Do Outro Lado do Mundo

Assis Nóia

Era uma vez eu. Num súbito milésimo, me lembrei de tudo. Do gosto da placenta, da minha irmã obstruindo minha passagem para o mundo, depois a dor lancinante nos pulmões e o berro. O primeiro pedido de socorro.
A vida é dolorosa. E a gente sabe disso desde quando nasce.
Mina, na cultura japonesa, significa a primeira filha. Por apenas meio minuto, fui única. Logo Miyoco, cujo nome trazia o significado de “bela geração”, ganhou o status de caçula e rasgou meu diploma de exclusividade.
Na fotografia pendurada à parede da sala, numa moldura dinástica, vejo o quanto éramos lindas no alvorecer dos quatro anos, cada traço incrivelmente gêmeo; eu no colo do meu pai, Noburo, japonês bem quisto na comunidade, dono de uma pastelaria bem sucedida na Asa Norte de Brasília. Miyoco no de minha mãe, Arlete, goiana altiva, pintora sem muitos êxitos no mercado artístico. Nenhum sorriso.
Como se aquela imagem prenunciasse tudo…
A imagem refletida de Myioco, numa das vitrines suntuosas da Rua das Noivas, também indiciava uma culminância nada auspiciosa. Eu a notei e, naquele instante, me ocorreu um calafrio insólito. O semblante embaçado da minha irmã, com fagulhas quase imperceptíveis de cobiça crepitando no olhar fixo para aquele vestido de noiva.
“Que foi, My? Tá sentindo alguma coisa?”
Depois de uma breve hesitação, ela se virou pra mim com um sorriso forçado, dizendo que não era nada.
“Então, que me diz desse vestido? Aprovado, madrinha?”
Eu me incendiava de ansiedade, à espera do aval de Myioco. Afinal de contas, ela estudava Moda. Eu era… ah, eu fazia Letras. Minha mãe dizia numa crueza espontânea: “Mina estuda para atingir o fracasso profissional”. Já Myioco fazia jus ao que seu nome representava. Era considerada a sansei mais fashion do nosso clã. A mais linda também, embora fôssemos idênticas. Estilo é tudo, não? Quem era eu perto da irmãzinha desinibida, que sabia valorizar bem os seus atributos femininos; que sabia cantar e dançar, e esbanjava sensualidade a cada piscadela daqueles olhinhos puxados. Como competir com a incandescência de Myioco, que fazia amigos pra vida toda numa balada, que não sentia vergonha de um mísero centímetro do corpo e conquistava toda a atenção e carinho da nossa mãe?
Aos olhos de dona Arlete, eu era apenas a razão da morte do meu pai. Justo ele, o cara que sabia me amar como filha, não como promessa de nada. Que me levava para passear no Parque Olhos D’Água (Myioco odiava esse programa), e, quando refletíamos nossos olhares na superfície de um dos lagos, ele gostava de me dizer, num tom carregado de mistério, que em toda transparência podíamos enxergar o outro lado do mundo.
No dia que eu o flagrei com outro homem em seu próprio leito conjugal, não entendi direito o que se passava. Eu, ali, feito uma estátua, era só uma menina de doze anos que desconhecia os múltiplos significados de amor.
O silêncio se arrastou por alguns dias. Não havia diálogo, revelação, tampouco insinuação. Eu podia ouvir a angústia borbulhar por detrás dos óculos do meu pai. Um cidadão digno de respeito, um homem digno de pena. Esse homem nos deixou um poema em tom de confissão, cujo desfecho era a frase que ele costumava me dizer. A desonra diante da filha o levou a praticar o seppuku, ritual suicida bastante comum na cultura japonesa. Na solidão do seu quarto, meu pai sangrou por horas, com uma adaga transpassada em seu ventre.
Nunca soube ao certo o motivo que fez com que minha mãe me obrigasse a guardar como herança a adaga que ceifou a vida do meu pai. Se por ventura foi com a intenção de promover o meu martírio, não funcionou. A adaga se tornou meu refúgio desde o dia em que enxerguei o olhar do meu pai refletido em sua lâmina. Alucinação ou não, pouco importava. Eu a polia religiosamente. Sua transparência me fazia acreditar no outro lado do mundo; um mundo que acolhera o verdadeiro homem que fora meu pai.
Enquanto isso, dona Arlete se entregou a coquetéis de barbitúricos, uísque e pinturas abstratas. No estoque amargo do seu coração, só reservava afeto por Myioco. Era mais uma tentativa de me isolar no cárcere da culpa. Myioco, indiferente aos pesares da vida, me confortava com seu jeito peculiarmente cômodo.
Então conheci Bento, o professor de Latim.
Com seus trinta e poucos, barba mal feita e olhos felinos por detrás de óculos de aros remendados, Bento emanava uma dualidade pura e profana em seus trejeitos, suas pausas e cantadas; em sua língua ardente pronunciando uma língua morta. Tal qual fazia em suas aulas com o Latim, Bento deu luz à vida que residia nas entrelinhas da minha alma. O romance foi inevitável, e não tardou o pedido de casamento. Minha mãe o detestava. Já Myioco se entrosou rapidamente com ele. Ela se dizia fascinada com o senso de humor de Bento; ele se dizia espantado com a fonte inesgotável de jovialidade de Myioco. Às vezes, eu tinha a sensação de que era uns dez anos mais velha do que ela.
No dia que escolhi meu vestido de noiva com o auxílio de Myioco, senti como se uma rédea invisível dominasse minha euforia.
Já na data tão esperada, me orgulhei da minha pontualidade ao chegar à igreja. Estranhamente, Bento ainda não havia aparecido. Outra ausência notável era de Myioco, uma das madrinhas. Sentada no meio-fio da calçada com meu vestido indefectível, recebi a notícia de que Bento e Myioco haviam fugido. Juntos.
Ainda vestida para casar, fui à casa da minha mãe, me tranquei no quarto. Acho que alguém me seguiu. Contendo as lágrimas, escrevi um bilhete de despedida com uma única frase. Alguém esmurrava a porta. Apanhei a adaga e relanceei o olhar do meu pai. Caí de joelhos, a lâmina empunhada. O corte. A expressão imutável. O vermelho ganhando espaço na vastidão branca de uma esperança. A última dor lancinante. Num súbito milésimo, me esqueci de tudo. Era uma vez eu.

