Fim dos tempos

Eclipse Penumbral

O medo impede as pessoas de serem completamente felizes. Todas as grandes conquistas dependeram de pessoas corajosas e destemidas, de pessoas que acreditaram e que se aventuraram. Os cavaleiros do Apocalipse premeditadamente virão nos buscar a todos na mesma data. Entretanto, até esse dia, a cada momento pode – se viver um final, ou mesmo várias “petites mortes”.

Lourenço esperava Leila sair do banho sem saber como abordar o assunto. Eles se encontravam pelo menos duas vezes por semana numa suíte do apart hotel próximo ao Palácio da Alvorada e era sempre bom, muito bom. Mas tinha sido bom enquanto durou. Com a esposa grávida aqueles encontros teriam que acabar. Ele até tentou ir se afastando aos poucos, porém Leila falava em fuga, tinha ido até o quartel encontrá – lo. Melhor resolver com ela bem longe de seu ambiente de trabalho e terminar com isso logo.

Nesse instante o medo fez com que Lourenço decidisse. Tinha medo de estragar sua vida pacata, de perder a esposa e de atrapalhar sua carreira, medo de se expor aos comentários e críticas das outras pessoas, medo de arriscar a imagem de boa pessoa. Limitante, sem dúvida. Mas para alguém como ele, sua imagem estava em primeiro lugar. Justamente ele que escolhera a profissão porque admirava a bravura e a ousadia.

Ele ainda olhou para a tatuagem de sino em seu bíceps esquerdo de que Leila tanto gostava e se lembrou de sua vida de criança em casa cuja mãe se sabia nobre. O sininho de bronze sempre próximo. O toque urgente para a criada e copeira. Um único toque para o esposo. Para ele dois toques: hora das refeições ou para que viesse imediatamente. Inconcebível que se chamassem pelos nomes como nas casas de seus amigos, elevar a voz seria Inconcebível. Buscar pelos cômodos da casa certamente seria falta de classe. Todos ali se submetiam ao ritual do sino, mas, Lourenço se envergonhava desse costume e nunca convidava amigos para visitá – lo.

Quando a mãe faleceu, já na escola militar, numa certa noite de bebedeira ele apostou com os amigos e fez a tatuagem. Nunca conseguiu explicar a ninguém. Gostei do desenho, do estilo – dizia. Gostava de olhar a imagem dourada em seu músculo forte. Lourenço ouviu o chuveiro fechando, o barulho da água que parou e sabia que agora seria ele a quebrar o silêncio. Tinha que ser hoje.

Leila tinha comentado da desconfiança do marido e também de um jovem, filho de uma antiga funcionária da casa que ela estava ajudando e que a estava esperando no saguão do hotel. Tudo para despistar o marido. Eles precisavam fugir logo – ela insistia. Ela também tinha medo. Ah, o medo. Que retém e que recolhe. Mas, que acima de tudo paralisa. Leila estava paralisada em sua vida de madame e queria que ele, Lourenço, a salvasse do sentimento de morte em vida. Dos dias de compras, de salão e do ócio. De seu prazer fugidio de olhar o mundo girando em torno de si.

Speed, o rapaz que Leila “ajudava” viu quando o marido dela entrou no hotel, reconheceu de uma foto no porta retratos do aparador da entrada da casa dela. Alto, forte, másculo. Ele foi até a recepção e se passou por Lourenço Nogueira. Não sei onde coloquei a chave, preciso de uma cópia. Speed percebeu que a recepcionista não duvidou daquele homem bonito e bem vestido. Quarto 402, certo? Aqui está.

