Encontro marcado

Pontiac

Sargento do Exército, Figueiredo, desde que veio para Brasília, há cinco meses, acorda cedo e, antes de iniciar o expediente no Esquadrão de Cavalaria, onde serve, costuma correr em torno do Setor Militar Urbano. Como mora no próprio quartel, sai antes de tomar café, correndo por cerca de uma hora.
Naquele dia, ao passar pela Praça dos Cristais, viu uma mulher que chamou sua atenção. Era um fenômeno. Um mulherão, estilo dondoca, corpo escultural, alta, loura, cabelos compridos, fazendo cooper. Caminhava a passos largos, fone de ouvido na cabeça. Usava tênis e roupas esportivas coladas ao corpo, que realçavam suas protuberantes nádegas, quadris e busto. Figueiredo ficou extasiado. Cruzou com ela, correndo, mas não sem antes apreciar aquele monumento. Nesse dia, aumentou o percurso, voltando ao ponto de partida só para passar de novo por ela. Figueiredo imaginou que podia ser esposa de algum militar, porque nas proximidades está a Vila Militar de Oficiais. Pensando nisso, resolveu seguir seu caminho.
Durante o dia, porém, não conseguia tirar a imagem daquela mulher do pensamento. Ao término do expediente, voltou à Praça dos Cristais, imaginando que talvez ela fizesse outra caminhada vespertina, mas foi em vão. No outro dia, resolveu sair mais cedo. Além disso mudou o itinerário. Restringiu seu percurso à Avenida Central do SMU e às vias laterais que dão acesso à Praça dos Cristais, para passar várias vezes no lugar em que vira sua musa. Completou a corrida, mas não a encontrou. Resolveu ficar parado na Praça dos Cristais esperando que ela aparecesse. Quando já pensava em desistir, por causa do horário, eis que surge a sua deusa, ofegante, olhar indiferente, fone de ouvido, concentrada em suas largas passadas.
O sargento resolveu arriscar: quando ela ia passando, ele lhe dirigiu um “Bom Dia”, encarando-a de frente. Para sua surpresa, ela sorriu e respondeu “Bom Dia”. Figueiredo ficou inflado e grosso. Ela correspondera simpaticamente ao cumprimento dele. Fingiu estar aquecendo-se e resolveu acompanhar a mulher, caminhando na mesma direção. Ela percebeu sua intenção e reduziu a passada até que ele se aproximasse.
— Posso acompanhá-la na caminhada?
— É claro, mas já estou quase terminando meu percurso, respondeu ela.
— Meu nome é Helena, apresentou-se, estendendo-lhe a mão e um sorriso. — E o seu?
— Figueiredo, apressou-se em responder. — Na verdade, Eduardo, nome de guerra Figueiredo.
Caminharam juntos por mais um quilômetro, trocando algumas palavras, até que chegaram ao estacionamento do Hotel de Trânsito dos Oficiais. Ela disse:
— Meu carro está aqui. Preciso ir. E você?
— Eu? Eu sirvo no Esquadrão ali em frente. Já estou em casa. Obrigado.
— Está bem. Amanhã é sábado, só volto a caminhar na segunda-feira. Nos encontramos na segunda?
— Certamente, respondeu ele. — Mas no fim de semana não podemos nos ver?
— Eduardo, sou casada. No fim de semana só saio com a família. No domingo assisto à missa no Oratório do Soldado, mas geralmente meu marido vai comigo. Você costuma ir à missa?
Isso era mais que um convite. Figueiredo não via a hora de chegar o domingo. Decidiu que, ainda que ela estivesse acompanhada, pelo menos daria um jeito de pedir o número do seu telefone, pois estava desesperado de vontade de vê-la outra vez. Ele, que não era contumaz em frequentar igreja, praticamente amanheceu na porta do Oratório do Soldado, no domingo.
A missa já ia começar quando ela chegou acompanhada de um homem de meia idade, calvo, barba grisalha. Figueiredo ficou confuso. Seria capaz de jurar que ela era esposa de oficial, mas o cara era barbudo: não podia ser militar. Ele sentou-se perto do casal e, de vez em quando, lançava um olhar para Helena. Ela permanecia impassível, como se não o tivesse percebido. Num determinado momento, o marido sai da igreja, para atender a uma ligação. Helena olha discretamente para Figueiredo. O marido volta poucos minutos depois, cochicha alguma coisa no ouvido dela, dá um leve beijo no seu rosto e sai. Figueiredo ameaça aproximar-se, mas ela lhe faz sinal que não.
Acaba a missa. Ele é o primeiro a sair. Ela sai em seguida. Aproxima-se dele e diz:
— Espere-me na Praça dos Cristais.
Em poucos minutos, ela chega de carro. Faz sinal para ele entrar, dizendo:
— Meu marido foi buscar um amigo no aeroporto. De lá vão a um churrasco no clube. Vamos sair daqui.
Assim que Figueiredo entra no carro, Helena se agarra ao pescoço dele, beijando-o ali mesmo. Ele, ainda meio assustado, corresponde. Passam o dia inteiro juntos.
No dia seguinte, Figueiredo está de serviço: não pode fazer a corrida matinal, mas seu pensamento não sai de Helena. O domingo na companhia dela deixou marcas em seu coração. O sargento procura seu crachá e não encontra. Vasculha armários, bolsos e nada. Lembra-se de que estava com o crachá no bolso quando foi à missa. Nesse momento entra um soldado no alojamento dos sargentos.
— Sargento Figueiredo, o major quer falar com o senhor agora.
Figueiredo entra no gabinete do major.
— Pois não, comandante?
— Sargento, o coronel Tobias, chefe de pessoal do QG do Exército, acabou de ligar. Pede sua presença agora em seu gabinete. O que você andou aprontando, sargento?
Figueiredo saiu preocupado. O que poderia querer esse tal coronel Tobias com ele? Seria por acaso o marido de Helena? Teria ele descoberto tudo? Figueiredo entra no QG do Exército esbaforido. Rezou fervorosamente durante todo o trajeto. Depois de passar pela guarda, pelo chefe de gabinete e pelo ajudante de ordens, chega à sala do coronel Tobias. Pede permissão para entrar, bate continência e se apresenta. Lá dentro, Helena, uniformizada, sorri para ele.
— Entre, sargento. Eu sou a coronel Tobias. Você esqueceu o crachá no meu carro ontem. Como não foi caminhar hoje, resolvi convocá-lo ao meu gabinete.

