Cigarra

Rosa

“Não foi por falta de aviso”, pensei enquanto dava os últimos passos na direção da parada de ônibus. De nada resolveria ficar em casa rolando de um lado a outro, e eu tinha o pressentimento, aumentado pela demora, sabia já antes dele sair que aquele não era lugar pra ir, desde pequeno eu dizia “Pensa, Cícero”, sempre disse “Pensa antes de fazer”, mas Cícero saía cantarolando, tinha a língua solta, quando não concordava ou não queria me escutar ele cantava, era alto que cantava, dizia ter nascido pra isso. “Não foi por falta de aviso”, fiquei pensando já dentro do ônibus quase sem passageiros. Toda vez que me aproximava da estação, mesmo antes de chegar, sentia o cheiro de pastel e era só ver a cobertura que eu engolia saliva com gosto de caldo de cana. A gente vinha passear na Esplanada, não foram poucas vezes, papai nos levava de cima a baixo, passar calor não era a melhor coisa, mas era muito bom andar pelo gramado, eu e Cícero corríamos como se ele não tivesse fim e, de fato, não tinha, a gente não via o final do gramado da Esplanada e, antes de voltar pra casa, papai comprava pastel e caldo de cana no Viçosa. “Fica longe”, mamãe disse um dia, enquanto Cícero caminhava cantando, com pastel na mão e tudo, na direção da escada rolante. Só não caiu lá embaixo porque ela segurou. A escada não era pra gente como a gente e não tinha que ficar fazendo pensamento de se meter com coisa assim, disse ela. Por isso, quando vi o convite, logo falei “Não fica fazendo pensamento”, ainda mais ao perceber aquelas letras esquisitas. Mas, se Cícero decidia, tava decidido. Foi assim quando começou a comprar roupa de mulher e sapato de salto. Eu já sabia do que ele gostava, mas se vestir de mulher era demais. Não tava certo, “Vou dar uma surra”, pensei, “Vai aprender a não ser bicha”, mas aí me abraçou e disse que eu era a pessoa que mais amava. “Esconde isso aí”, apontei pras roupas “Não deixa a mãe ver, Cícero”. Ele concordou, era desgosto demais, foi talvez a única vez que concordou comigo, então foi lá, dobrou tudo muito bem dobrado e colocou numa caixa de papelão junto com o sapato e quando eu já tava aliviado por ver a caixa lá no fundo do guarda-roupa onde a mãe não mexia, ele levantou-se e estendeu a mão “Agora sou Arlette”, falou. Eu não lembro o que pensei ao escutar aquilo, Arlette era Cícero ainda nos gostos, tomava caldo de cana no Viçosa sempre que podia, lembrei enquanto observava a rodoviária sem movimento, ao descer do ônibus, descia devagar porque talvez eu quisesse que aquele ônibus nunca tivesse chegado. Éramos quatro e depois que Arlette apareceu fiquei na dúvida se Cícero havia partido ou ainda estava ali, mas percebi que ainda estava, então eu contava como uma família de cinco, cinco pessoas que nunca estavam junto, sempre faltava alguém. Ela andava faceira com o convite. “Para de fazer pensamento”, eu avisei, esses convites vêm em língua estrangeira, vêm em inglês, falei, vêm com o nome do convidado escrito e aquele tava errado, tava em português e nem tinha nome. Mas já tava decidido. Arlette tirou o convite da minha mão “A Cigarra vai cantar”, falou. Era assim que queria ser chamada, “Cigarra”, tinha até um cartaz pra colocar na estação, descendo a escada rolante, onde o sol nunca chega. Cigarra, estava escrito com letras grandes perto da foto dela. Colocava do lado e colocava também uma bolsa onde as pessoas deixavam dinheiro, cantava lá na estação até ter voz “Depois volto pra casa”, dizia quando eu falava pra arranjar serviço que nem todo mundo. Papai andava mal da pressão, passava mais tempo de atestado que trabalhando. Por isso, faltava dinheiro, remédio é caro, faltava também eu ganhar melhor. “Vou ajudar”, dizia ela e às vezes aparecia com dinheiro. Acreditava que essa festa seria uma mudança de rumo. “Um é filho do Embaixador da Grécia”, me disse sobre quem havia dado o convite, “O outro é amigo dele”. Sei que ela fazia coisas por dinheiro. Com o que ganhava cantando não pagava nem as roupas e os pós com que se maquiava. Não sei onde se vestia, só sei que Cícero saía de casa com uma mochila, uma mochila grande, todas as tardes. E virava Cigarra, se esguelhando naquele buraco. Semana passada, após o trabalho, passei na estação. Cigarra pagou-me um caldo de cana. “Eu hibernei no corpo de Cícero”, disse “Agora eu canto”. E falamos sobre os passeios na Esplanada. A estação era a casa da Cigarra. Por isso pensei nesse lugar, desci as escadas. Primeiro vi os pés, descalços, nada de se mexer, era a única coisa que aparecia na pouca luz. Cigarra estava deitada, recostada à parede. Usava um vestido que parecia verde, ainda brilhava, e no braço tinha diversas pulseiras, a maioria quebrada ou torta e sua orelha estava com um rasgo e uma argola ainda pendurada, imagino o que tenha feito pra conseguir pagar aquilo. Agora, tudo imprestável, sujo de barro, sangue espalhado pelo tecido e pela pele, na garganta, pela boca. Quando Cigarra me viu, tentou dizer qualquer coisa, mas não falou. Apenas cuspiu pedaços de sangue. E, ali, mesmo na meia-luz, entendi seu olhar, suas mãos apontando para a boca em gestos repetidos, como se pedisse para eu confirmar, queria ter certeza, embora já soubesse, queria que eu confirmasse que sim, que haviam cortado, que a língua não estava mais dentro de sua boca. Ela colocava os dedos junto aos lábios, fazendo sinais. Creio que, no fundo, queria que eu desmentisse tudo, por isso insistia para eu falar, queria ouvir, foi a primeira vez que Cigarra quis me ouvir e então eu disse “Jamais, Cigarra”, eu disse e apertei forte suas mãos juntas, as suas duas mãos entre as minhas apertadas e unidas “Jamais impedirão você de voar, Cigarra”, eu disse.

