Formigamento

K

…Nos dias de hoje ter um crachá significa ter trabalho…

“Foda-se esta merda”, penso, ao terminar de ler a segunda provocação de um desafio que não sei direito por que topei.
Lembro bem desse momento.
“E essa bobagem de ‘ter um crachá ter um trabalho’? Eu não consigo. Sou um imbecil. Como unir esses três elementos em uma só história? Em mil palavras? Foda-se.”
Vejo-me fechando o notebook, acendendo um cigarro e observando, da janela do andar superior, minha esposa chegar em casa. Nesse momento, não imaginava que este seria meu último dia.
– Amor, acha a empregada pra me ajudar a carregar as compras?, diz minha esposa.
Afasto um pouco o ângulo da cena. Do lado de fora, lá do alto, vejo: a casa é realmente muito grande. Dois andares, decoração refinada, jardim suntuoso. Como não a senti grande assim em vida? Por que a percebo assim agora, em meus últimos momentos? Como cheguei aqui?
Desço degraus de mármore, corrimão de madeira nobre. Desliza uma mão fria, rígida.
Um beijo conveniente na testa daquela mulher. Penso: “há quanto tempo não fazemos amor”. Sinto: “há quanto não existe amor”. Engraçado ir acabando, assim. Muitas mortes precedem esta morte.
Uma ligação. Vou para fora de casa: sei quem é. Ouço a voz. Suor. Mãos trêmulas. Tenho um compromisso muito grave.
– Preciso sair, querida.
Lá de dentro de casa, ela responde com um grito da mesma intensidade:
– Tomou o remédio direitinho?
Fazia um bom tempo que eu não tomava aquela porcaria.
– Sim, sim. Claro. Preciso ir mesmo. As chaves do carro?
– Estão aqui.
Lança as chaves pela janela da cozinha. Ela percebe meu olhar taciturno.
Agora, deste ângulo, a vejo sair da cozinha. Vai para o quarto. Despe-se. Desce as escadas, pelada, rodando meu crachá pela alça, com o dedo indicador. No meio da escadaria, chama a empregada. Crachá fixo entre os lábios de uma vulva umedecida. “Vem pegar?”, diz.
Novamente estou me observando: dirigindo afobado, movimentos bruscos, buzina. Uma gotinha transparente desliza da testa pela bochecha até o queixo. Olhos arregalados, vibrando.
Estaciono com dificuldade e entro na lanchonete escolhida como ponto de encontro. Na mesa do fundo, um homem bem vestido lança-se contra mim através do olhar. Cabelo branco meticulosamente penteado para trás, terno impecável adornado com broche de símbolo, gravata marrom. Franze a testa quando puxo a cadeira. Erro o passo e derrubo a bolsa de uma outra cliente sentada logo atrás. Não peço desculpas. Quero que isso termine logo.
– Esqueceu o crachá de novo?
Dou-me conta. “A porra do crachá, a desgraça de minha mulher deve ter enfiado em qualquer lugar”.
– Peço desculpas, saí com pressa de casa.
Sem responder, o sujeito tira da pasta um envelope e me entrega. Não aguarda minha palavra, levanta e sai.
Isolado na mesa, seguro o envelope. O papel balança em movimentos rápidos, cambaleando sobre minha mão suada. Abro. Vejo o conteúdo. Um timbre poderoso adorna o papel couché. Letras cursivas abrem sulcos em relevo sutis. A mensagem é bem clara, e faz minha nuca formigar.
Uma concha de mãos abriga meu rosto: desolamento. Como uma premonição, a rádio da lanchonete inicia o réquiem: a voz encorpada e intensa de Jim entoa “this is the end, beatiful friend…”.
Terno amassado, cotovelos calejados. Era o fim. Restava-me apenas o conto. “Aquele maldito conto”. Devoro uma boa quantia de ar com meus pulmões. Força para levantar, as palmas das mãos apoiam o restante do corpo. Tudo o que eu precisava então era de um local tranquilo, que compartilhasse comigo o meu isolamento e me oferecesse um momento para refletir.
Pelos cristais da praça caminho sozinho. Nada me inspira, nem os cristais. “Filhos da puta… com certeza haverá um playboy metido a escritor que vai encontrar um lance barato de palavras para unir este lugar a uma patricinha vadia e a um crachá.”
O local ermo agora é palco de reflexões pedantes sobre um conto que jamais existirá. “Mais um pedaço desencontrado de minha vida.”
Vejo-me parado em frente ao espelho d’água. Neste momento sinto as pontas dos meus dedos formigarem. Perdido em pensamentos errados, em palavras que não foram, coisas que não fiz, o formigamento progride. Quando me dou conta, não consigo mais me mover: “o maldito remédio!”.
Um fio invisível surge a partir do chão e com uma garra prende minha nuca. O pescoço puxa a cabeça; o tronco puxa o pescoço; os joelhos levam o tronco ao chão. Como se meus pés estivessem colados na calçada, meu corpo estático cai num ângulo perfeito de cara no espelho d’água. Estou consciente, mas completamente incapacitado de qualquer movimento: catalepsia. Apenas uma fina camada do terno não fica submersa.
Sinto meus pulmões queimarem, a água rasgando cada alvéolo. A tosse em rebote tenta aliviar a dor do peso que comprime meu peito. Agora, vendo de fora, percebo: ninguém no parque observara a cena. E não bastavam mais do que alguns minutos lá, inerte, para que tudo acabasse – em plena consciência.
Primeiro a lamentação: “se eu tivesse tomado a porra daquele remédio, se eu tivesse ouvido minha esposa, se eu tivesse ficado em casa…”.
Então, a resignação. Paz absoluta. Uma tonelada sai de cima de meus ombros. Cada sentido vai se apagando, leve, lento. O terno some.
Por último, a consciência. A compreensão do fluxo universal, descolamento. Flashback. Rapidamente coisas aparecem em meu pensamento, só que mais reais: agora eu sou de fato uma presença etérea flutuando entre as dimensões temporais. Minha visão expande: a barreira entre passado, presente e futuro está no ego. E de olhos fechados vejo mais, enquanto a energia se dilui…
Na frente do penhasco, o lance final de lucidez: consegui.
O conto me finalizou.

