Conto espelhado

José M. Umbelino Filho

Quando Lia e Lola Liddell eram crianças, a vó Tereza gostava de assustá-las com a história dos gêmeos da Birmânia. Ela contava que, há muito tempo, viveram dois rapazinhos birmaneses idênticos, gêmeos de corpo e alma. Quando um espirrava, o outro espirrava. Quando um acordava, o outro acordava. Vestiam as mesmas roupas, falavam as mesmas palavras, riam das mesmas piadas, caminhavam lado a lado; e se divertiam com isso, porque ninguém conseguia diferenciá-los. Viviam juntos, colados quase como siameses, melhores amigos e confidentes. Havia apenas uma coisa que não conseguiam fazer do mesmo jeito, e essa coisa era sonhar. Se um sonhasse com leões, o outro sonhava com colibris. Se um sonhasse com riqueza e felicidade, o outro sonhava com a miséria e os vícios. Mas como sonhos são secretos, e os irmãos queriam se parecer em tudo, decidiram mentir que também sonhavam igual. Bem cedinho, ao acordarem, confidenciavam seus sonhos, escolhiam o melhor, e então fingiam tê-lo sonhado juntos. Até o dia em que o irmão disse: “Tive um sonho inusitado. Sonhei que você não existia e que, esse tempo todo, eu vivi sozinho, acreditando que meu reflexo no espelho era você. ” O outro irmão o encarou assustado e exclamou: “Irmão, eu também sonhei isso! ” E só nesse momento ele percebeu que estava sozinho, conversando com seu reflexo no espelho.
Lia e Lola odiavam essa história, mas a vó Tereza insistia em contá-la. Talvez quisesse impedir que as gêmeas usassem de sua semelhança para enganar as pessoas. Não se pode dizer até que ponto isso influenciou a formação das meninas; mas fato é que entre elas surgiu, desde muito cedo, um profundo e vivo desacordo. Tudo que uma queria, a outra fazia questão de desquerer. Se por acaso coincidissem em algo, davam logo seu jeito de divergir; e assim seguiam, desprezando as semelhanças e exagerando as diferenças até que impregnassem suas vidas e personalidades. De tal forma, e com tanta intensidade, que, chegada a juventude, ninguém diria que as irmãs eram gêmeas. Elas se dessemelhavam em tudo. Lia, a estudiosa, e Lola, a negligente; Lia, a responsável, e Lola, a porra-louca; Lia, a morena, Lola, a ruiva cor de sangue; Lia, do discreto colibri tatuado no pé, e Lola, do enorme leão tatuado nas costas. Quando Lia decidiu cuidar da vó adoentada, Lola resolver fugir de casa. Quando Lia prometeu casar só depois do diploma, Lola juntou trapos com o primeiro aventureiro da boemia. E enquanto Lia era aclamada a boa moça dos sarais e vernissages de Brasília, Lola era coroada a moça boa dos bacanais e risca-facas.
O fim da juventude transformou a rivalidade das irmãs em amargura, e elas nunca mais se viram. Por alto, Lia chamava Lola de ovelha desgarrada; por baixo, Lola chamava Lia de vaca. Mas a vó Tereza faleceu com as nuvens de abril, e num maio muito azul e muito seco, Lia finalmente entrou nas lojinhas da Rua das Noivas. Estava livre para se casar com algum moço correto, morador do Lago Norte, dono de sobrado americano com sebe e labrador. Então deixou que a vestissem de branco e a colocassem sobre um banquinho, num provador rodeado de espelhos, observada pela plateia atenta dos manequins decapitados. Lia rodava o vestido em torno de si, quando teve a impressão de que seu reflexo saía do espelho e caminhava até ela. Era Lola. Não se viam há anos; Lola já não era ruiva, e Lia emagrecera, de forma que nada mais podia diferenciá-las. Sentaram-se lado a lado e tiraram, cada uma, uma adaga da bolsa. Armas idênticas, mouriscas, curvas como a lua minguante. Nenhuma das irmãs se surpreendeu. Embora não tivessem combinado, sabiam que se encontrariam ali, naquela tarde de maio, naquelas circunstâncias.
Viveram separadas, as irmãs Liddell, opostas como heroína e vilã, piores inimigas e maiores rivais. Havia, entretanto, uma coisa em que nunca conseguiram diferir, e essa coisa era sonhar. Pouco importavam distâncias e oposições, e nem com que força se odiassem ou ignorassem; sonhavam sempre os mesmos sonhos. Mas como sonhos são secretos, e as duas queriam diferir em tudo, nunca contaram isso a mais ninguém. Cada uma inventava seu sonho particular e fingia tê-lo sonhado. Se sonhassem com colibris, Lola mentia ter sonhado com leões. Se sonhassem com leões, Lia mentia ter sonhado com colibris. Entretanto, ali estavam, juntas, por causa de um sonho. Lia então disse: “Tive um sonho inusitado. Sonhei que hoje eu te mataria com uma adaga mourisca, numa loja rodeada de espelhos e manequins. ” Lola a encarou assustada: “Irmã, não pode ser. Eu sonhei algo diferente! ” Ao que Lia exclamou: “Impossível! Como diferente? ” Lola respondeu apenas: “No meu sonho, eu que te matava. ” E ambas se assombraram e emudeceram, sem saber se uma delas mentia, ou se haviam enfim sonhado coisas distintas, ou ainda se eram tão idênticas que se confundiam mesmo em sonho. Por toda vida concordaram em discordar, mas e agora? Seus sonhos eram opostos ou iguais? Ou será que, como no reflexo do espelho, suas imagens só se tornaram idênticas porque contrárias?
O que aconteceu depois pertence ao reino das suposições e das lendas. Ninguém sabe dizer ao certo. Apenas os manequins decapitados podem testemunhar, mas eles estão reticentes. Faltam-lhes as palavras, e as bocas. A vendedora da loja afirma que duas mulheres idênticas entraram no provador e apenas uma saiu. Mas nenhum corpo foi encontrado. Sabe-se, contudo, que, no fim de maio, a alta sociedade brasiliense comemorou o casamento de uma certa Liddell com um jovem desembargador. Sabe-se também que, na mesma noite, a baixa sociedade brasiliense presenciou uma Liddell dançar, nua como Godiva, pelas ruas de Taguatinga. Ambas as moças – a noiva tímida e a dançarina devassa – tinham leões tatuados nas costas. Ambas tinham colibris nos pés.