Contagem: 998 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Cumpriu bem a tarefa, considerando os elementos propostos. As personagens contrastantes e os elementos da rivalidade introduzidos no texto conduzem a um desfecho um tanto previsível. Mas saboreei a deliciosa escrita do conto: a expressividade da linguagem, a criatividade evidenciada em frases geniais como “rasgou meu diploma de exclusividade”, “Mina estuda para atingir o fracasso profissional”, “o vermelho ganhando espaço na vastidão branca de uma esperança” e muitas outras. Duas dúvidas: afinal a irmã gêmea se chama Miyoco ou Myioco?E quem obstruiu a passagem de quem, ao nascer? Não é quem nasce primeiro que pode obstruir passagem do segundo bebê?

Allan Vidigal

Bem escrito, com um final bastante previsível. Não chega a empolgar.
Alguns problemas com o uso de palavras. Por exemplo:
1) embora “bem quisto” não esteja erraado, “benquisto” é melhor.
2) ao contrário do que se dá no exemplo anterior, “por ventura” é diferente de “porventura”. Tem certeza de que quis usar a primeira forma?
3) o que, exatamente, é um vestido “indefectível”? Para mim, o adjetivo ficou completamente fora de lugar.
4) Em “Num súbito milésimo, me esqueci de tudo”, estamos falando de um milésimo de quê, exatamente? “Milésimo”, sozinho, não significa nada.

Ana Vilela

O texto é muito bem escrito e tem ótimas partes. Peca pela história, a fuga do noivo com outra etc., enredo já um tanto batido. Fora isso, parabéns pela evolução: texto limpo, bom narrador. A história tem tudo.

Betty Vidigal

O final é um pouco previsível. Mesmo assim, o conto é bom.
Como é falado pela personagem, eventuais pequenas escorregadas em regência podem não ser do autor, mas dela.

Celso Bächtold

“Por ventura”, como utilizado no texto, parece ter o significado de “por acaso”. Portanto, salvo outro juízo, deve ser “porventura”.
Excelente conto, apesar de possuir poucos diálogos.

Cinthia Kriemler

É um conto bem escrito. Com uma tendência, às vezes excessiva, para o drama — há algumas frases bem piegas. Contém todos os elementos do desafio. A história é criativa.
Atenção para:
* No dia em que
* porventura se escreve junto
* só reservava afeto para Myioco

Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)

Boa escolha do narrador e seu arco de vida e morte. Abertura e fechamento coesos. Mas, a adaga precisava estar em duas tragédias?

João Paulo Hergesel

“Putz!”, forma atenuada de uma expressão obscena, é uma interjeição que pode denotar, dentre outras coisas, surpresa. Essa foi a reação que tive com o conto: um grande e maravilhoso “Putz!”. Mas não foi qualquer “Putz!”; foi um “Putz!” que escapou do baço, depois de tanto se contorcer com as preciosidades linguísticas que recheiam o conjunto de palavras, e frases, e parágrafos. Foi um “Putz!” que poderia significar “Como assim um conto desses ainda não foi indicado ao Nobel?!”. Um “Putz!” embalado de coisas boas. “Mas, JP, e os clichês que aparecem aqui e ali?”, muitos podem questionar. Eu respondo: mesmo que algumas passagens do enredo, especialmente do desfecho, sejam previsíveis (como a traição da irmã e o suicídio de Mina), a composição imagética das ações engrandece a história. Foi um prazer descomunal apreciar essa obra literária.

