Capitu-lação

Carlo Couto

Encontravam-se na moita. Literalmente. Posto que o esconderijo ficava atrás de um arbusto na Praça dos Cristais, no setor militar urbano, lá em Brasília. Naquela área e, sobretudo, àquelas horas que se espreguiçavam com o sol, era improvável que encontrassem ali algum enxerido. A bela praça ficava perto da casa dela e do escritório do ingênuo marido e do amante, que eram ambos funcionários do Ministério da Defesa. Ela então costumava sair de casa cedo junto com o esposo, dando a desculpa de levar o poodle para passear.

Namoravam tranquilamente à sombra de um belo Buriti, que ali fincou raízes graças ao senso patriótico de Marx – não o Karl, mas o Burle. Depois seguiam a um apartamento ali perto que o concubino alugava só para este propósito. Ela vinha sempre toda emperiquitada, vestidos de seda, muita bijuteria. Aquela parafernália atrapalhava um pouco na hora do sarro, Escobar achava, mas não dizia nada para não contrariá-la.

Nesse dia funesto, porém, o marido saiu ainda mais cedo de casa, praticamente de madrugada. A tentação de macular o leito matrimonial os deixou muito excitados. Ele veio, então, à casa dela.

Pois é. Lá estavam os pombinhos no maior bem-bom, ela de baby doll temptation black e ele nu em pelo, com exceção das meias pretas e da gravata. É que ela fazia questão. Tinha uma tara por homem nu de gravata e meias. Vai saber…
Foi quando ouviram a chave girando na fechadura.

̶ Meu Deus…
̶ … nos acuda!

Mal deu tempo de juntar as roupas espalhadas pelo chão e Escobar se enfiou no armário. A fingida acendeu com toda calma um cigarro e recebeu o marido com ares de sono na porta do quarto.

̶ Voltou para me acordar, mô?
̶ Infelizmente, não, benzinho, só esqueci o meu crachá – disse ele, revirando uma papelada em cima da escrivaninha. Só então olhou direito para ela. – Nossa, você está deliciosa! Já estava vestida assim hoje à noite?
Ela faz beicinho. – Está vendo só? Você nem olha mais para mim.
̶ Ora, meu anjo, que bobagem! Que absurdo! Venha cá…
̶ Não, agora estou chateada. Triste mesmo – respondeu com os olhos turvos.
̶ Não faça isso, minha filha – ele retruca, puxando-a para si. – É só que ando muito ocupado, você sabe… ah, olha ali! – e avista um crachá em cima da mesa da cozinha. Larga a mulher e vai pegá-lo. – Ué, mas esse é o crachá do Escobar! Será que eu peguei o dele por engano?
Lá dentro do armário, Escobar, que já estava suando em bicas, começa a temer pela sua bexiga fraca.
̶ Mas então onde está o meu? Eu tenho certeza que voltei de crachá para casa. Ah, deve estar no bolso do paletó que usei ontem – e faz menção de ir ao quarto tirar o terno da véspera do armário.

Lá dentro, sufocado pela seda de inúmeros robe de chambre e com os saltos dos sapatos dela lhe furando as solas dos pés, Escobar ouve os passos se aproximarem e começa a sentir falta de ar. Percebe a voz do colega ficando cada vez mais alta e sente uma pontada no coração. Parece até distinguir a respiração do outro e de repente: Ai meu Deus, que dor de barriga danada!

A formosa vem calmamente atrás do marido, dá uma boa tragada no cigarro, sopra a fumaça em forma de círculos concêntricos e diz, oblíqua, no momento exato em que o esposo alcança a maçaneta do móvel: ̶ Eu já mandei o seu terno para a lavanderia. Aliás, ele estava com um perfume estranho, doce… – E faz cara de desconfiada.
̶ Ora, mulher, não me venha com cenas agora, estou atrasado, pô!
̶ E tinha um fio longo de cabelo louro-oxigenado – insiste, com os olhos marejados, aqueles “olhos de ressaca”.
̶ Não começa, por favor!
̶ Quem é ela? – e as lágrimas correm livres pela cara lavada.
̶ Bom, deixa pra lá, eu vou sem crachá mesmo. Tchau.