Contagem: 963 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Muito bem trabalhado o antagonismo, o sutil jogo da identidade/alteridade, a rivalidade e a amargura que permeiam a necessidade de individuação das gêmeas. Gostei muito do título e apreciei o clima nebuloso que encerra o conto. Um reparozinho: o plural de sarau é saraus. Mas preciso confessar a minha descoberta de que sarais, além de ser uma forma do verbo sarar, significa também uma grande cidade medieval da Índia, Irã e de outros países asiáticos, além de ser o nome de localidades inabitadas na Rússia (sempre acho que os erros são espantosamente fecundos!).

Allan Vidigal

Ótimo! Me arrepiou algumas vezes ao ler.
O sobrenome com duas consoantes dobradas foi deliberado? Espero que sim, mas, se não foi, também tá valendo.
(olha, tem um negócio que vou fingir que não vi, tá? Só seria “sarais” se o singular fosse “saral”, mas não é: é “sarau” e o plural é “saraus”).

Ana Vilela

Duas histórias em um conto. Contos gêmeos. Muito legal a história, a forma como você escreve, o inusitado. Ótimo narrador. Seu texto é realmente muito gostoso de ler. No lugar de divisão, ou de morte, um reencontro consigo mesmo, a aceitação de duas partes. Parabéns!
Favor verificar: “sarais”.

Betty Vidigal

O final é sensacional.
A coisa de sonhar coisas diferentes e mentir dizendo que sonhavam coisas iguais, ou vice-versa, está muito mal explicada. Nem dá para saber se as incoerências são intencionais ou se são um lapso.
Tem recursos de estilo muito bons e ritmo de frase muito bom também.
– “Contava que havia muito tempo”. Ou: “conta que há muito tempo”. Da mesma forma, “não se viam havia anos”. O verbo haver tem que estar no mesmo tempo verbal que você usa para relatar a estória. Mas você pode dizer “Há muito tempo, havia…”. Pois “faz muito tempo” (hoje) que existiam (no passado).
– Melhor “dintingui-los” que “diferenciá-los”, nesse tipo de situação.
– O plural de sarau é saraus.

Celso Bächtold

– “Quando Lia decidiu cuidar da vó adoentada, Lola resolver fugir de casa.”: tempo verbal (resolver) usado de forma incorreta.
– “E enquanto Lia era aclamada a boa moça dos sarais e vernissages de Brasília.”: salvo outro juízo, o plural de “sarau” é “saraus”.
Texto com muito mistério, fácil e gostoso de se ler.