Marco Antunes

“Também indiciava uma culminância nada auspiciosa”− Há expressões que parecem eloquentes (e até belas talvez) mas que terminam por serem vãs e pomposas desnecessariamente. Sempre que um trecho vago assim aparece, seu leitor vai estancar a leitura e tentar decodificar o quase enigma, nesse momento, o ritmo de leitura (tão caro ao conto) se perde irremediavelmente. “Vitrines suntuosas”, “culminância nada auspiciosa”, ”calafrio insólito”, “O semblante embaçado”, “fagulhas quase imperceptíveis”, “olhar fixo”, “sorriso forçado” – em um tão curto espaço, veja quantas adjetivações você empregou. Graciliano Ramos, mestre absoluto, sempre revisava seus escritos enxugando o máximo possível, geralmente retirando adjetivos. Como ele, dezenas de clássicos e bons autores modernos repudiam o adjetivo como um modo fácil de resolver a expressão, uma interferência permanente da opinião do autor no fluxo da narrativa. Meu conselho enfático é para que supere essa fase primária da escrita o quanto antes. A propósito, o advérbio e o gerúndio também devem ser evitados com rígida vigilância pois enfeiam o texto, assim aconselham os maiores mestres do estilo. “A desonra diante da filha o levou a praticar o seppuku, ritual suicida bastante comum na cultura japonesa” – Repare que o didatismo da explicação (que poderia estar no rodapé) atenta contra o ritmo e torna a narrativa subitamente gaiata. Evite didatismos assim! “Promover o meu martírio” – Procure sempre a palavra certa, “promover” não traduz bem a ideia nesse caso. Tenho defendido, desde o início dessa nossa jornada, que o conto é, antes de mais nada, dramático, tem vocação teatral, precisa, portanto de ação, de um narrador econômico (mesmo no conto de ação interior). Aqui se vê o exato oposto, o narrador toma tudo para si, não libera a ação direta, os diálogos são escassos. O entrecho é previsível e o credenciamento do grande móvel da trama (a traição) deu-se em apenas uma linha, portanto não convence.

Nálu Nogueira

Adorei o mote, o enredo, a história, mesmo sendo um tanto previsível. Há alguns atropelos na narrativa, penso que o(a) autor(a) pode – e deve – rever este conto sem o aperto do prazo e ajeitar essas passagens abruptas. Também a Rua das Noivas foi inserida, mas não foi retomada, foi apenas citada, como que para cumprirdesafio, o que lamentei, porque o início do conto suscita a imaginação, levando o leitor a imaginar que a ação será retomada naquele ponto, após as reminiscências da personagem principal. Pequenos detalhes que indicam que o conto precisa repousar para ser revisto e ajustado nesses pequenos deslizes. Em tempo: porventura se escreve junto.

Oswaldo Pullen

Muito bom. Gostei da utilização do elemento “adaga”, introduzida anteriormente a seu efetivo uso. Muito bom também o uso como abertura e fechamento da frase “Era uma vez eu” que, como vimos, adquiriu seu duplo sentido.

Paulo Fodra

Excelente conto, muito bem conduzido e com uma premissa original. Trabalho primoroso misturando elementos interessantes como a cultura japonesa, a poesia das imagens e a simetria na abertura e fechamento.

Roberto Klotz

Òtima abertura sugerindo conflito com a irmã obstrinndo a passagem e o pedido de socorro. O cenário – Rua das Noivas – poderia ter sido mais explorado- “in dubio pro reo.” Fortíssma frase: “Mina estuda para atingir o fracasso profissional”.Gostei da pesquisa, entretanto o Parque Olhos d’Água só tem um lago. Não perde a verossimilhança nem atrapalha o conto – mera observação.Em “no dia que o flagrei cabe um “em” que o flagrei. Eu desconhecia o termo seppuku, só o mais popular harakiri. Contei 9”seu/seus” e 6 “sua/suas”. Eu teria escrito o último parágrafo com apenas uma linha. Ainda bem que você desenvolveu o parágrafo conseguindo uma cena de arrepiar. E fechamento com frase inicial. Espetou a adaga. Parabéns.

Simone Pedersen

Gosto das imagens. Por exemplo: “Bento deu luz à vida que residia nas entrelinhas da minha alma” e “senti como se uma rédea invisível dominasse minha euforia”. O conto é muito bem escrito, envolvente, embora previsível a fuga com a irmã e o suicídio no final.

Wilson Pereira

Atende ao desafio proposto. Trama rica, bem tecida e bem articulada, com lances surpreendentes e um desfecho muito bem engendrado. Pleno domínio da técnica narrativa, com coesão e consistência semântica entre os fatos. A linguagem é rica, com metáforas e expressões de bom gosto. O conto atinge elevado nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,2
Allan Vidigal 8,0
Ana Vilela 9,5
Betty Vidigal  9,0
Celso Bächtold 9,6
Cinthia Kriemler  9,7
Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)  9,0
João Paulo Hergesel  10,0
Marco Antunes  7,5
Nálu Nogueira  9,0
Oswaldo Pullen  9,8
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz  9,9
Simone Pedersen 9,0
Wilson Pereira  9,5
Total  138,7