Encontro na Praça dos Cristais

Ivan Martins

Um pouco desajeitada, andando em saltos altos, ela vinha. Ele, sentado sob a sombra de uma árvore, apenas a olhava, impassível. Assistira a SUV novinha dela dar várias voltas na praça, como se o procurasse ou talvez como se quisesse ter certeza de que não estava sendo seguida. Viu quando ela estacionou o carro atravessado numa área imprópria e desceu vacilante. Agia como um cervo que sabe que é espreitado por um predador. E estava certa. Os óculos escuros com o lenço e o enorme chapéu foram o que faltava para ele ter certeza. Quem combina um encontro para conversar na Praça dos Cristais?
Desde o começo desconfiara. Tentou por muito tempo encontrar uma forma de falar com ela na academia, mas ela nunca dava muita bola. Agia com frieza, e de certa forma o ignorava. Tentou por várias vezes e nada, até que certo dia ela tomou a esteira ao lado da que ele corria, e foi tão fácil. Só conversou com ela, que se mostrou interessada nele. Dali em diante sempre conversavam na academia, e ela cada vez mais amigável. Até ontem, quando ela o chamou para conversar, tomar um café. E sugeriu que se encontrassem na Praça dos Cristais.
Ele já vivera o suficiente para saber que havia algo estranho. Afinal, lá se foram dois casamentos com filhos e muita confusão, e trinta anos em diversos cargos no serviço público. Desde jovem, ainda militar, tivera facilidade com mulheres. Sabia falar com elas, era extrovertido. Tudo se tornou mais fácil com os cargos melhores, é verdade. Fácil até demais. Suas ex-mulheres que o digam. Agora estava solteiro de novo, então não havia problema. Podia aproveitar a vida e curtir suas e belezas. E que beleza. Olha que corpão, mermão. Problema é do corno.
Ela caminhava incerta e pensava no porquê de não haver vagas de estacionamento mais perto. Seu salto alto a incomodava se andasse demais. Mas com certeza a deixava linda. Irresistível era a palavra que mais gostava de pensar. Por algum motivo a confortava. Dieta e academia a ajudavam a manter o poder que ela sabia que tinha e gostava muito de ter. Seu marido continuava a responder a ele, mas por alguma razão ele parecia se excitar mais com a ideia dela sendo desejada por todos do que pelo seu desejo por ela. Isso a incomodava muito. Por mais de uma vez ela sofreu assédios em sua presença sem que agisse. Ele a satisfazia de todas as maneiras possíveis para uma mulher, isso era verdade, menos sendo um homem no sentido estrito.
Tentou evitar por algum tempo após o casamento e nascimento de seu filho. O primeiro foi um rapaz da academia, seu lugar preferido para escolher. Mas ele a ensinou que não poderia ser com qualquer um. Ela queria que fossem bonitos, atléticos, bem apessoados. Mas o rapaz revelou não ter o mesmo nível dela, o que não a agradou. Ela travou. Não foi bom. Então começou a selecionar melhor. Mudou-se para uma academia mais afastada e maior, além de um pouco mais cara, para aumentar seu leque de possibilidades. Não desatinava de outras oportunidades do dia-a-dia, porém, e apenas se tivesse a certeza de que seria algo excepcional, poderia até diminuir seu padrão por uma boa rapidinha.
Se interessara pouco pelo Celso no começo. Ele está muito bem, mas sabia que tinha esposa e ficava com raiva em pegá-lo olhando para sua bunda toda hora na academia. Claro que ele não era o único. Em geral gostava, mas não dele. Não sabia exatamente por quê. Devia ser aquela cara de tarado que fazia. Tem homem que não se controla. Faz só uma carinha de safado e pronto, troca uns olhares, não precisa agir que nem um animal o tempo todo.
Ele tentou mais algumas vezes e ela passou a olhar com mais atenção. Mas continuou com o gelo. Gostava daquilo. Era uma das melhores partes. Percebeu que a mulher sumira. Dali algum tempo o ouviu conversar diversas vezes com os outros homens da academia sobre seu divórcio, reclamando, claro. Esses homens são todos iguais.
No fim, ele sabe que ela só mudou sua atitude depois que o viu chegar aquele dia no seu carro novo, um sedã alemão que acabara de comprar, e percebeu que ela prestou atenção em seu crachá e soube que ela sabia o que ele significava, exatamente, até o último centavo. Daí pra frente foram só sorrisos, até pras piores indiretas. Essas mulheres são todas iguais.
Claro que ele ser Promotor ajudou. Um homem um pouco mais velho, sério, vivido, responsável, mas bonito, bem cuidado, com classe, jovial. Tudo isso conta. Inclusive os olhares. Aí ontem ela pensou um por que não? e pronto, aqui estavam. Seu marido não desconfiara de nada dessa vez, mas era sempre bom ter certeza. Apesar de não ter certeza do que ele faria se descobrisse. Se fizesse. Era capaz de gostar. Sei lá. Eu sei que vou gostar. Depois de todos aqueles olhares. Olha ele lá. Aposto que atrás daqueles óculos, que aliás são de muito bom gosto, tá uma cara de tarado. Ai, que bom. A tarde vai ser boa.
É claro que ela tinha que ser casada. Por que ia agir de maneira tão estranha? Quem vem na praça dos cristais? Só milico e turista, porra. Nem milico deve vir aqui. Mesmo com esse nome de Praça Cívica. Mas e daí? O que importa é que saem daqui direto pro Lakeside ou pro Brasil XXI, onde ela preferir. Essa é a parte boa das casadas. Sem falar que geralmente estão precisando. Olha ela lá. Caralho, que gostosa. A tarde hoje será boa.