Cinthia Kriemler

O texto tem todos os elementos solicitados. É um conto com altos e baixos. Frases que eu gostei demais contrapondo-se a algumas soluções fracas que saem pela tangente, justificando e explicando demais. Não gostei da expressão “homem correto” e achei desnecessária — e quase infantil — a frase “O que aconteceu depois pertence ao reino das suposições e das lendas.” (confie que o leitor perceberá sozinho isso). Gostei da ideia final da fusão das duas. E da última frase, bonita.
Atenção: o plural de sarau é saraus (como grau/graus; degrau/degraus)

Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)

Linda a frase de fechamento do conto. Muito boa a ideia do jogo de espelhos e sonhos.

João Paulo Hergesel

A fábula inicial é tão macabra, mas escrita de uma maneira tão adorável, que mostra o lado tenro da literatura fantástica. O show de antíteses que ocorre na diferenciação das personalidades é uma genialidade à parte. A revelação de que, em paralelo à fábula inicial, os sonhos são a chave de todo o mistério, foi mais um elemento fenomenal no conto. Por fim, com a fusão (ou confusão?) das moças, pode-se classificar esse thriller literário como “arrepiante”. Todos os adjetivos positivos para este conto!

Marco Antunes

‘Estava livre para se casar com algum moço correto, morador do Lago Norte, dono de sobrado americano com sebe e labrador’ – Bem, não me parece caso para uso de “algum” quando todos os dados do moço estão bem apresentados. A ideia é ótima e razoavelmente bem desenvolvida. As personagens convincentes, o nível simbólico explorado com perfeição. Meu desagrado fica por conta do narrador egoísta que não liberta a ação para que a vejamos enquanto acontece, sem que se possa caracterizar o presente texto como um conto de ação interior. De toda forma é um belo trabalho.

Nálu Nogueira

Interessante e supreendente, não obstante o início um pouco atravancado. O conto acaba e a gente fica aqui pensativo. E não importa não ter a explicação mastigada pelo narrador, o leitor que presuma o que quiser. Gostei.

Oswaldo Pullen

Um conto perspassado pela monotonia, acrescida pela ausência de um desfecho de interesse.

Paulo Fodra

Delicioso conto fantástico em tom de causo. A premissa, embora não tão original, ganhou uma roupagem fresca e competente, resultando em uma narrativa cativante e bastante particular.

Roberto Klotz

Abriu bem o conto com tom de terror ao empregar “assustá-las” e “Birmânia” um lugar distante e enigmático. Em vez de sarais, plural de sarau é saraus. Gostei de
“plateia atenta dos manequins decapitados” e “Apenas os manequins decapitados podem testemunhar” que além de chamativos, mantém o tom de terror. Durante todo o conto provocou a curiosidade e vontade de seguir em frente. Senti falta de diálogo. O ótimo fechamento misterioso, mas ligeiramente lírico está em conflito no meu entender, com o tom de terror em todo o conto. Repete palavras: 8 “como”, 8 “mas”, 6 “quando”e 11 sonho/sonhos. Sugiro usar o analisador estatístico: http://linguistica.insite.com.br/corpus.php. Vide manual do escritor à pág. 156.
Curiosamente, duas vezes, deixou um espaço entre a última letra e o fechamento das aspas. Cocorrente forte.

Simone Pedersen

Boa sacada começar com um conto. Cuidado com as repetições: “reflexo” e “espelho” aparecem quatro vezes – duas delas muito próximas. “Mas” é usado oito vezes. “Lia” aparece 18 vezes e “Lola” 16. Não é um conto que me cativou. Faltou algo eletrizante.

Wilson Pereira

Atende ao desafio proposto. O conto engendra uma trama muito interessante, bem articulada e bem desenvolvida. Há consistência narrativa, fundamentação dos fatos, culminando o desfecho com uma situação inusitada, à feição do realismo mágico. Linguagem bem elaborada, com inegável teor literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,9
Allan Vidigal 10,0
Ana Vilela  10,0
Betty Vidigal  9,6
Celso Bächtold 9.5
Cinthia Kriemler 9,0
Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão) 9,0
João Paulo Hergesel 10,0
Marco Antunes 9,5
Nálu Nogueira  9,5
Oswaldo Pullen  8,0
Paulo Fodra 10,0
Roberto Klotz 9,2
Simone Pedersen  8,5
Wilson Pereira 9,0
Total 140,7