Doces bárbaros

Borboleta

Dois meninos europeus. Dois futuros líderes mundiais que ainda vão desabrochar. Os dois se encontram no Parque da Cidade, depois da aula, para pedalar. O ruivo sardento é inglês, filho de diplomata britânico. O lourinho é alemão, filho da embaixadora germânica no Brasil. Os dois compartilham em inglês segredos de Estado. Sabe o que meu pai me contou? Quer saber o que o presidente americano disse? Você sabia que o ministro jantou lá em casa ontem? Os segredos da política, os mistérios da diplomacia. Por que você não gosta do Brasil? O Brasil é um país esquisito, desorganizado. Por que você não gosta do Brasil? O Brasil é um lugar de corruptos, analfabetos. Por que você não gosta do Brasil? O Brasil é uma nação promíscua, atrasada. Branco casa com negro. Empregada dorme com patrão. Pobre frequenta casa de rico. Favela fica ao lado de mansão. Bob, o menino ruivo, não pensa assim. Acha tudo um barato. Está aqui há mais tempo. Há três anos estuda na Escola das Nações. Tem muitos amigos. Os brasileiros são alegres. Os professores são legais. Os colegas são divertidos. As meninas são bonitas, mesmo as morenas. Müller, o lourinho, chegou há poucos meses: é praticamente um turista. Não suporta essa gente. Por ele, estaria na Alemanha. Ou na Dinamarca, ou na Noruega, ou em qualquer país nórdico. Podia ser qualquer país, contanto que fosse da Europa. América? Só Estados Unidos. Na pior das hipóteses, Canadá. Perdeu o pai muito cedo. Chorou duas semanas quando soube que a mãe fora designada embaixadora no Brasil. O que fiz para merecer essa desgraça? Bateu o pé, ameaçou morar com a avó na Suíça ou com o padrinho na Itália. Não teve jeito. A mãe, irredutível. Acabou vindo. Mas não suporta a escola. Acha enfadonha e chata. Detesta os professores. Não conversa com colegas de sala. Amizade com latinos, africanos, brasileiros? Jamais! Quer distância desses bárbaros. O único amigo é Bob. Vê nele alguém afim, apesar da estranha atitude do garoto britânico em gostar desse país. Aprender português? Nem pensar. Recusa-se a falar esse idioma tupiniquim. Fica com raiva quando entende alguma coisa em português. Morre de tédio. Quando não está na escola, ou nas pedaladas com seu amiguinho, fica em casa. Ouve Bach, Beethoven, Mozart. Quando está deprimido, escuta Scorpions, Kraftwerk, Nina Hagen. Lê Goethe, Thomas Mann, Bertold Brecht. Tem ideias macabras. É obsessivo e compulsivo. Sente-se realizado quando faz pequenas maldades com alguém. Baixa a saia da cozinheira quando ela está distraída. Desencapa o fio do aparador de grama para o jardineiro levar choque. Coloca um bombinha no rabo do gato para vê-lo dar pinotes. Esconde a chave do carro para o motorista ficar em apuros. Na frente da mãe, um anjinho. Por trás, um capeta. Também gosta de inventar artefatos explosivos, na surdina, seu passatempo predileto. Vive estudando novos métodos de fabricar bombas. Depois de meia hora de bicicleta pararam para descansar no gramado em frente ao Relógio de Sol. Que diabos é isso? É um relógio que só marca as horas das cinco da manhã às sete da noite. Coisa estranha. Monumento esquisito. Como tudo nesta cidade… como tudo neste país! Bob encostou a bicicleta e foi ao banheiro, ali pertinho. Acho lindos esses azulejos de AthosBulcão. Meu pai disse que foi um dos maiores artistas brasileiros. Suas obras estão espalhadas pela cidade. Não vejo graça nenhuma. Quer saber? Tive uma ideia! Bob ficou preocupado. Já conhecia aquelas ideias sádicas do amigo. Porque ele odeia o Brasil. Ouviu calado. Vamos voltar aqui à noite? Pichamos aqueles azulejos do banheiro e este relógio. Melhor ainda: sei fazer uma bomba caseira. A gente explode este relógio. Não serve pra nada mesmo. Não sei não. Não é perigoso? E os guardas? Deve haver policiais aqui à noite. Que nada. Neste país tudo é abandonado. Polícia não faz ronda. Guardas dormem durante o plantão. Você diz pro seu pai que vai estudar lá em casa. Eu digo o mesmo pra minha mãe. A gente se encontra e vem pra cá. Eu trago as tintas e a bomba. Oito horas da noite. Poucas pessoas ainda circulam pelo Parque da Cidade, caminhando ou correndo nas proximidades do Relógio de Sol. Bob e Müller chegam a pé, carregando uma mochila cada um. Na mochila do menino ruivo, os frascos de tinta para pichar os azulejos. Na do lourinho, uma bomba de fabricação caseira. E algumas peças de azulejo. Para que isso? Resolvi inovar. Achei esses azulejos na garagem lá de casa. São parecidos com aqueles do artista brasileiro. Como é mesmo o nome dele? Vou colocar pedaços de azulejo na minha bomba. Vi isso num site na “dark-web”. O efeito vai ser devastador. Acho que o explosivo tem capacidade para destruir esse monumento de mau gosto. Porque ele odeia o Brasil. Os dois entram no espelho d’água que circula o Relógio de Sol. Quem passa nem desconfia. O lourinho instala a bomba. Amarra bem firme no pé do monumento. Puxa um pedaço do pavio para fora. Acende o pavio com o isqueiro. Certifica-se de que o fogo pegou. Em trinta segundos tudo irá pelo ares. Afastam-se correndo. Escondem-se atrás de uma árvore. Passam-se três minutos. Nada. A bomba falhou. O pavio deve ter-se rompido e apagado. O lourinho vai conferir. Aproxima-se. Mexe no pavio. Ouve-se uma explosão e veem-se as chamas. O menino ruivo sai correndo, parque adentro, deixando cair a mochila. Os poucos transeuntes se assustam com o estrondo e com o fogo. Alguém chama o Corpo de Bombeiros. Em dez minutos eles chegam. A base de concreto do relógio está preta de fumaça e parcialmente destruída. Foi um atentado terrorista? Ao lado do Relógio de Sol o corpo de um menino louro, 14 anos, rosto chamuscado, peito ensanguentado, dedo mutilado, sorriso sádico nos lábios. Junto ao corpo, cacos de azulejo. Azulejos pirata de AthosBulcão. Porque ele odeia o Brasil.