Contagem: 998 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Os elementos do conto foram contemplados, embora o convite para a festa não seja explicitamente no Itamaraty. A ambientação da narrativa é bem elaborada, assim como o clima emocional carregado de elementos dramáticos, por meio de declarações de cuidado, ameaças e advertências, tão bem sintetizadas na frase “Não fica fazendo pensamentos”. A migração do personagem para outra identidade é belissimamente expressa na declaração “Eu hibernei no corpo de Cícero (…)Agora eu canto”.Creio que as frases muito longas do texto, com as quais inicialmente não simpatizei, têm a função de exteriorizar narrativas, reflexões e perplexidades do personagem. Notável o aviso de que “A Cigarra vai cantar”. Cantou. E morreu, como todas as cigarras condenadas à morte após ousarem cantar até ensurdecerem a sociedade hipócrita que não quer escutá-las. Ponto para a crítica social do texto.

Alexandre Lobão

História bem imaginativa e divertida, neste caso tenho pouco a sugerir.
Trata-se apenas de uma questão de estilo, mas achei que a construção dos dois últimos parágrafos poderia ser diferente, com uma quebra de parágrafo antes de “Já o chefe…” e outra antes de “E depois…” que reforçassem as pausas dramáticas para dar mais força ao final.

Allan Vidigal

Muito, muito bom! Só não gostei das últimas duas ou três linhas, de “Cigarra quis me ouvir” em diante. Acho que não precisava e até enfraqueceu um pouco o todo.
Mas tá bom pacas.

Ana Vilela

Muito boa a ideia de dar o nome de cigarra a alguém. O texto, mais uma vez, está muito bem construído. É tocante. Ótimo narrador.
O conto pega o leitor já na primeira linha. Logo de início já sabemos que algo grave aconteceu (ou não), mas fica o suspense, o desejo de saber quem é Cícero, a quem o leitor logo se apega. Criar empatia do leitor com um personagem é uma arte.
O final é ótimo.

Betty Vidigal

Pode vir a ser um ótimo conto. Precisa mexer bastante. Tirar o que não interessa e acrescentar o que pode tornar a estória mais humana.
Não é bom que o narrador pense em dar uma surra na Arlette. Se ele, que é irmão, pensa nisso, então você de certa forma justifica os agressores.
Por que o nome Arlette não aparece mais depois que surge Cigarra? Tem que aparecer, é a Arlette que quer ser chamada de Cigarra. O Cícero pode desaparecer, a Arlette não.
Você precisa desenvolver uma fraseologia mais consistente, os períodos com pedaços de frases são às vezes desconexos.

Celso Bächtold

O uso de parágrafos excessivamente longos deixa o leitor um pouco confuso. Confesso que tive que retonar a ler algumas partes do texto para melhor entendê-las.