Contagem:  941 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

A ideia de colocar dois narradores tornou a história interessante, e as vozes pessoais de cada personagem ficaram bem distintas, em um bom trabalho do escritor. No entanto, a história ficou muito linear, sem surpresas ou reviravoltas que valorizam um conto.
Há alguns erros formais, como uso de ‘apenas’ e ‘porém’ próximos que deixam a frase confusa ou dois ‘mas’ também muito próximos. Ainda do lado formal, o texto varia entre os tempos verbais presente e passado (por exemplo “ele faria”… “vai ser boa”), o que pode incomodar o leitor mais atento. Além disso, na frase “Tentou evitar por algum tempo após…” não ficou claro o que tentou evitar ou porque, a conexão com a frase anterior ficou fraca e confusa.
As melhorias mais estruturais seriam:
– A motivação da personagem em buscar outros homens ficou pouco clara. É dito que marido “a satisfazia de todas as maneiras possíveis para uma mulher, isso era verdade, menos sendo um homem no sentido estrito”. O leitor mediano vai entender que “todas as maneiras” inclui a sexual, e que “ser um homem em sentido restrito” deve ser relativo à reclamação colocada logo antes, de que o marido não reagia quando ela era assediada. É possível imaginar uma interpretação diferente, mas isso ficou pouco claro.
– Opcionalmente, colocar linhas em branco ou com alguma marcação (por exemplo, três asteriscos separados por tabulação) toda ver que muda o narrador. Na forma atual o conto soou confuso, com as mudanças indistintas diminuindo o ritmo de leitura. Digo que isto é opcional pois pode ser que este fosse o desejo do autor, caso em que a forma atual deveria ser mantida.

Ana Vilela

Há descuido na construção do texto. Enredo fraco, história clichê. É apenas a história de uma traição comum. Mistura de narrador com personagem. Alguns pontos são confusos. Muitos juízos de valor.
1 – Atenção ao português. Exs.: 1.1 “Assistira a SUV novinha […]” – assistira à SUV; 1.2 dia-a-dia – dia a dia.
2 – Incoerências: 2.1 – “Os óculos escuros com o lenço e o enorme chapéu […] – aqui dá a impressão de serem os óculos escuros que usam o lenço. 2.2 – “Podia aproveitar a vida e curtir suas e belezas. E que beleza. Olha que corpão, mermão. Problema é do corno.” A linguagem não condiz com a construção feita até aqui, parece deslocada. 2.3 Atenção à construção do texto: “Tentou evitar por algum tempo após o casamento e nascimento de seu filho” – tentou evitar o quê? Só sabemos depois.
3 – Atenção à repetição de palavras próximas uma da outra: 3.1 “Só conversou com ela, que se mostrou interessada nele. Dali em diante sempre conversavam na academia” – conversou e conversavam. 3.2 “Dieta e academia a ajudavam a manter o poder que ela sabia que tinha e gostava muito de ter. Seu marido continuava a responder a ele, mas por alguma razão ele parecia se excitar mais com a ideia dela sendo desejada por todos do que pelo seu desejo por ela” – Ela, ele, ele, dela, ela.

