Caça ao tesouro

EtienneCachova

Olha, tentarei te narrar conforme ouvi. O arquiteto Heinz morava com a mãe em Berlim e havia encontrado numa maleta de recordações do Sr. Klaus, seu falecido pai, um cartão postal do relógio de sol, no Parque da Cidade, em Brasília, com a seguinte frase escrita à mão pelo próprio genitor: “O tesouro foi enterrado a cinco passos de onde começa o gramado circundando o horológio, em direção ao sul.” Heinz sabia que o pai estivera embrenhado no coração do Brasil, fascinado com a Capital do País construída a partir do nada – o Sr. Klaus era comerciante de arte e desejava garimpar obras de artistas famosos que vieram – e vinham – aos borbotões a Brasília, ávidos para compartilhar da fama mundial do fantástico empreendimento de arquitetura e engenharia. O rapaz ficou, portanto, imaginando qual seria a preciosidade sepultada no gramado à maneira dos piratas. Pensou tanto a respeito que quase enlouqueceu – aliás, a loucura era um mal de família, já que o pai de Heinz era muito conhecido pelas manias de perseguição, obsessões e delírios.
Durante três meses, todos os dias, Heinz mirou o cartão postal até sentir suores gelados e tremores incontroláveis. Passou a olhá-lo duas vezes por dia, depois de hora em hora, até ganhar aquele brilho estranho nos olhos tão semelhante ao do Sr. Klaus. A mãe, vendo que o filho único estava perigosamente mergulhando num abismo sem volta, entregou-lhe uma das muitas cartas recebidas do marido com selo de Brasília. Nela, o Sr. Klaus dizia haver ganhado num jogo de pôquer, clandestino, um azulejo estampado com o desenho estilizado do rosto de Juscelino Kubistchek e assinado pelo genial artista plástico AthosBulcão – o tal tesouro do cartão postal. Relatou ainda que, assim que deixou a mesa de jogo, soube que seria saqueado e certamente esfaqueado e jogado em um terreno baldio qualquer – tudo por causa da peça. Levar o azulejo para seu quarto de hotel, nem pensar: este seria roubado pelos funcionários, ou – principalmente – por algum dos hóspedes. Naquela hora decidiu enterrar o objeto de AthosBulcão no gramado circundando o relógio de sol. Por que ali, você me pergunta? E como eu vou saber? Já te disse que o velho era doido de pedra, não disse? Não vai mais me interromper? Muito obrigado.
A mãe – uma senhora com os pés bem fincados no chão – pensava que aquela história boba de azulejo ia pôr o filho de volta aos trilhos do bom senso. Ledo engano. Eu diria que só piorou. Heinz meteu na cabeça que buscaria a peça que, por direito, pertencia à sua família. Pensava nisso dia e noite. E quando dormia, sonhava com sua missão extraordinária. Então chegou ao limite. Explicou a um cliente que precisava viajar e pediu mais tempo para terminar o trabalho de arquitetura residencial a que se debruçava, em seguida iniciou os preparativos para a grande caçada ao tesouro.
Duas semanas depois Heinz, com visto de turismo, chegava à Capital do Brasil. Com um cicerone indicado pelo hotel onde se hospedou, durante três dias visitou os principais pontos turísticos onde se viam os painéis artísticos de AthosBulcão: Teatro Municipal, Câmara dos Deputados, Itamaraty, fachadas de prédios residenciais – a produção do genial artista parecia iluminar de beleza a cidade inteira. Quanto à cabeça do rapaz… Bem, deixa pra lá, você pode muito bem imaginar como ela ficou desarranjada pela fascinação.
No quarto dia Heinz estava no Parque da Cidade sentado num banco próximo ao gramado circundando o relógio de sol – uma das mãos remexendo o interior da bolsa a tiracolo onde guardava uma colher de pedreiro, recém-adquirida. Por todo lado havia gente fazendo caminhadas, andando de bicicleta, ambulantes vendendo de tudo, atletas amadores nas quadras esportivas. E funcionários públicos municipais: jardineiros, guardas, zeladores. Como é que iria cavoucar o gramado com tanta gente? O atordoado rapaz não havia concebido nenhum plano. Resolveu voltar para o hotel, descansar um pouco – retornaria ao Parque na calada da noite. Deitou-se de roupa e tudo e só foi acordar ao meio dia da manhã seguinte com a cidade em polvorosa. Saltou da cama e olhou pela janela. Pelas ruas e calçadas uma multidão inacreditável gritava variadas ordens de comando. O povo estava se manifestando a favor ou contra a realização do impeachment da presidente do Brasil. Não vou me estender sobre tais acontecimentos, eu e você participamos dessas passeatas e até brigamos feio por divergirmos de pontos de vista políticos, lembra-se? Bom, o fato é que Heinz foi para o Parque da Cidade, intuindo que ninguém estaria se divertindo no local – o povo estava muito brabo para deleites físicos ou espirituais. Intuição certeira. As poucas pessoas – incluindo os funcionários municipais – acotovelavam-se dentro do restaurante onde um televisor sintonizado no canal Globonews transmitia as manifestações eclodindo em todo o País. Muito bem. Com sua colher de pedreiro, Heinz revolveu o gramado circundando o relógio no ponto exato indicado no cartão postal – em pouquíssimo tempo encontrou um objeto quadrangular enterrado na vertical a uns dez ou quinze centímetros de fundura. Estava embrulhado em uma camada de lona e outra de plástico. Guardou a peça na bolsa a tiracolo e correu, entre a multidão, para o hotel, sem que ninguém estranhasse sua conduta. Lá, sentado no meio da cama, desembrulhou o azulejo. Era mesmo o desenho estilizado de Juscelino Kubistchek. E assinado pelo artista plástico. Heinz chorou de felicidade, copiosamente. Não fosse tanta emoção, Heinz talvez percebesse que Bulcão jamais assinaria seu prenome como constava no azulejo: Atos, ao invés de Athos.