Contagem: 951 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Excelente. Se é para que dizer alguma coisa, tem uma ou outra palavra que eu eliminaria, como as sublinhadas nesses dois exemplos:
“Tudo o que eu precisava então era de um local tranquilo, que compartilhasse comigo o meu isolamento e me oferecesse um momento para refletir”
“Neste momento sinto as pontas dos meus dedos formigarem”.

Cinthia Kriemler

A história até que é diferente, criativa. Mas as solicitações do desafio foram enxertadas no conto como se o texto tivesse sido escrito e somente depois acrescentado dos três elementos solicitados. 1. A dondoca adúltera foi representada por uma citação (a mulher pelada, segurando o crachá com a vulva, chamando a empregada; é isso? Fiquei na dúvida se a traição era com a empregada…), sendo que o desafio pedia que o foco da narrativa fosse o personagem “dondoca adúltera”. 2. Dizer “Pelos cristais da praça caminho sozinho. Nada me inspira, nem os cristais” não identifica muito bem o que é essa praça, nem sair pela tangente dizendo “haverá um playboy metido a escritor que vai encontrar um lance barato de palavras para unir este lugar a uma patricinha vadia e a um crachá” (embora seja um recurso que se pretendia esperto numa frase duplamente preconceituosa). 3. O crachá foi citado a segunda vez para justificar a primeira vez (ele esqueceu o crachá em casa/o crachá está na vulva da mulher que o trai com a empregada). Sinceramente, achei que foi uma tentativa de enrolar, ou de protestar contra um desafio do qual você discordou. Permeando um conto que tem uma ideia boa. Foi o que me passou. Um texto colcha de retalhos.

Marco Antunes

“No meio da escadaria, chama a empregada. Crachá fixo entre os lábios de uma vulva umedecida. “Vem pegar?”, diz.’ – A esposa diz isso para a empregada? O crachá está na vulva? Aceito qualquer resposta, só achei confusa toda a cena.
“Devoro uma boa quantia de ar”? Quantidade, pois não?!
De resto, embora o autor tenha esbanjado estilo, deixou a desejar em clareza. O entrecho do um autor que não progride no tema é um clichê narrativo.
O que mais dizer? O texto é repleto de qualidades de estilo, muitas até para personagem tão vaga e para um entrecho tão pobre e algo confuso.

Nálu Nogueira

Comecei a leitura achando a premissa boa, com ganchos interessantes, que me fizeram prosseguir a leitura para desvendar a trama. Mas as pinceladas de suspense, para mim, não se realizaram: a “dondoca” não se caracteriza apenas por chegar em casa e pedir ajuda da empregada para pegar as compras (especialmente sendo a empregada amante da patroa), não sei quem era o interlocutor no encontro, não entendi porque o personagem principal deveria ter levado o crachá, não sei o que dizia a mensagem no envelope — portanto não tenho ideia dos motivos nem da saída apressada e muito menos da desolação pós encontro. Tb não sei como o personagem principal foi parar na Praça dos Cristais… Muitas coisas, para mim, ficaram soltas, descosturadas, não se resolveram. A catalepsia como causa mortis foi estranha, pq todo o pouco que sei sobre ela é que a pessoa, inclusive, não respira — tanto que é dada como morta (era a doença mais apavorante dos meus tempos de criança, nos filmes de terror que eu via e nas fofocas da época). Elementos demais, soltos, sem conexão e sem sentido. O que é lamentável, porque vê-se que o(a) autor(a) tem domínio da escrita e poderia ter produzido um conto excelente, tivesse tido um pouco mais de cuidado.

Wilson Pereira

O conto foge ao desafio proposto. Apenas tangencia a questão do crachá, e o objeto chave passa a ser o remédio. A mulher não é caracterizada como dondoca. Falta consistência aos fatos e o autor tenta buscar uma saída inusitada, mas que não convence como desenlace para a trama.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal  10,0
Cinthia Kriemler 9,3
Marco Antunes  8,8
Nálu Nogueira  7,0
Wilson Pereira 7,5
Total 42,6