Duraleques

Rosa

Depois de revisar o projeto de lei Dura Lex, obra mais importante da minha vida, pensei no trajeto desde Madalena, nos primeiros anos junto de tio Capitão, os mais intensos, quem sabe os mais longos, e continuei sem entender se tomei a decisão correta ou se poderia, de alguma maneira, ter mudado o destino de meu tio. Ele pretendia, tão logo juntasse dinheiro, trazer a família pra Brasília, na verdade havia insistido para que viessem já no primeiro caminhão, mas só conseguiu convencer a mim. Quando a cartomante fez a previsão, ele teve certeza que não retornaria. “Duraleques”, disse ao chegar da primeira consulta, fato que passou a acontecer toda semana, ia pra lá boa parte do seu ordenado, mas ele acreditava precisar daquilo, não gastava na Rua Comprida com jogo ou com cachaça ou com cabrocha, dizia, então podia gastar com a cartomante. Na verdade, tio Capitão sentia saudade de Madalena, “Lá é nosso chão”, falava quando era difícil engolir o baião de dois que não tinha o mesmo gosto que o do Ceará, “Não tem mesmo”, reforçava.
Haviam providenciado casa pra todos. Para a época, e pra quem vinha de Madalena, era uma boa casa, de madeira e tudo, o problema era o clima “Essa secura”, dizia tio Capitão “Nem no sertão tem tanta secura”, afirmava quando não conseguia dormir, mas eu achava que ele não dormia por sentir falta da tia Zulmira, do Zezo, do Jimjim e da Miúcha. Havia pendurado na parede, ao lado da cama, uma fotografia do casamento com a tia, um chapéu de couro e uma sandália de sola dura, ele achava melhor pendurar tudo em pregos do que deixar no chão ou sobre a mobília.
Agora, com a cidade feita, vejo gente em lanchas lá no Paranoá trazendo louça, tijolo, cinto, tudo retirado de dentro do lago. Sempre tentei convencê-los “Isso pertence ao lago”. Mas não dá certo um sujeito nanico e de sotaque mandar dono de lancha que mergulha lá no fundo devolver as coisas pra água. Nunca adiantará falar, pensei.
Quando a cartomante disse que tio Capitão seria famoso, chegou cantando. “Tá feliz hoje, tio”, e ele respondeu “Duraleques”. Sempre falava duraleques com diferentes entonações, cada uma com significado distinto. Só depois fui descobrir o sentido daquilo. Ele aprendera essa palavra aqui em Brasília, com um mestre de obras. Tio Capitão era inteligente e cumpridor, eu deveria obedecer e aprender com ele, foi o que me disseram ao sair de Madalena, mas também ouvi tia Zulmira “Cuida do Tio, cuida”, por isso quando disseram lá no Vinte e Oito que era pra gente sair da Vila Amaury, cheguei em casa e contei “Semana que vem”, eu disse “Tem que sair todo mundo daqui”. Naquela noite, não vi tio Capitão adormecer. No escuro, eu escutava o barulho de seus dedos passando por sobre o chapéu. Ele andou pensativo naqueles dias. Duas noites depois, percebi a foto dentro de um porta-retratos. Não faço ideia de onde ele arranjou aquilo. Mas ficou bonita sua foto de casamento. Por isso, toda vez que vejo um mergulhador com roupa de borracha e cilindro sair do Paranoá, sinto desgosto.
“Pra ser projeto de lei, precisa respaldo”, explicou meu assessor. Então pesquisei no IPHAN, era mais viável através do instituto, descobri. E o projeto Dura Lex passou a sugerir que o Lago Paranoá fosse considerado Sítio Arqueológico e Bem Patrimonial da União. “Agora sim, Deputado”, disse ele. Queria ter falado duraleques quando meu assessor disse “Tem chance”, mas não falei, fiquei apenas lembrando tio Capitão. Certa vez, ele disse “Duraleques” numa entonação desconhecida até então. Era uma entonação de afago, de decisão tomada e que eu deveria anuir. Por ele, explicou-me, moraria pra sempre na Amaury “Traria Zulmira, Zezo, Jimjim e Miúcha” falava quase suspirando “Pensa que bom”, disse tio Capitão. “Duraleques”, respondi imitando seu arrocho já pensando que no dia seguinte começaria a inundação. Fui guardar minhas coisas, uma escova de dente, uma camisa de domingo, uma sandália, uma calça jeans e um pente, acomodei na minha mochila, enquanto o via deitado, observando a parede de madeira. Achei que ele juntasse os pertences no dia seguinte, como fariam todos na Vila Amaury. Mas, na manhã seguinte, não o encontrei. Talvez se o tivesse visto ou ficado mais tempo com ele teria percebido o que pensava e talvez planejado alguma reação.
A imagem que mais lembro é da primeira vez em que ele chegou da cartomante “A história agora é aqui”. Sempre achei que o aqui de Tio Capitão e da cartomante fosse o mesmo que o meu. Por isso, quando ouvia “Ficarei aqui pra sempre”, acreditava que ele permaneceria em Brasília. Mas não era de Brasília que tio Capitão falava. Ele se referia à Vila Amaury, daqueles metros quadrados empilhados de gente e tábua e gente e tábua e sonhos. “Duraleques”, falou quando estava na hora de ir, enquanto o caminhão passava já carregado de gente, de mala e de tudo que é coisa, “Caminhão”, ouvia-se por todo lado “Caminhão”, gritavam em sotaque cearense e sertanejo e sotaque do norte e também baiano, cada um procurando um lugar na carroceria. “Vamo, tio”, eu disse “Tá na hora”, mas ele havia preparado tudo, era um sujeito inteligente e cumpridor o Tio Capitão, não brincava com a história nem com o dinheiro investido nos conselhos da cartomante. Sinalizou para os fundos, onde havia algumas tábuas soltas. “Vai pro caminhão”, falou, e também me mandou avisar os fiscais que não havia mais ninguém na casa. Então, em meio à surpresa, sem palavras para contrariar, com uma mão ocupada da mochila e a outra duma sacola com os restos de comida, fiquei também sem braços para dar-lhe um abraço. E, a dois passos de tio Capitão, com o caminhão quase partindo, olhei para suas mãos intrêmulas pela última vez, carregavam o porta-retratos. Na sua cabeça, estava o chapéu de couro. “Duraleques”, eu disse, percebendo, por baixo de sua pele seca, que era aquilo que ele queria, aquele era seu lugar.

