At(h)os que não voltam atrás

Assis Nóia

Os acordes lineares de Eduardo e Mônica expandem-se vibrantes pelo parque da Cidade e uma brisa de passagem cheira a um céu azul borrado de cinza aqui e acolá. O hipster que canta e toca Legião em seu Romeo Di Giorgio nº 34, bem como os visitantes que passeiam e olham pro alto e dizem que vai chover, não notam o andar moribundo do turista alemão magricela que caminha em direção ao relógio de sol.     No período que esteve preso em Moabit, Klaus Iksen adquiriu uma obsessão: fazer com que eu voltasse atrás. Depois de navalhar os pulsos por três vezes na prisão, Klaus percebeu que a vida insistia em rosnar perto dele, feito um cão de guarda não-adestrado. E o peso dos dez anos arrastados nas costas dobrava quando memórias fluíam e dilaceravam a bile da impotência no peito.

“Nosso futuro recomeça: venha, que o que vem é perfeição”.

O verso do Legião ecoava das vozes juvenis naquele sábado ensolarado, num janeiro de 98. Era um grupo pequeno de amigos, refestelados na grama do parque da Cidade. Vera se deslocou da turma e foi devanear perto do pano branco estendido na grama repleto de azulejos decorativos, de todos os formatos e cores. Logo ao lado, via-se o relógio de sol. O vendedor, um rapaz negro de aspecto sério, atendia a um passante curioso e de sotaque europeu.

“Falo pouco em português ainda, como se chamam essas artes, como eu falo?”

“Azulejos, senhor”.

Vera se aproximou do branquelo de bochechas afogueadas, que se exauria na construção das frases em língua portuguesa.

“Azu… azulegos, isso?”

“Azulejos. E todos eles feitos pelas mãos nosso grande mestre Athos Bulcão, o maior dos artistas que temos. Isso aqui tudo é raridade, raridade, senhor”.

Vera examinou cada objeto com acuidade.

“Desculpa, mas esses trabalhos não são do Athos nem aqui nem na China” – decretou a jovem.

“São sim, olha a assinatura dele, senhora!”     O vendedor aproximou um azulejo da vista de Vera.

“E isso diz alguma coisa? É pirata. Conheço bem o estilo do Athos, já fiz oficina com ele. São desenhos assimétricos, poucas cores”.

“Mas que coisa linda!”     O alemão tomou o azulejo das mãos do vendedor e o contemplou.

Vera tentou alertá-lo.

“Lindo é, sem dúvida. Mas não é do Athos”     “Já ouvi falar desse Athos. Quanto custa, hã?” – prosseguiu, indiferente.

“Essa peça eu faço pro senhor por trezentos dólares. Fechou?”

“Ou você faz um preço justo pra ele ou trago o Athos Bulcão aqui. Quer fazer o cara de trouxa só por que é turista, é?”

Naquele meu instante quase eterno, Klaus firmou seu olhar arguto nos olhos azuis de Vera como um colonizador que desbrava uma terra estranha e paradisíaca.

Funcionou.

Klaus a presenteou com o azulejo. Vera hesitou, mas não fez desfeita à gentileza insistente. De quebra, recebeu um convite para um café. Derretida pelo charme europeu daquele homem, deu um até logo pra rapaziada e o acompanhou.

Klaus tinha viajado a Brasília para concluir um trabalho de mestrado sobre Oscar Niemeyer, lenda da arquitetura brasileira e sua maior inspiração para o ofício. Parou com Vera defronte ao relógio de sol e ambos divagaram sobre os ponteiros inertes.

“Como ir rumo ao futuro perfeito se o relógio não anda, me diz?”

“E pra que futuro? Se a perfeição está aqui, no presente”.

Ponteiros param, eu não. Sou como a consciência de um corpo que, mesmo em estado vegetativo, existe e faz existir.

Casaram-se em Frankfurt, dois anos depois. O azulejo azul e branco de um Athos pirata, símbolo daquela união, foi pendurado à parede.      Ali ficou, por três anos, intacto e indiferente às discussões constantes do casal.

Até que a visita do padrinho, George, um colecionador de obras de arte que já há algum tempo estava de olho naquele azulejo sui generis, engatou a primeira marcha da tragédia.

Em um casamento quase falido, não há símbolo que resista.     “O que quer em troca desse azulejo do Athos, Klaus? Diga, qualquer coisa”.

“Quero sua Taurus RT44”.

“Minha Taurus? Mas pra que você quer uma arma?”

“Pra que você quer um azulejo? Algum problema de eu imitar o Clint Eastwood? Meu pai tinha uma beleza dessas e eu era fascinado. Deal?”

Vera nem sequer reparou na ausência do azulejo. Tampouco na arma, no fundo de uma das gavetas.

Costumam dizer que eu bato o martelo das coisas do mundo. Que tudo está em minhas mãos, que sou o melhor juiz.  Minha mera existência condena tudo à morte.     O suor no gatilho. O azul dos olhos de Vera desaguados em sangue no lençol. O choque. A fuga desesperada do amante. Klaus foi Clint em um western sem final feliz.

