Arqueologia do esquecimento

Capitão Birobidjan

Apoiada em Benvinda, dona Inácia desceu do carro e caminhou com seu passinho de andorinha até as margens do lago Paranoá. Segurava com força o braço da neta deputada, não por medo de que seus quase 90 anos de vida levassem-na ao chão, mas para estender solidariedade. O projeto de lei elaborado pela caçula de seu filho, que visava transformar a história da Vila Amaury em patrimônio imaterial de Brasília, havia sido vetado. O sonho de que a avó, remanescente do lendário acampamento, inaugurasse um memorial às margens do lago fora desfeito por homens comprometidos apenas com o futuro.
Assistiram em silêncio um veleiro deslizando sobre as vivências afogadas, enquanto o movimento ondulava quase seis décadas. Inácia nunca fez as pazes com o arrojo das torres do anexo do Congresso Nacional, preferiu, então, mergulhar os olhos quase sem brilho nas águas turvas do Paranoá. Benvinda permaneceu na superfície daquilo pelo que lutava e acreditava, enquanto a velha avó reconstruía na memória a arquitetura de uma cidadela perdida, tragada pelas corredeiras do progresso.
Fugia de um marido violento e da seca que havia sugado o tutano do gado de Morada Nova, no Ceará, quando chegou à Brasília na boleia de um pau de arara. Para não morrer de fome no canteiro de obras da nova capital, desempenhava função na zona do acampamento conhecido por Cidade Livre. Naquele tempo, em que quase perdera o juízo, também fazia bico de costureira e ajudante de cozinha. Sobrevivia.
Os primeiros trabalhadores que habitaram o planalto, os candangos, viviam abandonados por Deus, inebriados pelos gases de pobreza e violência que emanavam dos litros de cachaça e das apostas no carteado. Cansados de tanto descaso, alguns operários decidiram se rebelar e reclamaram da comida servida no bandejão da construtora Pacheco Fernandes. Foi o suficiente para que a milícia tingisse de mais vermelho o chão do cerrado. Mataram um bocado de gente. Assombrada pela carnificina promovida com a bênção dos empreiteiros, Inácia correu até o barraco de Paulino, um maranhense bonito feito o céu sobre suas cabeças, e o acordou. Pediu, aos gritos, que ele a levasse embora dali. Nenhum homem deveria ter seus companheiros mortos para ganhar o afeto de uma mulher, mesmo assim, não rejeitou o presente do destino. Desde que havia colocado seus pés rachados sobre o rascunho daquele delírio de aço e concreto, Paulino sentiu vontade de adoçar o amargor da boca de Inácia.
Transformados em casal, desmancharam seus barracos, juntaram alguma tralha no canteiro de obras e foram viver em outro amontoado de casebres de pau chamado Vila Amaury. Lá, Inácia lia a sorte das mulheres em troca de sardinha e perfume. As três cartas do mesmo naipe que faltavam no velho baralho de Paulino dificultavam o jogo do relancinho, mas não as predições. Dizia ter herdado o dom da avó, uma índia paiacu que enxergava o futuro nas vísceras dos bodes. Atravessavam os dias assim: Paulino levantando o Vinte e Oito, como chamavam o anexo do Congresso Nacional, e Inácia fazendo adivinhações com um baralho banguela de 49 cartas.
Os dois se davam bem, principalmente quando deitavam abraçados na rede e cantavam um para o outro até dormirem de amor e cansaço. Brigavam quando Paulino se recusava a reclamar do salário, sempre atrasado ou incompleto. Acreditava que, ao final da obra, ganharia o suficiente para realizar o sonho de tornar-se proprietário de uma bodega com sinuca e radiola. Passava dias amuado com a mulher quando ela falava que, com a conclusão do serviço, o doutor Juscelino colocaria toda a Vila Amaury dentro de um ônibus rumo ao Nordeste. Moravam sobre um terreno condenado a ceder lugar a um lago. Para onde iriam depois que as águas chegassem? “Querem as mão, mas num querem os homem!”, queixava-se a mulher. Só concordavam em uma coisa: independente do que lhes acontecesse, permaneceriam juntos. Isso se a vida não tivesse se encarregado de quebrar a promessa por eles.
Naquele dia, Inácia fazia uma leitura quando ouviu, nos alto-falantes que tocavam músicas e convocavam trabalhadores, que nove operários haviam caído no fosso do elevador do Vinte e Oito. “Paulino”, grunhiu antes de largar as cartas e correr feito doida para o local do acidente, mas o corpo de seu companheiro não estava mais lá. Fora levado em um caminhão basculante para ser enterrado sabe-se lá onde.
Depois da tragédia, as consultas rarearam. Mulher nenhuma queria o futuro lido por uma cartomante que não havia previsto a morte de seu homem e nem a própria gravidez. Inácia pariu o filho ainda na Vila Amaury, dias antes da inauguração da barragem. Não demorou muito para que a água do lago Paranoá estendesse seu véu sobre o acampamento. Muitos ainda resistiram, mas, no final, todos foram embora. Uns para o Gama, outros para Taguatinga e muitos para Sobradinho. No dia de sua mudança, com um menino pequeno nos braços e uma trouxa de roupa sobre a cabeça, chorou por ter perdido a única lembrança que tinha de Paulino, uma fotografia carregada pelas águas que lavaram da existência a Vila Amaury, as mesmas águas que lhe trouxeram as três cartas que faltavam no baralho. Foi seu consolo.
— Nunca li sorte nenhuma, não, sabia? — confessou a velha, retirando o ás, o cinco e o valete de paus de dentro do bolso do vestido, e entregando-os à neta. — Não via nada naquele baralho além da falta que essas três carta fazia. Inventei as previsão. Num fiz por mal e nem só em troca dos agrado que me davam. Queria botar mistério nas história que se encantaram debaixo dessas água. Enganei as pessoa. Sou uma mentirosa. Mas tu, não. Tu é tão louca pela verdade que tentou, por força da lei, fazer Brasília pedir perdão a nós. Já que não deu pra salvar os que levantou essa cidade, faça alguma coisa pelos que hoje mantêm ela de pé. Esse povo precisa ser respeitado como nós nunca foi, minha neta doutora. Não há água que chegue pra tanto sofrimento, o Paranoá já escondeu malfeito demais.

