabana, parecia ter sido feito às pressas. Eram madeiras velhas, com cores diferentes. Ana ficou com medo de entrar
– Vamos você tem o crachá! – disse a menina sorridente.
Ficou surpresa ao ouvir a voz da menina, será que sua audição havia voltado ou ela imaginou a voz da menina? Não poderia saber, já que não escutava mais nada. Ela andou até a porta, onde a menina a esperava. “Você não vai entrar?” pensou ter dito, ou de fato disse? Já não sabia. Mesmo assim a menina fez um não com a cabeça. Ana prosseguiu cabana adentro, e viu uma pessoa sentada no chão de costas para ela. Na parede, escrito com a cor vermelho sangue estava a mesma frase que no crachá “Aí vindes outra vez inquietas sombras”. A pessoa se virou para ela, Ana a reconheceu, era a mesma pessoa da foto do crachá, era Lúcia, sua ex-namorada e a razão de ter vindo pra Brasília e deixado o Sul. Ana havia traído Lucia. E ela queria esquecer esse erro. Ao olhar novamente para Lúcia pode ver as lágrimas correndo dos olhos dela, eram lágrimas de sangue. Ana foi ao encontro de Lúcia, que subitamente, arrancou seu crachá e com seu punhal, que estava todo o tempo na sua mão esquerda, acertou o peito de Ana.
***
“Paciente 46635” era o que dizia o crachá com a foto de Ana e foi a primeira coisa que ela leu ao acordar. Sentiu o cheiro gélido e hospitalar do centro psiquiátrico. Era mais um daqueles sonhos com Lúcia. Toda noite sonhava com ela. Foi por Lúcia que havia parado ali. Poderia ser pior, reconhecia. Mas seus advogados conseguiram atestar que matou Lúcia por problemas psiquiátricos – e não por vingança pela traição – depois que Ana matou Lúcia a punhaladas na Praça dos Cristais. Por longos segundos, ficou meditando sobre o significado daquele sonho. O que significava a falta de audição? O que significaria as lágrimas de sangue nos olhos de Lúcia? Não importava. As sombras do passado pra sempre atormentaria seus sonhos.

Contagem:  904 palavras

Comentários

Allan Vidigal

História boa, texto mais ou menos (mais para menos). Meio verborrágico e com excesso de adjetivos (coisas como “esverdeado chão” e “monumental praça” indispõem este leitor), um erro de digitação (que não reduz diretamente a nota) logo no título, erros de pontuação (que também não reduzem a nota) espalhados pelo texto.
Aposto que você consegue contar a mesma história – e melhor – com dois terços das palavras que usou.

Cinthia Kriemler

Antes de mais nada, atenção às concordâncias. Cito as duas últimas frases: “O que significariam as lágrimas de sangue nos olhos de Lúcia? Não importava. As sombras do passado pra sempre atormentariam seus sonhos.” Há outros problemas. Sugiro uma revisão no texto.
O conto cumpre o desafio. Mas não empolgou. Talvez a personagem Lúcia tenha sido introduzida muito tarde no conto. O texto me parece muito sequencial e explicativo.

Marco Antunes

“Olor” é uma palavra de existência circunscrita a certos contextos extemporâneos ou de alto lirismo, não cabe nesse contexto. “de qualquer ser vivo” – Uma samambaia? Uma ameba? Use sempre expressões mais adequadas para cada caso. “má vestida” – mal vestida, obviamente. “destoante diante” – Evite ecolalia! “havia algo que Ana havia notado” – Evite repetição de palavras com tamanha proximidade. “e retirar ele do seu campo” – Retirá-lo. “Até a pinta de nascença à altura da nunca a menina possuía.” – Não entendi. “onde ali avistou uma” – Onde avistou basta. “escrito com a cor vermelho sangue estava a mesma frase” – Escrita! Olha a concordância! O entrecho é fraco e nada, nada, nada atraente. O conto não se sustenta na credibilidade da personagem. O estilo é pobre e repleto de erros e incoerências. Nota-se, desde a primeira linha, a pouquíssima familiaridade do autor com o objeto literário, fruto de pouca leitura e de falta absoluta de maturidade narrativa e ficcional.

Nálu Nogueira

A sensação ao ler foi que o(a) autor(a) partiu de uma ideia bem clara, uma história já definida, com ganchos e uma surpresa final. Contudo, na prática, a história não aconteceu. Muitos pequenos erros de concordância e de construção, muita repetição de palavras, comprometeram a narrativa, o timing, a fluidez. A transição para a “história real/sonho” é abrupta e não me convenceu. Parece que faltou revisão. Há acertos na narrativa, há momentos. Mas não suficientes para produzir um conto bom.

Wilson Pereira

O conto atende parcialmente ao desafio proposto. Está bem estruturado, com uma trama bem engendrada e bem desenvolvida. A linguagem, apesar de apresentar alguns erros, é elaborada em nível literário satisfatório. No entanto, o desenlace parece um tanto artificial, sem muita conexão com a trama.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal  8,0
Cinthia Kriemler  7,5
Marco Antunes  6,5
Nálu Nogueira  6,5
Wilson Pereira 8,7
Total 37,2