Betty Vidigal

– “Os óculos escuros com o lenço e o enorme chapéu foram o que faltava para ele ter certeza”. Nos dias de hoje, se alguém quer se disfarçar, a última coisa que vai fazer é pôr um chapéu “enorme”! Isso a gente faz pra chamar a atenção!
– Se ele “Desde jovem, ainda militar, tivera facilidade com mulheres. Sabia falar com elas”, por que raios com essa mulher ele “Tentou por várias vezes e nada”? Por que razão ela “agia com frieza, e de certa forma o ignorava”? Não faz sentido. Homens que têm “facilidade com mulheres” obtêm respostas de cara. Mesmo com as mulheres “difíceis” e bem comportadas. Elas podem até não fazer sexo com esses galãs, mas respondem.
– “menos sendo um homem no sentido estrito”. O que é ser um homem no sentido estrito? É reagir quando outros dão em cima dela?Ou é transar? Se é transar, do seu texto se depreende que eles transavamm, desde que ele percebesse que outros a desejavam.
– “Tentou evitar por algum tempo após o casamento e nascimento de seu filho” (melhor dizer “o nascimento”). Tentou evitar o quê? A infidelidade, suponho. Seja o que for, você tem que dizer o que é. Evitar é um verbo transitivo direto, e só se pode usar sem especificar o objeto direto se ele apareceu na frase anterior.
– “Percebeu que a mulher sumira.” Que mulher? Você não tinha falado em nenhuma outra mulher… A dele? Então a mulher do galã frequentava a mesma academia? Se sim, é importante dizer. E quando fala em dois divórcios, é bom contar que um deles é bem recente.
– Não sei se promotores estão na mira das que procuram “homem rico”… Assalariados, de um modo geral, mesmo ganhando bem, não são o objeto do interesse das interesseiras. A sua personagem não parece estar procurando homem rico, está procurando sexo interessante.
– Isso de a mulher procurar sexo por que em casa não é bom é um chavão que nem sempre se verifica. Tá cheio de mulher traindo porque gosta de variar. Mas ok, a sua personagem é assim…

Revisão:
● – “até que certo dia ela tomou a esteira ao lado da que ele corria,” – tem que ser “ao lado daquela em que ele corria (ou qualquer outra solução correta… )
● – “ontem” a gente usa quando está escrevendo no presente. Como seu narrador fala no passado, tem que ser “até a véspera”. A menos que a palavra esteja na fala de um personagem, e ele esteja falando no presente dele.
● O mesmo com “Suas ex-mulheres que o digam”. Tem que ser “que o dissessem”. Pois o narrador está contando tudo no passado.
“Mas ele a ensinou que não poderia ser com qualquer um. Ela queria que fossem bonitos, atléticos, bem apessoados. Mas o rapaz”– evitar 2 “mas” seguidos.
Também nessa frase: tem que ser “lhe ensinou”. Você ensina alguma coisa a alguém.
● “não a agradou”– tem que ser “não lhe agradou”.Mesmo motivo. Você agrada A alguém. Você pode usar “não a agradou” se o verbo for no sentido de fazer carinhos.
● Tem que mexer bastante na redação deste trecho: “ficava com raiva em pegá-lo olhando para sua bunda toda hora na academia. Claro que ele não era o único. Em geral gostava, mas não dele.”
● “Apesar de não ter certeza do que ele faria se descobrisse. Se fizesse. Era capaz de gostar. Sei lá. Eu sei que vou gostar. Depois de todos aqueles olhares. Olha ele lá.” O primeiro “ele” é o marido, o segundo é o Celso. Tem que mexer nessas frases.
● “ela prestou atenção em seu crachá e soube que ela sabia o que ele significava, exatamente, até o último centavo”. A frase ótima, conceitualmente, mas tem que dizer qual o sujeito de “soube”. É “ele”. Mas no início da frase era “ela”. A gente só não põe o sujeito quando é o mesmo do verbo anterior. Ao pôr o sujeito de “soube”, você vai ter que tirar o segundo “ele”. E é bom tirar também o segundo “ela”. Fica assim: “ela prestou atenção em seu crachá e ele soube que a mulher sabia o que significava, exatamente, até o último centavo”. Ou ainda “a moça sabia”, ou sem sujeito nenhum…

João Paulo Hergesel

O conto é composto por longas descrições, que de certa maneira o tornam enfadonho, pois elas não são o foco da história; a ação vale mais que a minúcia, neste caso. Um conto curto poderia ter sido mais bem apresentável. Além disso, o crachá, que deveria ser o objeto-chave, em destaque na história, aparece como elemento de ponta. A ideia poderia ter sido mais bem aproveitada. Comentário estilístico: os plebeísmos no desfecho (“porra”, “caralho”) são desnecessários, uma vez que o texto se desenvolveu de forma autônoma sem eles.

Oswaldo Pullen

A questão do marido saber ou não da aventura da mulher permanece não resolvida até o final do conto, que afinal não tem desfecho de interesse.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 7,3
Ana Vilela  6,0
Betty Vidigal  8,0
João Paulo Hergesel 8,0
Oswaldo Pullen  8,2
Total 37,5