Contagem: 990 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Desafio primorosamente cumprido: título sugestivo, excelente credenciamento dos personagens, cenário histórico magnificamente caracterizado, enredo envolvente, detalhes da narrativa bem trabalhados. Texto muito equilibrado e com excelente nível literário: deliciei-me com a narrativa e com a linguagem! (E porque a perfeição é uma utopia, encontrei dois errinhos).

Alexandre Lobão

Texto bem escrito, não encontrei nenhum erro ortográfico, gramatical ou de pontuação.
A história está no mesmo nível: impecável. Personagens críveis e envolventes, elementos do desafios muito bem explorados, emoção em cada pequeno detalhe da linguagem bonita… Até o título é perfeito. É daquelas histórias que lemos e pensamos: “Gostaria de ter escrito isso”. Parabéns!

Allan Vidigal

Meio panfletário, né? Principalmente no final, mas em diversos outros pontos. Nesses outros, a coisa é mais sutil e fica até bacana. Mas – pelo menos para mim – o texto desanda quando descamba para o escancarado: tudo o que está dito ali está implícito no texto e no contexto; quando a coisa é rasgada, dá a sensação de que o autor está sendo condescendente com o leitor, para quem, aparentemente, tudo precisa ser mui-to bem ex-pli-ca-di-nho..
É bom evitar coisas do tipo “céu sobre suas cabeças”. Entendo a intenção de soar poético, mas acaba soando mesmo é batido: é uma expressão muito pouco original. Por que não apenas “céu”?
Agora, a parte legal: a sua grafia alternativa para indicar o jeito de falar simples da personagem funcionou (e esse tipo de coisa muitas vezes dá errado!). A história é boa, interessante. Tem momentos comoventes de verdade.
Apesar dos defeitos acima, achei um bom conto.

Ana Vilela

Lindo texto, poético e tocante, bem escrito. Me emocionou. Apesar de não ter aquele ponto máximo, aquele ápice, o conto não perde em nada. Emocionar o leitor, deixá-lo com raiva, fazê-lo rir etc., é um grande feito. Muitos têm técnicas perfeitas, escrita exemplar, mas o texto é frio como gelo. Não surte efeito algum no leitor.
Atenção a: chegou à Brasília – chegou a Brasília; independente do que lhes acontecesse – independentemente.

Betty Vidigal

Assitiram “a” um veleiro deslizar. Mas isso é um lapso, você escreve muito bem. Em vez de corrigir a regência, seria melhor subsituir o verbo: “Observaram em silêncio um veleiro deslizando”.
Pareceu um pouco gratuito a Inácia correr para o barraco do Paulino. Tem que ter um mínimo de explicação para “por que” o Paulino, e não outro.
Moralista, esse final, não? “Já que não deu pra salvar os que levantou essa cidade, faça alguma coisa pelos que hoje mantêm ela de pé. Esse povo precisa ser respeitado como nós nunca foi”. Se tirar este trecho, melhora muito.

Celso Bächtold

O autor utilizou muito bem os elementos do desafio, numa história encantadora sobre os primórdios de Brasília, e soube usar um interessante contraste de palavras elaboradas com o linguajar coloquial de uma pioneira candanga.
Um detalhe gramatical: ´… quando chegou à Brasília na boleia de um pau de arara”. Salvo outro juízo, o “a” deve vir sem crase.