Escobar, ainda nu de gravata e meias, já ia saindo do armário quando, súbito, a porta da casa se abre novamente e o marido volta correndo para pegar o outro crachá que ficara em cima da mesa.
̶ Vou levar pro Escobar. Quem sabe ele não está com o meu. Ele sempre passa a mão nas minhas coisas! – e bate a porta, esbaforido.

Ela liberta o amante, que tinha ficado entalado de susto.
̶ Meu herói! – exclamou a dissimulada, tentando agarrá-lo.
Mas para Escobar, em geral tão viril, um verdadeiro Super-Homem, aquela aparição teve o efeito de uma kryptonita e ele brochou completamente.
Aborreceu-se e capitu-lou.

Marcaram então para a manhã seguinte, como de costume, atrás da moita, na Praça dos Cristais.

Mais tarde, na repartição…
̶ Alguém sabe do Escobar? – pergunta Bentinho.
̶ Está de licença médica. Diarreia! – responde o Agenor da Administração. – A louraça oxigenada da esposa dele acabou de passar aqui, contaminou a recepção toda com aquele perfume adocicado. Que mulherão! Aliás, ela trouxe também o seu crachá, Bentinho, que não sabe como foi parar em cima da mesa da cozinha. Vai ver o Escobar levou por engano…

Contagem:  848 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Ótima narrativa, muito bem desenvolvida e redigida, com boa dose de humor. A dissimulada é uma personagem e tanto! O desfecho, revelando a simetria das situações, cai como uma luva.

Celso Bächtold

Excelente conto. Com pitadas de humor e ironia, atrai a atenção do leitor, que fica curioso em saber como o casal de amantes vai se sair da enrascada. Só faltou o plural em “robe”, mas isso em nada impactou o perfeccionismo do texto. Destaque para a atuação teatral da esposa traiçoeira.

Paulo Fodra

Curiosa variação do tema dos militares adúlteros. Trama muito bem amarrada, fluida e leve. A cena tem cadência e a forma do texto contribui bastante para o fluxo da narrativa. A referência ao Machado de Assis é muito bem feita, sem errar a mão, com a sugestão do duplo adultério fechando brilhantemente o conto.

Roberto Klotz

Abertura muito explicativa (na praça, no SMU, em Brasília). Mutas contextualizações. Prefiro que fisgue o leitor. Prefiro um recorte de ação como “um espinho da moita atrapalhou o movimento do casal.” Só depois descreva o cenário. Evite adjetivos como belo, bonito que dizem só do gosto pessoal. (bela praça, belo buriti). Qualifique os substantivos praça geométrica, acolhedora ou imponente, buriti alto, antigo ou majestoso. Evite os clichês de duplinha tipo “leito matrimonial” (o google apresenta 181 mil resultados). Inverossímel: “os saltos dos sapatos dela lhe furando as solas dos pés” Os saltos ficam para baixo então não furariam os pés. Também é inverossímel se encontrar costumeiramente numa moita para fazer amor. O fechamento, ponto forte do conto, é hilário.

Simone Pedersen

Os elementos do desafio estão presentes. Difícil acreditar que um casal adúltero se encontre em uma praça, quando existe um apto para esse fim. Parece forçar o cenário. Quando se esquece o crachá, todo local de trabalho oferece uma autorização provisória. Repete “só” cinco vezes, quatro delas muito próximas. Não entendi como saltos finos podem furar a solá dos pés dele, ficam de ponta cabeça no armário? Explorar o humor em um conto não significa que a história possa ter pontas soltas.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  9,5
Celso Bächtold  9,9
Paulo Fodra  9,5
Roberto Klotz  7,8
Simone Pedersen  7,5
Total 44,2