Contagem: 946 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto leve, elaborado com coerência e um toque de humor. Gostei da caracterização dos personagens, em particular a coerência entre a hierarquia militar e a iniciativa da coronel Tobias. Ponto para o inesperado final.

Celso Bächtold

Os postos militares quando ocupados por mulheres, carregam consigo o artigo definido do gênero original. Assim, o correto seria: “Sargento, a coronel Tobias …”. Assim, ele já saberia que se tratava de uma mulher, o que diminuiria em parte a sua surpresa.
A meu ver, a frase “Figueiredo ficou inflado e grosso” ficou um pouco desconexa do restante do texto por ser um pouco vulgar e parecer pertencer a um conto erótico, que não é esse o caso. Talvez dizer que se sentiu entumecido ou atraído por ela fosse uma forma mais amena de dizer a mesma coisa.
No mais, o conto está muito bom, com um enredo coerente e atendendo ao solicitado neste desafio.

Paulo Fodra

Conto com cara de anedota. Inicia meio sonolento e burocrático, com frases desnecessariamente longas e cheias de vírgulas. Depois ganha um ritmo mais cadenciado ao longo da trama. A sacada da dondoca ser a coronel é bem bacana, mas não funcionou bem sozinha como fechamento para o conto. O final ficou abrupto demais e merecia ser mais bem trabalhado.

Roberto Klotz

Bom conto. O estilo “revista de fotonovela” vende bem, tem muitos adeptos, mas não é o meu favorito. Está repleto de clichês e ideias clichê: “corpo escultural, alta, loura, cabelos compridos”; “sua deusa, ofegante, olhar indiferente”; “Assim que entra no carro, se agarra ao pescoço dele, beijando-o ali mesmo.”. A ambientação foi perfeita. Atendeu à provocação com um final surpreendente.

Simone Pedersen

Os elementos do desafio foram atendidos. A história não me abalou, e uma boa história tem que abalar, seja pela dor, pelo humor ou pela surpresa. Está bem escrito e tem uma pequena surpresa no final. Não indicaria para um amigo ler.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,7
Celso Bächtold  8,6
Paulo Fodra  8,5
Roberto Klotz  8,5
Simone Pedersen 7,5
Total 41,8