Cinthia Kriemler

Adorei. É uma história cheia de História. Pelos detalhes, eu arriscaria dizer que você é de Brasília. Tem sensibilidade, texto bom e atratividade nesse conto. Como moro aqui há 48 anos, conheci algumas avós bem parecidas.

João Paulo Hergesel

Conto poético que soube aproveitar os elementos pedidos pela provocação em uma ficção quase histórica. É um sabor literário muito agradável ler, ainda que pelo olhar da história inventada, um pedaço da construção de Brasília e da destruição da Vila Amaury. A ideia de as águas trazerem as três cartas de volta é inverossímil, mas funciona com base no lirismo. O período final – “Não há água que chegue pra tanto sofrimento, o Paranoá já escondeu malfeito demais” – poderia ser omitido.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. Sabe, para começar, devo dizer que os relances de estilo e algumas belas organizações frasais quase poéticas como “Assistiram em silêncio um veleiro deslizando sobre as vivências afogadas(…)” e “Não há água que chegue pra tanto sofrimento, o Paranoá já escondeu malfeito demais.” Esse é o lado bom de nossa última conversa nesse desafio, mas leia o que ensina o mestre Massaud Moisés: “O drama nasce quando se dá o choque de duas ou mais personagens, ou de uma personagem com suas ambições e desejos contraditórios. Se tudo estivesse em plena paz e ordem entre as personagens, não haveria conflito, portanto, nem história. E mesmo que se viesse a escrever um conto acerca do bem estar e da tranquilidade de espírito, é certo que não teria interesse algum.” E veja como ele pretende que esse imperativo seja trabalhado pelos bons escritores: “Ao conto aborrece as divagações, digressões, excessos (Moisés, p. 124). É um drama que apresenta um fim em si próprio, com começo, meio e fim, corresponde ao momento mais importante da vida da personagem, sem importar o antes ou o depois. Pode haver uma “síntese dramática”, mas o passado e o futuro possuem pouco ou nenhum significado.” E, acima de tudo: O conto opera com ação e não com “caracteres”. Ele apenas cria situações conflituosas em que todos nós, indistintamente podemos espelhar-nos. Nesse caso as personagens são consideradas como instrumentos da ação.” É aqui que nosso papo fica sério: seu conto carece de ação, de ação direta, acaba parecendo um relato (vá lá um bom relato de uma história) mas está ainda na fase pré-conto, antes de dar a ele ação dramática, vibração e conflito real entre as personagens. Tente lembrar-se disso no futuro.

Nálu Nogueira

Lindo, coerente, comovente, bem contado.

Oswaldo Pullen

Bom conto, desenvolvido em cima da original ideia de transformar a Vila em patrimônio imaterial. Incomoda um pouco o registro da fala de Inácia, que deveria tão somente indicar a seu início a origem humilde da velha senhora e depois seguir sem atravessar novamente no ouvido do leitor.

Paulo Fodra

Outra vez, o projeto de lei não se apresentou como objeto. Os demais requisitos da provocação foram cumpridos à risca. História muito interessante e bem conduzida, porém com um final átono, que mais parece uma interrupção de pensamento do que um fechamento propriamente dito.

Roberto Klotz

Começo que nos coloca dentro de uma história. De imediato vi 2 seu/seus. Contei 12 pronomes seu/ sua. Sorri ao ver a ótima solução para o projeto de lei. Queo saber qual é o manual que ensina a criar frases como: “veleiro deslizando sobre as vivências afogadas, enquanto o movimento ondulava quase seis décadas”. Conferindo verossimilhança, quem é de Brasília sabe que os humildes sempre se referiam ao presidente como Dr. Juscelino. No meio da história fiquei tão envolvido que quase me esqueci do papel de jurado. Que fechamanto tocante. Quanta tristeza. Senti a dor da Dona Inácia.

Simone Pedersen

A sua escrita me agrada, você domina e tem ideias criativas. Nesse conto, faltou um pouco de agilidade e surpresa, para o meu gosto.
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, porque nenhuma produção artística é linear, é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto está de acordo com o desafio. A trama está bem sequenciada e bem articulada. No entanto falta uma consistência narrativa capaz de criar expectativa no leitor. Não há clima de empolgação, O desfecho não surpreende, não causa impacto.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,9
Alexandre Lobão  10,0
Allan Vidigal 9,0
Ana Vilela  10,0
Betty Vidigal 9,2
Celso Bächtold 10,0
Cinthia Kriemler  10,0
João Paulo Hergesel  9,8
Marco Antunes 8,0
Nálu Nogueira 10,0
Oswaldo Pullen  9,0
Paulo Fodra 9,0
Roberto Klotz 10,0
Simone Pedersen 9,2
Wilson Pereira  8,0
Total 141,1