Dona Benedita

Tamires Nur

Wilson estava como sentinela na unidade militar em frente à Praça dos Cristais, no Setor Militar Urbano. Um lugar lindo para turistas. Nessa função, limitava-se a observar o movimento dos visitantes: gente vinda de fora, casais de namorados, noivas fotografadas para o grande dia. Quase sem mobilidade, passou a observador impecável. Sabia de tudo o que acontecia nas imediações do local onde servia, mais afastado. Um dia, percebeu-se marcando uma pessoa: Benedita. Era uma frequentadora assídua, junto com o parceiro.
— Meu amor, vamos visitar aquelas pedras, olhe só a ideia do artista. Gênio!
— Prefiro este bloco: não acha maior a semelhança com um cristal?
Lá pelas tantas depois de alguma conversa, pipoca e um lanchinho leve, ela sugeria, entre dengosa e matreira:
— Ora, vamos ao toalete, acompanhe-me… e seguia rapidinho. Ele, atrás. Corridinhas e brincadeiras tipo pique–esconde até vencerem o gramado em todo o seu tamanho. E por lá, bem atrás de alguma moita — dava para ver o alvoroço — ficavam, por um bom tempo, no exercício da paixão.
—E isso foi uma, foram duas, três vezes na mesma semana, o soldado contava ao colega.
— E era Benedita, a mulher do seu Gervásio, meu vizinho. E se fazia de rica, cabelo todo arrumado. Foi depois desse mascate. Às vezes ele abria a bolsa de panos finos e dava a ela um presente.
— E venda assim ainda existe?!
— Só em lugar pequeno, não é?
— Mas o marido não percebe a mulher andando feito madame?
— Nada, acha a mulher uma santa, vai à igreja, isso chega.
— Ela não trabalha?
— Sim, é funcionária, está sempre com um crachá, mostrando que está em serviço. Meu vizinho é um homem bom, preciso alertá-lo.
— Ele não vai acreditar (risos).
Passaram-se dias, semanas, até aparecer de novo a Benedita com seu amante. Mostrava mais segurança.
— Amor, como você demorou a voltar!
— Vivo viajando, meu bem, mas você sabe que sou seu!
— Tive saudades. Sabe, no meu trabalho, minhas amigas aprovaram meu namoro. Falei dos seus tecidos, do corte de seda ganho.
— Pois é, e vai ter muito mais. Você trouxe o dinheiro do empréstimo? Passo o cheque, disse-lhe, acariciando seu braço, sua mão.
— Não pude. Meu marido chegou na hora em que eu o colocava na bolsa. Disse para botar na minha poupança, disfarcei.
O rapaz não pôde deixar de mostrar sua chateação, fechando a cara e afastando-se da moça. Foi quando ela cobrou:
— Você precisa me perdoar. E eu, não valho nada? Vim até aqui para lhe ver! Venha, vamos ao toalete. Ao mexer-lhe os cabelos, foi recobrando o ânimo. Saiu faceira, dando corridinhas. E ele, atrás.
Wilson avistou-os quando se aproximaram. E disse para si:
— Olhe os dois de novo. Dessa vez, foram direto para o banheiro.
Faziam assim, ao querer mais sossego no encontro amoroso. O movimento era pouco naquele lugar. Assim mesmo, tomavam cuidado. Depois de um tempo, saíram ajeitando as roupas, quando ouviram uma voz forte:
— Pare, você está preso!
— Como? Reagiu o rapaz, tentando se esquivar. O policial deteve-o. Segurou-lhes os braços, colocou-lhe algemas e o empurrou para dentro do camburão. Benedita, com os olhos arregalados, estava apavorada. Ele pensava nos cheques sem fundo. A moça demorou um tempo até dar por si e sair numa corrida desabalada pelo gramado. Vinha na direção de Wilson, quando esbarrou num arbusto. Um galho arrancou-lhe o crachá e o objeto voou, como no cinema.
—Dona Benedita, gritou a sentinela. Ela esbugalhou os olhos, reconhecendo-o. E correu noutra direção. Desapareceu.
O soldado agora tinha a prova da identidade da mulher. Com ela chegaria ao vizinho. Pegou o crachá do chão e leu: Beatriz Regian…, Ministério…(letras ilegíveis). De posse dessa nulidade, teve um frio na barriga e disse baixo:
— Seu eu contar para o seu Gervásio, ele não vai me acreditar… Espertalhona!

Contagem: 616 palavras

Comentários

Allan Vidigal

A história parece que vai chegar a algum lugar e não chega a lugar nenhum. Os diálogos soam um pouco artificiais (diálogo é difícil, mesmo; sugestão: leia em voz alta para ver se soa convicente).
O sentinela parece ser uma personagem mais interessante do que a Benedita e o mascate, talvez devesse ser mais bem explorado.
Não está ruim, mas também não tem nada que chame a atenção.

Cinthia Kriemler

Cumpriu o desafio, mas eu esperei mais desse conto quando comecei a ler. O final, para mim, ficou meio perdido, fraco. Mas o conto está dentro do que foi solicitado.

Marco Antunes

Eles trouxeram a pipoca? Lá não existe ninguém vendendo. Informe-se! “corrida desabalada” – Clichê! Evite isso. Revise seu texto.
O entrecho é pobre, plausível, mas pobre, as ações são pueris e o sentido do conto para em si mesmo, nada se retira de mais profundo ou interessante. O estilo é pobre ou inexistente. O conto só tem um mérito: deixa o leitor ver a ação.

Nálu Nogueira

Achei o início super promissor, fui lendo com interesse… Mas da prisão não explicada em diante, o conto desandou. Talvez o limite de palavras, talvez a faca afiada do prazo, o fato é que a coisa começou a ficar corrida e mal explicada. Não entendi o final. Não entendi porque precisava do crachá da mulher para alertar o marido. Não entendi porque decidiu que o marido não ia acreditar. As letras apagadas? Mas crachá não tem foto? Adorei a cena do crachá voando e decerto não há dúvida sobre a habilidade do(a) autor(a), mas o resultado geral ficou aquém das (minhas) expectativas.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio proposto. Está bem estruturado, com sequência narrativa bem articulada. No entanto, o enredo é pobre, beirando ao lugar-comum. A linguagem não alcança um nível literário digno de ser premiado.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 8,0
Cinthia Kriemler 9,0
Marco Antunes  7,0
Nálu Nogueira 8,0
Wilson Pereira  7,8
Total 39,8