Contagem:  982 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

Abertura instigante com dois meninos futuros líderes mundiais. Gostoquando qualidades são mostradas em vez de informadas. O texto em parágrafo único afugenta leitores Credito o problema à desconfiguração na transmissão do documento. Não ficou verossímel o amigo Bob topar facilmente explodir o banheiro. Deveria ter credenciado Bob a topar coisa do tipo anteriormente, mostrando-se sempre conivente. Gostei muito do fechamento.

Ana Vilela

Pontos positivos: texto fluído, limpo. Bom de ler. Linguagem simples e bem colocada, narrador bem construído. Instiga. Apesar do tema comum, dá vontade de saber aonde o conto vai chegar, o que os dois meninos vão fazer. Mesmo com falas em sequência e sem aspas, não gera confusão na leitura.
Dica: aprimorar o começo e o fim.
Principais problemas: o conto não começa muito bem, apesar de pegar o leitor logo em seguida, e não termina bem. Pode ser desnecessária parte deste parágrafo, por exemplo: “O menino ruivo sai correndo, parque adentro, deixando cair a mochila. Os poucos transeuntes se assustam com o estrondo e com o fogo. Alguém chama o Corpo de Bombeiros. Em dez minutos eles chegam. A base de concreto do relógio está preta de fumaça e parcialmente destruída. Foi um atentado terrorista? Ao lado do Relógio de Sol o corpo de um menino louro, 14 anos, rosto chamuscado, peito ensanguentado, dedo mutilado, sorriso sádico nos lábios. Junto ao corpo, cacos de azulejo. Azulejos pirata de Athos Bulcão. Porque ele odeia o Brasil”. Seria interessante limpar um pouco o trecho, criar um fim mais forte e direto.
No começo, “que ainda vão desabrochar” é desnecessário.
Repetição desnecessária de “Porque ele odeia o Brasil”, pois desde o início já compreendemos que o menino loiro odeia o Brasil. Muitas vezes é mais interessante dizer sem dizer, apenas mostrar. O leitor deduz.

Betty Vidigal

Pode ser que algum garoto alemão seja como esse. Claro que “um” alemão não simboliza todos os alemães. Mas os alemães que conheço não são assim. O loirinho preconceituso e sádico não me convenceu como personagem. Do que vejo, alemães não são preconceituosos no que se refere a etnias e quantidade de melanina na pele. Menos do que os estadunidenses. Mas é uma estória bem escrita, apesar de não ser convincente. E essa coisa dos meninos conversando sobre segredos de estado foi muito bem sacada.

João Paulo Hergessel

Tenho uma queda por contos que trazem abordagens juvenis e posso garantir que me entreguei à leitura deste. Encontrei em Bob e em Müller personalidades com que convivo no dia a dia; eles são personagens bem construídos. As retomadas de algumas frases ao longo do texto reforçam a memória afetiva e o sentimento do garoto alemão. Desacreditei que o autor teria coragem de matar um deles no final, mas essa estretégia, unida à simbologia do azulejo pirata, funcionou muito bem. É um conto registrado em grande estilo; não tenho comentários contrários.

Oswaldo Pullen

Conto interessante, com um estudo do personagem Müller profundo, e no entanto, em alguns momentos, inverossímel. O tratamento do motivo sugerido é diferenciado, o que agrada.

Nota

 

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 9,0
Ana Vilela 9,0
Betty Vidigal 9,0
João Paulo Hergessel 10,0
Oswaldo Pullen 9,2