Treze anos depois, Klaus retorna à Brasília. Está diante do relógio de sol com o intuito de me questionar, desafiar. Quer girar os ponteiros ao contrário, voltar no tempo e, quem sabe, ser transportado pro instante que antecedeu o ato que desencadeou o maior dos seus remorsos. Klaus se dirige até vendedor de azulejos ali perto e apenas observa os trabalhos, um a um, mastigando o silêncio com gosto amargo de passado. Apanha um dos azulejos, idêntico ao que marcou sua história.      “Cristiano Silva…” – lê a assinatura, em voz baixa.     “É meu tio. Grande artista. Chamam ele de novo Athos. Conhece o Athos Bulcão? Meu tio já fez exposições em vários museus, ficou conhecido até lá fora já. Esse daí é dos raros, um dos primeiros trabalhos dele”.     Klaus contém as lágrimas e sai caminhando em direção ao relógio com o azulejo na mão.     O ex-presidiário atira a arte contra os ponteiros. A porcelana espatifa-se e interrompe o relógio. Klaus solta um berro, que soa como súplica.     E lá estava ele, novamente diante de Vera, imerso em seus olhos azuis.      “Vai levar, senhor?”     Klaus se volta para o vendedor, incisivo.     “Não, Cristiano. Obrigado, mas hoje não”.     Viram só? E ainda dizem que sou impiedoso. Que nunca volto atrás.      “E quem irá dizer que não existe razão?”

Contagem:  992 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

Observe que a segunda frase tem 46 palavras. Isso não é bom para um começo. Pressupõe-se texto de frases longas. Gostei de “vida insistia em rosnar”. Não é verossímel expor produtos á venda em local de caminhadas. U$ 300 não é crível. As peças falsificadas não são feias à mão, são industrializadas como relógios falsos. Gostei da sinestesia “mastigando o silêncio”. Atenção: “atira a arte contra os ponteiros” – relógio de sol não tem ponteiros, apenas um pino. A sobra é o ponteiro. Gostei do fechamanto.

Ana Vilela

Evitar lugares-comuns, a exemplo de: bem como (que não cabe em um conto), sábado ensolarado, refestelados, bochechas afogueadas… Seria interessante dizer o mesmo até, mas com outros termos. Dizer sem explicitar.
Explicação desncessária: “lenda da arquitetura brasileira e sua maior inspiração para o ofício”. É um conto. Não é necessário explicar quem foi Oscar Niemeyer ou quem foi Athos.
Alguns erros de português e de digitação: à Brasília e não-adestrados, por exemplo.
Principais considerações: 1 – a ideia é boa, mas o texto fica um pouco confuso em alguns momentos, é necessário criar uma marcação melhor para narrador e personagens. Às vezes não se sabe quem está falando; 2 – o conto ultrapassa um ótimo fim (o que é muito difícil de conseguir e você tem isso no seu texto), que seria neste ponto: “Vera nem sequer reparou na ausência do azulejo. Tampouco na arma, no fundo de uma das gavetas”; 3 – o começo pode ser mais direto, trazendo algo que prenda o leitor já no primeiro parágrafo.
Nunca tenha medo de cortar e cortar na hora de reler e reescrever. Limpar o texto também é uma arte, talvez uma das mais difíceis. Você tem bons elementos, trabalha bem os diálogos. A ideia de usar a música também é legal. Tente limpar e reestruturar o texto um pouco, pois ganhará mais força, maior impácto, mais clareza – e clareza não quer dizer obviedade.

Betty Vidigal

1) “O hipster que canta (etc),bem como os visitantes que passeiam (etc), não notam” — apesar do “bem como”, que insere um grupo na frase, o sujeito continua sendo “o hipster”. Será que esse “notam” deve mesmo ser no plural?
Se você quer o verbo no plural, pode ser “Nem o hipster que canta e toca Legião em seu Romeo Di Giorgio nº 34, nem os visitantes que passeiam e olham pro alto e dizem que vai chover notam etc”
2) “No período que esteve preso em Moabit” – tem que ser “no período em que esteve preso”, etc… O cara fica preso “em” um período de tempo. Mas a frase soaria mal com dois “em” seguidos (porque já tem “em Moabit”).
Você tem muitas opções, mas do jeito que tá não pode ficar. a) não precisa “em Moabit”. Pode ser qualquer coisa, ou pode ser só “no período em que esteve preso”, sem dizer onde. Ou “quando esteve preso em Moabit”… Enfim: só não pode dizer “no período que esteve preso”.
3) “retorna a Brasília”. Sem crase.
4) “ “Cristiano Silva…” – lê a assinatura, em voz baixa. “É meu tio. Grande artista. etc” Precisa deixar mais claro que é outra pessoa que diz a segunda frase. Parece que ainda é o Klaus. –
5) O último parágrafo precisa ter os sujeitos das frases todos redefinidos, por clareza. Depois te mando umasugestão…
Excelente. Narrador original e bem sacado, apresentado com sutileza. A estória não seria tão boa, se não fosse esse o narrador.
Algumas imagens muito bonitas, como “mastigando o silêncio”.
Bem escrito. As observações que fiz são alterações que um revisor te proporia, mas não significam que o conto não é muito bem escrito.

João Paulo Hergessel

O texto se inicia com uma sonoridade harmoniosa, combinando com a menção à música, e o ritmo se estende, em parágrafos assimétricos, mas fluidos internamente e entre si. As referências ambientando o enredo, a pontuação demarcando a temporalidade, a constituição clara e afetiva das personagens e a grande revelação de o narrador ser o próprio tempo são um grande achado. “O azul dos olhos de Vera desaguados em sangue no lençol” é o trecho mais marcante. Iniciamos o desafio com uma obra de arte que está longe de ser produto pirata.

Oswaldo Pullen

Alguns trechos interessantes salvam este conto, comprometido em alguns momentos pelo excesso de adjetivos e por problemas de conexão entre os seus pedaços.

Nota

 

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 8,5
Ana Vilela 8,0
Betty Vidigal 9,8
João Paulo Hergessel 10,0
Oswaldo Pullen 8,0