Contagem:  914 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Gosto do recurso de contar uma história como se fosse oralmente, de uma pessoa para outra, mas acho que, para funcionar, a linguagem tem que ser mais coloquial do que a que você escolheu. A questão da loucura poderia ter sido mais bem explorada, ou, alternativamente, nem precisava ter entrado na história.
De modo geral, não me pegou. Comentários assinalados:
● objeto de Athos Bulcão – Não precisa explicar.
● A mãe – uma senhora com os pés bem fincados no chão – pensava que aquela história boba de azulejo ia pôr o filho de volta aos trilhos do bom senso – Como diabos uma senhora “com os pés bem fincados no chao” vai achar isso?
● televisor sintonizado no canal Globonews – Precisa?

Cinthia Kriemler

É um texto bem escrito, com uma ideia coerente dentro do pedido no desafio. Mas não me empolgou. Foi uma história bem contada, mas que não teve, para mim, nenhuma surpresa, nada inesperado, nada que fugisse do que eu previa da história. A frase final é a melhor do texto. De resto, muita explicação, como se fosse para tudo encaixar. É um texto correto. Segue os cânones. Atenção para o excesso de travessões que você usa. Chame atenção porque quase poluiu o texto. Você chegou a usar travessões dentro de traduções, coisa que eu nunca vi. Se existe, para mim é novidade. E revise suas vírgulas, uma ou outra fora de lugar. Há frases em o ponto, ou um ponto e vírgula, seria o adequado. O teatro de Brasília é chamado de Teatro Nacional, e não Municipal (faltou pesquisa). Somos Distrito (é Não município). Enfim, repito, é um texto correto e cumpre o que foi solicitado. Mas eu sinto que podia ser mais.

Marco Antunes

A rima em prosa ou ecolalia é um vício de linguagem a ser evitado: “saqueado e certamente esfaqueado e jogado”, por isso leia sempre seu texto em voz alta sentindo também a sua melodia. Lembre-se de que a escrita é apenas um suporte para a literatura, sempre prefira uma boa oralidade a uma boa expressão escrita. “No quarto dia Heinz”, “Por todo lado havia “ − cuidado com a pontuação. Para o meu gosto pessoal, o abuso de gerúndios enfeia o texto, especialmente se próximos demais – “lado havia gente fazendo caminhadas, andando de bicicleta, ambulantes vendendo de tudo”. “E funcionários públicos municipais” – Brasília não é um município, mas um distrito, tudo aqui é distrital, informe-se melhor ao escrever sobre um tema. O entrecho é interessante, implausível, mas interessante. O que me incomodou e muito é que o narradorpoucas vezes deixou a cena correr e a ação falar por si, isso enfraquece o conto que pede ação e movimento. Sinceramente, achei imensamente chato e estilo escolhido para a narração. O texto está dentro do limite de palavras, mas, mesmo assim, não tive a sensação de aborrecimento com os dois primeiros textos que senti com este. Evidente que o autor tem alguma intimidade com o objeto literário, mostrou suas virtudes, mas precisa fazer um texto mais fluente e dinâmico.

Nálu Nogueira

A premissa é boa, mas a solução ficou aquém do que a história poderia render. Achei a narrativa um pouco adolescente e não gostei da frase final, o que para mim, como leitora, é importantíssimo: é o que deixa aquela sensação de alegria/arrebatamento que a gente tem quando lê algo muito bom!
Destaco o autor se referir aos funcionários públicos locais como “municipais”: não é como se fala aqui, talvez tenha faltado pesquisa. Um nativo diria: “e servidores do GDF” ou “e servidores distritais” em vez de “e funcionários públicos municipais”. Outro detalhe bobo, mas que me incomodou: de um modo geral, nem jardineiros, nem guardas nem zeladores são servidores públicos.

Wilson Pereira

O conto, apesar de obedecer ao tema proposto, perde-se em pormenores impertinentes, sem conexão com o eixonarrativo esperado. Falta o clima de expectativa e a objetividade do foco temático.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 7,5
Cinthia Kriemler 9,1
Marco Antunes 8,0
Nálu Nogueira 8,0
Wilson Pereira 7,5