Contagem: 1000 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

O conto cumpre os elementos do desafio, mas senti falta de crescimento e de revisão no texto. Acredito que com mais tempo poderia ser aprimorado. Há no conto uma frase que me tocou em especial: “(…) daqueles metros quadrados empilhados de gente e tábua e gente e tábua e sonhos.”.

Alexandre Lobão

O texto está bem escrito, infringindo de forma coerente e consistente as regras de “boa redação” para divisão de parágrafos, frases e organização do texto em geral, mostrando que isso foi uma escolha consciente do – e muito bem trabalhada pelo – autor. Ainda que o texto esteja bem interessante e bonito, há algumas oportunidades de melhoria.
A parte emocional da ligação entre os personagens poderia ser mais trabalhada.
Não ficou claro o que “Dura Lex” significava tanto para o tio Capitão, que fazia questão de repetir a expressão o tempo todo.
Na primeira parte do texto foram dedicadas muitas linhas para o personagem “tio Capitão”, de forma que o texto principal, em primeira pessoa, passou para terceira pessoa por tempo demais, gerando uma sensação de estranheza. Acredito que se as mesmas informações fossem inseridas no correr do texto, à medida em que as lembranças se desenrolassem, ficaria menos confuso para o leitor.
Detalhe: Acho que faltou um “que” em “olhei para suas mãos intrêmulas pela última vez, carregavam o porta-retratos”

Allan Vidigal

Muito bom. Tem uma ou outra coisinha que me pareceu meio inconsistente (por exemplo, uma vez deputado, “sujeito nanico e de sotaque” muito provavelmente não teria melindres ao falar com “dono de lancha”; e “dono de lancha” muito provavelmente escutaria).
Também tem, aqui e ali, palavras ou expressões mais rebuscadas que eu preferiria ter visto mais simples; mas é questão de gosto e de estilo, não dá para dizer que esteja errado ou que seja ruim.
O parágrafo final – pela construção, pelo ritmo, pela poética, pela melodia – é exemplar.

Ana Vilela

Como de costume, começa muito bem. O conto pega o leitor já de início: o que houve com o Tio Capitão? Três histórias em uma praticamente: passado remoto, passado e presente. Você costura muito bem as histórias. Mas é bem difícil construir textos assim. Requer muito cuidado e há algumas falhas.
Alguns pontos: “Mas ficou bonita sua foto de casamento. Por isso, toda vez que vejo um mergulhador com roupa de borracha e cilindro sair do Paranoá, sinto desgosto.”
Não há uma conexão de fato neste ponto. O que liga achar a foto bonita com toda vez que o personagem vê um mergulhador com roupa de borracha? Esta informação está na cabeça do escritor apenas. Se analisarmos, é possível chegar ao fato de que alguém pode tirar do fundo do lago o porta-retrato, se ele ainda existir. E isso é quase como que tirar Capitão de lá. Mas essa informação não está no texto, não há ligação textual. Assim, fica uma quebra estranha, desconexa.
Outro ponto: “Talvez se o tivesse visto ou ficado mais tempo com ele teria percebido o que pensava e talvez planejado alguma reação. A imagem que mais lembro é da primeira vez em que ele chegou da cartomante ‘A história agora é aqui’.”
Aqui há uma passagem brusca de uma cena para a imagem da qual a personagem se lembra. Não está bem concatenado.