Speed pela primeira vez na vida sentiu medo. Ele nunca teve o que perder, então esse sentimento até ali não tinha feito sentido algum. Mas agora ele tinha Leila, sentia que ela se importava com ele, e tinha o azulejo do Bulcão, e o santinho de dom Bosco com a profecia da criação de Brasília que ele encontrou junto com panfletos turísticos ali mesmo no hotel. Uma única vez sua mãe o levou à igreja azul de dom Bosco. Lembrança que reviveu nele um vínculo. Mais um para alguém tão desvinculado de tudo por tantos anos. Enquanto esperava por Leila ele lia com alguma dificuldade: “Entre os graus 15 e 20…”

No quarto, o major Lourenço nem precisou falar nada para Leila. A providência o salvou da escolha. Não teve medo e também não reagiu ao “fique longe da minha mulher. Ela é depressiva, você sabia disso?” seguido pela navalhada em seu braço. Leila quis segurar o marido, estranhamente orgulhosa da atitude dele. Ela que tinha sofrido o abandono do pai sentiu o cuidado do marido, ele lutava por ela, ali ela conseguiu ceder à uma felicidade possível.

A espera de Speed foi curta. Leila desceu abraçada ao marido. Me perdoe, me perdoe – ela chorava, os cacos da paixão rolando entre os pés do casal perfeito. Alguns momentos depois desceu o major com seu braço sangrando enrolado numa toalha, a ruptura do sino externando a ruptura interna com os valores maternos. A recepcionista quis chamar uma ambulância, o major recusou. Sabia como resolver isso.

Somente Speed, ali esquecido, demorou um pouco mais a reagir. Então decidiu que a hora também era dele, que sua vida teria que mudar. Ele iria até a igreja de dom Bosco e depois iria até a Ceilândia procurar pela mãe. Depois de viver por tanto tempo na pulsão do momento ele programou, ele sonhou, ele agendou uma nova vida.

Contagem: 890 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Os primeiros parágrafos dão a impressão de que o tema central do conto é medo. E, de repente, o assunto some de cena. Me pareceu estranho.
Speed é uma personagem interessante e que pode render algo mais longo.
O sino me pareceu meio forçado, quase como algo que só estivesse ali para atender à provocação.

Cinthia Kriemler

A história tem todos os elementos solicitados e cumpre o desafio. Mas eu esperava mais. Fiquei achando que, em algum momento, haveria algo mais atraente. Em certas horas, você explica demais ao leitor, como em “a ruptura do sino externando a ruptura interna com os valores maternos.” Confie que o leitor vai entender o que a ruptura do sino externa. Mesmo sendo ironia, a frase “os cacos da paixão rolando entre os pés do casal perfeito” foi bem piegas, não?

Marco Antunes

Eu sei que voou acabar me tornando o chato da pontuação, mas, pela peruca de Osíris, vamos levar isso a sério. Pontuação não é opcional! Expressões estrangeiras como “petites mortes” devem vir em itálico. Cuidado com o “dela”, pois logo se junta a outra palavra e logo faz cacófato, no caso presente, “casa-dela”. Leia sempre seu texto em voz alta para evitar junções sonoras desagradáveis ou inoportunamente cômicas como “Leila ele lia”. Bem, a profecia de Dom Bosco não teve importância alguma na trama. De resto, tenho grande implicância e quase me recuso a chamar de conto narrativas como a presente, pois o narrador egoísta não abre espaço para a ação direta, isso torna o conto muito cansativo e monocromático. Lembre-se de que o conto é dramático por excelência, quase teatral. Achei o entrecho fraco e sem brilho.

Nálu Nogueira

Narrativa confusa para o que poderia até ter sido uma boa história. Faltam vírgulas e também alguma sofisticação nas construções. O conto começa no major, vai pra Leila, aparece Speed, aparece o marido, a tensão surge e se resolve de forma abrupta e pouco verossímil, o leitor não consegue se conectar ao que está acontecendo, um anticlímax para o que ainda pode ser um bom conto, se o autor se propuser a observar melhor as suas personagens e explorar com mais esmero os seus sentimentos e reações.

Wilson Pereira

O conto atende ao que foi proposto como desafio. A trama, embora bem articulada e bem desenvolvida, não chega a empolgar. Falta-lhe certo clima de envolvimento emotivo e também de expectativa por um desfecho surpreendente.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 8,0
Cinthia Kriemler  8,5
Marco Antunes  8,0
Nálu Nogueira 7,0
Wilson Pereira  8,0
Total 31,5