Azulejo mortal

Heliodora Ekonbeliongo

O burburinho em torno do relógio de sol àquela hora não era normal.
Aquele é de fato um relógio monumental sem qualquer sombra de dúvida, mas o Parque da Cidade tem outros atrativos bem mais solicitados – aquele ali com todo seu charme rende algumas fotos, nada mais!
Abri espaço entre os curiosos e pude verificar que o motivo de tanta atenção era o corpo de um homem que teimava em boiar sobre o raso espelho d’agua onde a estrutura do relógio está assentada.
Olhei o corpo com atenção e identifiquei um dos meus fregueses do quiosque, tinha os pés descalços e um pedaço de azulejo enganchado na cabeça de onde um sangue grosso já não escorria mais.
Se fosse ele se deparando com aquela cena teria usado uma de suas expressões preferidas “meinGott!”
– Meu Deus! Digo eu agora, o que teria acontecido, quem teria feito essa barbaridade?
Bom, não era muito difícil de se imaginar – andando com maleta e usando roupas caras, Wolf era uma presa atraente para aqueles que imaginassem encontrar dinheiro ou alguma coisa valiosa com ele.
Circulava entre os presentes várias versões sobre o ocorrido e a mais provável era a de latrocínio.
Bem ao lado do corpo, uma maleta aberta espalhava dezenas de fotos que por não boiarem o vento ia espalhando pelo gramado. Em todas as fotografias, o morto e painéis de azulejos semelhantes àqueles que enfeitam as paradas do parque.
A maleta era minha velha conhecida, Wolf não desgrudava dela, ali guardava uns exemplares da sua coleção milhares de azulejos, raros de acordo com ele e que estava prestes a negociar com outro colecionador. Inclusive chegou a me confidenciar que em último caso, até poderia trocar caso houvesse alguma peça que o interessasse.
Tudo dependeria do certificado de autenticidade que já tinha dado entrada, mas que a burocracia estava atrapalhando, de qualquer maneira ele acreditava que o resultado sairia na semana passada, foi a última vez que conversamos.
Pouco soube a seu respeito, além do fato de que veio de Colônia na Alemanha, que já estava em Florianópolis com parentes há quase quatro anos, com visto de trabalho e gostando tanto do Brasil a ponto de desejar se fixar aqui permanentemente.
O que ele não precisou dizer era do apego que tinha pelas peças da sua estimada coleção isso a gente já deduzia de imediato em sua conversa enrolada e cheia de sotaque.
Todas as vezes em que foi ao quiosque entre um pastel e outro, abria e fechava a inseparável maleta por inúmeras vezes, tirava as fotos preferidas, uma e outra peça de cerâmica e depois de olhar minunciosamente, guardava e voltava ao pastel.
No início aquele ritual me incomodava, depois tanto os fregueses quanto eu nos acostumamos com aquilo. Vez por outra um cliente novo era atraído por aquela excentricidade, mas depois de uma cerveja ou duas, ninguém ficava prestando atenção nas esquesitices dos outros!
Veio a Brasília por conta do tal certificado, mas que veio com prazo para conhecer a cidade, principalmente os locais onde tinha os azulejos do AthosBulcão dos quais era grande admirador, aliás diga-se de passagem azulejos eram seu tema preferido e com qualquer pessoa que conversasse, fazia questão de tratar sobre o assunto e de mencionar a variedade deles em sua coleção.
O corpo ainda estava lá no final da manhã, a diferença era que como eu as pessoas tinham seus afazeres e aos poucos foi se dispersando.
Uma equipe de funcionários não sei de onde havia drenado toda a agua e agora se via a outra parte do azulejo dissolvida e o que antes era o desenho havia se descolado da argamassa que agora tinha resíduo de sangue.
A autenticidade posta à prova não resistiu algumas horas sob a agua.
MeinGott! Pobre Wolf!

Contagem:  631 palavras

Comentários

Allan Vidigal

O objetivo dos Desafios não é falar de gramática, mas vou abrir uma exceção porque, nesse caso, chega a atrapalhar a leitura: você precisa dar muito mais atenção à pontuação. Sobre o conto propriamente dito, não empolga. Dá a impressão de ser parte de aguma outra coisa, um trecho de um conto maior.

Cinthia Kriemler

O texto é confuso, contém inúmeros erros de grafia, de concordância, de pontuação. A história não emplaca. Do meu ponto de vista, há explicações desnecessárias e o conto parece não deslanchar até que chega o final e o autor ou autora despeja informações demais no último parágrafo. Não entendi, por exemplo, onde estava o azulejo sujo de sangue, já que no fundo do espelho da água do relógio sol, em Brasília, não há azulejos de Athos Bulcão. Se foi colocado lá, foi por quem? E como foi parar lá? Outra coisa. Enfim, o texto não fluiu, não convenceu e não me agradou. Apenas contém os elementos pedidos, mas de forma desordenada. Há problemas de forma e de conteúdo.

Marco Antunes

Seria exaustivo apresentar os casos de falta de pontuação, peço apenas que o autor atente para essa exigência do texto. “várias versões circulavam” – Cuidado com a concordância! “e gostando tanto do Brasil a ponto de desejar se fixar aqui permanentemente.” – ficaria melhor se tivesse escrito: e gostando tanto do Brasil que já desejava se fixar aqui permanentemente. Frase truncada: “a diferença era que como eu as pessoas tinham seus afazeres e aos poucos foi se dispersando.”. Mais um texto em que o autor não deixa nenhuma ação acontecer, esse egoísmo do narrador, via de regra, enfraquece o conto que precisa de dinamismo e ação, mesmo que inteiro (vide Clarice Lispector, por exemplo em Perdoando Deus). O entrecho é pouco atraente. A personagem é curiosa o que acaba dando ao conto um certo ar de crônica. Claro está que o autor é iniciante e tem um longo caminho pela frente antes de se tornar o contista que, por algumas virtudes demonstradas, pode vir a ser.

Nálu Nogueira

Premissa boa — uma abordagem policial — que não se concretizou. O autor tem boas ideias, mas as construções um tanto infantis e excessivamente didáticas. Também hálapsos de pontuação e de palavras repetidas, erros de regência e até um erro ortográfico grave, que o corretor do Word certamente apontou, mas o autor comeu mosca.

Wilson Pereira

O conto não atende bem ao que foi proposto, pois se perde em detalhes inconsequentes e inexpressivos.
Além disso,a estrutura narrativa apresenta falhas e a linguagem contém alguns erros e certas incoerências.

Nota

Jurados

Nota

Allan Vidigal 7,0
Cinthia Kriemler 6,9
Marco Antunes 7,3
Nálu Nogueira 7,0
Wilson Pereira 7,0