Cinthia Kriemler

Um conto diferente e triste. Pecou, na minha opinião, por alguns fluxos de consciência mal conduzidos, que deixaram o texto embolado, mas o conteúdo me agradou.Gosto de um drama bem colocado, embora a frase final tenha ficado piegas.

João Paulo Hergesel

Poético, de forte relevância social, com representação firme do cotidiano e de identidade demarcada. Soube usar os três elementos solicitados em uma história que seduz pelo estilo e emociona pelo conteúdo. É uma das grandes obras-primas criadas nesta edição do Desafio.

Marco Antunes

Embora a ação jamais corra solta, o conto é comovente e surpreendente.

Nálu Nogueira

A premissa é linda, o mote é bom, gostei da abordagem, mas achei a narrativa algo confusa e atropelada. Penso que o(a) autor(a) poderia se debruçar sobre este conto, a história merece essa oportunidade! A nota é pela história, em si, que achei muito interessante o original, pelo viés que o autor encontrou para unir os elementos da provocação.

Oswaldo Pullen

Lirismo e tragédia se juntam neste conto muito bem construído.

Paulo Fodra

Conto magistral, escrito em fluxo de consciência preciso, tenso e bastante lapidado. A narrativa segue em tom crescente em direção ao desfecho visceral, brutal e perturbador. Um verdadeiro soco no estômago. É muito fácil errar a mão em textos deste tipo e o autor não só conseguiu evitar as armadilhas do estilo, como obteve um excelente resultado. Parabéns!

Roberto Klotz

A abertura longa. Texto hermético. Sem pausas. Cansativo. Prossegui na leitura por obrigação.A luz surgiu com: “Eu hibernei no corpo de Cícero”. O fechamento foi chocante e espetacular. Com ele, entendi que o tom do conto precisava ser fechado, pesado. Fez todo o sentido. Você acertou a mão em cheio. Sugiro procurar colocar alguma isca para fisgar o leitor na aberura e um bom anzol para mantê-lo na leitura. Seus textos serão imbatíveis.

Simone Pedersen

Um conto impactante, original e forte. O texto em bloco desmotiva a leitura. Precisa revisar, pontuar, diminuir algumas frases. Está repetitivo, por exemplo: “como se ele não tivesse fim e, de fato, não tinha, a gente não via o final do gramado da Esplanada”. Outro: “uma mochila, uma mochila grande”. Não precisa reforçar.
Outras frases longas e repetitivas:
. ainda brilhava, e no braço tinha diversas pulseiras (onde mais se usa pulseiras? Na perna é tornozeleira), a maioria quebrada ou torta (precisa especificar tanto?). Pulseiras quebradas caem no chão, para ficar torta e não cair tem que ser um bracelete. Aqui a cena de violência precisava de mais cuidado.
. e sua orelha estava com um rasgo e uma argola ainda pendurada. Por ex.: na orelha rasgada, uma argola insistia em não cair.
. eudisse “Jamais, Cigarra”, eu disse e apertei forte suas mãos juntas, as suas duas mãos entre as minhas apertadas e unidas “Jamais impedirão você de voar, Cigarra”, eu disse.
Uma personagem cigarra que hibernou dentro do Cícero e agora canta. Gostei disso (mesmo sendo o macho quem canta para atrair fêmeas, entendo que a personagem pode adaptar a imagem). Esse conto foi o que mais me afetou. O desenvolvimento foi no tempo certo, e o final surpreendeu. Quem cometeu o crime foi o filho do embaixador ou estranhos que ela encontrou no metrô? Nunca saberemos, não é.
Eu me estendi porque fiquei com a impressão que o(a) autor(a) não se dedicou, não releu, não revisou e entregou. Um pena, porque é uma história que poderia ficar muito melhor, com releituras e correções.

Wilson Pereira

O conto atende ao que foi proposto como desafio. A história é interessante, carregada de dramaticidade e os fatos estão bem encadeados e bem articulados. O desfecho é forte, culminando o teor dramático que se prenuncia no desenvolvimento da narrativa.A linguagem, no entanto, não alcança um nível literário superior.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,6
Alexandre Lobão 9,9
Allan Vidigal 10,0
Ana Vilela 10,0
Betty Vidigal  8,8
Celso Bächtold  8,8
Cinthia Kriemler  9,2
João Paulo Hergesel  10,0
Marco Antunes  10,0
Nálu Nogueira 9,0
Oswaldo Pullen  10,0
Paulo Fodra 10,0
Roberto Klotz  9,8
Simone Pedersen  8,7
Wilson Pereira  8,2
Total  142,0