Betty Vidigal

O final é bonito. Improvável, mas bonito. Na real ninguém iria deixar uma pessoa ali, para ser coberta pelas águas.
O corpo da estória, no entanto, é cansativo.

Celso Bächtold

Alguns parágrafos e frases muito extensos dificultam a leitura e o entendimento do texto. Confesso que tive de retornar algumas vezes e reler alguns deles, mais de uma vez.
Achei interessante e criativo utilizar uma palavra com diversas entonações, cada uma dando um significado diferente.

Cinthia Kriemler

Como sempre, sua história é bonita e triste. Mas, desta vez, teve pitadas de bom-humor. Algumas vezes, a gente perde um pouco o fio da meada nas suas frases muito longas. Uma dessas frases tem cinco linhas e meia. Mesmo sendo o seu estilo, é muito longa. Para mim, atrapalha a leitura. Por outro lado, esse “Duraleques” foi um achado. Impagável! Imaginei o tio dizendo isso em vários tons. E ri em algumas dessas vezes (menos na vez final). A sua escolha de nomes de personagem também é muito boa: Zezo e Jimjim me encantaram. Desafio cumprido. Você foi um caso de melhora visível a cada semana.

João Paulo Hergesel

Outra obra de arte nascida da mente de “Rosa”. Não me canso de ler e de prestigiar os contos dessa autora (ou seria desse autor?). Enfim, o texto é tão bem construído que quase nos leva às lágrimas com a decisão do Tio Capitão de autodecretar seu fim junto ao da Vila Amaury. O título, também, é igualmente muito bem escolhido. Não há o que criticar. É tudo muito perfeito.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. O velho e desanimador problema do narrador que conta tudo e jamais abre espaço para a ação. Depois do último conto excelente da última semana, achei que a ficha tinha caído e o autor produziria mais textos com forte conflito e carga dramática. Vejo consternado que não, infelizmente, então, só me resta deixar um conselho do mestre Massaud Moisés: “À linguagem do conto cabe ressaltar a ação, antes da intenção. Por seu estofo eminentemente dramático, deve ser, tanto quanto possível, dialogado. Sem diálogo não há discórdia, desavença ou malentendido; sem isso não há conflito, nem ação. As palavras como signos de sentimentos, ideias, pensamentos, emoções, podem construir ou destruir. Sem diálogo torna-se impossível qualquer forma completa de comunicação.”.

Nálu Nogueira

Achei tão bonito, tão bonito… Algumas passagens considerei um pouquinho só confusas, por isso o desconto na nota final.

Oswaldo Pullen

O conto possui, aqui e ali, alguns senões. Isto não retira as qualidades de um conto lírico, realizado quase de um só fôlego, em seu estilo de fluxo de pensamento.

Paulo Fodra

Ao contrário do conto da provocação anterior, o fluxo de consciência aqui soa forçado. Faltou polimento narrativo. Da forma como foi entregue, o conto poderia ter se beneficiado mais da clareza de um formato mais tradicional. O bordão “duraleques” tem a sua força e o seu valor na história mas, por sua vez, o projeto de lei, foi relegado a um papel de mero e desinteressante “macguffin”.

Roberto Klotz

Às favas a calça jeans que não existia no Brasil em 1960. Logo de início, quando desenvolvi o Desafio com a ideia de cenários brasilienses pensei na desconhecida Vila Amaury. Meu desejo era que algum escritor criasse uma história com personagem que vivesse sob as águas ou que decidisse, por amor, ficar sob as águas do Paranoá. A sua história é densa, quase não há ar para o leitor respirar, assim como para o Capitão que submerge. Em condições normais a sua nota seria ótima, não a máxima. Entretanto, ao ser o último conto para análise no Desafio, e justamente, nele, o derradeiro, ler uma história triste, densa, convincente e ter atendida a minha expectativa me fez chorar compulsivamente.

Simone Pedersen

Talvez introduzir as falas em forma de diálogo, deixe o texto mais leve. O fluxo de consciência que você liberta, é denso e repetitivo. A história, todavia, é triste, tocante e bonita. Gostei muito.
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, já que nenhuma produção artística é linear; é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto atende parcialmente ao desafio. O Congresso Nacional não entra no enredo.
A trama está bem sequenciada e os fatos, bem articulados. Há coesão e consistência narrativa. No entanto não há uma trama empolgante. O desfecho é interessante. O conto alcança um razoável nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  7,7
Alexandre Lobão 9,0
Allan Vidigal 10,0
Ana Vilela  9,8
Betty Vidigal  8,5
Celso Bächtold  9,3
Cinthia Kriemler  9,7
João Paulo Hergesel  10,0
Marco Antunes  8,0
Nálu Nogueira  9,7
Oswaldo Pullen  9,8
Paulo Fodra  8,5
Roberto Klotz  10,0
Simone Pedersen  10,0
Wilson Pereira 7,9
Total 137,9