Incidente diplomático

José M. Umbelino Filho

Esperteza não é o forte das cigarras, isso é fato. Insistência sim, eis uma qualidade que muitos menosprezam nessas criaturas. Principalmente os seres humanos. Desde que inventaram a tal fábula da formiga e da cigarra, eles esqueceram que as bichinhas são laboriosas, diligentes, agarradas à luta pela vida. Humanos desconsideram sua constância. Mas, convenhamos, esperteza também não é o forte deles.
Agora, como dizíamos, tampouco é das cigarras. E foi mesmo por parvoíce que a pequena cigarra-do-cafeeiro encontrou seu caminho até aquele bolso de paletó. Sem muita consciência do que fazia, enfiou-se por lá e achou muito confortável – um nicho macio, escuro, felpudo, que trazia memórias de sua infância. Em sua minúscula cabeça de inseto, certas forças ancestrais a chamavam para dentro de lugares ocultos, enquanto outras, mais recentes e maduras, impeliam-na a voar para fora, para as árvores, para a luz ruidosa do mundo. Mas aquela cigarra-do-cafeeiro era o que podemos chamar de uma saudosista, se é que o epíteto cabe à ordem das hemípteras. Tinha certo desprezo pelo canto patriarcal dos machos, considerava tolice morrer depois de botar ovos, e suas seis patinhas sensíveis se feriam ao toque rude das cascas de árvore. Gostava mesmo do cheiro da terra. E, nas noites claras do cerrado, ela sonhava com mofo e escuridão. Sonhava com uma vida simples, de elegância nostálgica, no seio nutritivo do solo. Enfim, era uma cigarra vintage. Daí que se achou muito bem situada dentro do paletó, e resolveu ficar por ali mesmo.
Chegar até o bolso foi, como todo voo de cigarra, um desastre aéreo. Sejamos honestos: cigarras não voam; elas caem. Aprenderam a voar na mesma escola de kamikazes das aleluias e dos besouros. Mas o que falta em técnica sobra em decisão – e quando se lançam à empreitada são como pedras de atiradeira. Estava a pequena cigarra no alto de um ingazeiro, chateada pelas perspectivas de sua vida, e entediada com a cantoria dos machos, quando decidiu trocar de árvore. Mirou a mangueira na outra rua e se jogou no ar com a delicadeza de um tombo. Errou feio. A trajetória despencou no meio do caminho e a pobre cigarra foi literalmente encaçapada pelo bolso do paletó de um velho motorista do Itamaraty.
Foi um lance bonito, que maravilharia matemáticos e “sinuqueiros” diplomados da UnB. Em cálculo perfeito, que nem parecia fruto do acaso, a elipse do voo coincidiu seu ponto mínimo com o exato instante em que o motorista Joca Seixas subia o braço no gesto de atender ao celular, e deixava o buraco do bolso exposto. Ploft, aterrisagem perfeita, cigarra encaçapada. Uma pequena variação, e a trajetória seria trágica. A sorte é que o tal Joca estava correndo, apressadíssimo, nas redondezas da estação de metrô de Águas Claras. Caso andasse, tudo falharia. Mas o bom Joca corria. Ao celular, seu chefe:
– Seixas, cadê você, porra?
– Tô voltando, Batista.
Mais cedo, durante o expediente, ele levara um figurão engravatado para apreciar as belezas alternativas de Brasília. Uma dessas corridas extraoficiais, como dizem, um favor para alguém que conhecia alguém no Itamaraty. O Joca, raposa velha, já estava acostumado com essas escapulidas, mas desgostava. Sabia que o engravatado em questão era peixe pequeno; representante dalgum país subdesenvolvido, provavelmente. O homem se esbaldou e voltou alegre para o carro. Tão alegre que esqueceu no banco de trás seus papéis; entre eles o convite para recepção restrita no Itamaraty. Quando Joca terminou seu horário, sem pensar, enfiou os papéis na própria bolsa, entregou o carro e foi embora. Pegou o metrô para Águas Claras e deu o dia por encerrado. Só que, sem o convite, o figurão virava figurinha. Fosse alguém de calibre, diplomata europeu, quiçá o cerimonial dava seu jeito. Não era. Precisava do papel. Então o engravatado engrossou com alguém, que engrossou com o Batista, que engrossou com o Joca:
– Seixas, acha o convite e volta, porra!
– Tô achando, Batista.
A cigarra-do-cafeeiro desconhecia tais malandragens. Já na Estação da Rodoviária, no subterrâneo do metrô, ela regozijava. Mudança de ares, frio abafado, tudo trazia recordações nostálgicas de sua época de ninfa. Cigarras fêmeas são mudas, mas, se pudesse, nossa amiga tangeria com prazer seu violino abdominal. Entretanto, logo sentiu fome. Não queria sair, mas não havia nada que sugar ali dentro. Matutava nesse dilema quando percebeu uma súbita luz acima da cabeça. Em geral, cigarras não acreditam em Deus. Não exatamente por razões ideológicas ou filosóficas, mas por simples incapacidade cognitiva. Suas cabecinhas lidam mal com o processamento de abstrações complexas. Mas quando a cigarra viu uma mão gigantesca entrar no bolso e deixar algo ali, ela quase reconsiderou suas convicções religiosas. A mão era do Joca, o algo era o convite.
A cigarra detectou logo a natureza vegetal da novidade e, pousando nela, pôs-se a sugar. Não obteve resultado. Se aquilo era um pedaço de árvore, já estava morto e seco há tempos. Mas ela insistia. O fato é que, com o suor excessivo do motorista e o labor constante da cigarra, a tinta do convite foi se desfazendo, deixando no lugar uma crosta pegajosa. Sem perceber, nossa amiga apagava o nome do figurão e, ao mesmo tempo, pregava suas patinhas no papel. Mas o Joca sentiu o movimento. Ato reflexo, num susto, tirou tudo do bolso:
– Credo, uma barata!
Ofensa! Ofensa grave! Anos no Itamaraty e Joca Seixas era um fracasso diplomático. Ninguém chama uma cigarra de barata. A bichinha, indignada, não quis mais saber daquela história. Mirou a luz e zapt, num voo duro, saiu pela estação levando o convite pregado nas patas. O Joca ficou com cara bocó: viu a cigarra voar com o convite, agora sem nome, e sumir na multidão. Nem correu atrás porque, além de pouco esperto, era pouco insistente. Já a cigarra, mesmo não sendo tão esperta, voou o resto do caminho até o Itamaraty. Dizem que participou da recepção, fez amigos importantes e insistiu até exonerarem o besta do motorista. Por ofensa diplomática.

Contagem: 994 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

O conto proporciona uma convivência inusitada com o universo das cigarras. Arquitetado com originalidade, com bons toques de humor, o texto faz encantadoras concessões ao universo do imaginário. A vigorosa cigarra rouba a cena! Mas, se cigarras, além de não acreditarem em Deus, não voam, mas caem, como é que a nossa cigarra voou com o convite até o Itamaraty?

Alexandre Lobão

Excelente história, muito divertida, imaginativa e de uma leveza difícil de atingir. Minha primeira nota 10 na competição!

Allan Vidigal

Divertido e bem escrito, mas passa muito perto da fábula (sobre isso, veja o meu comentário a esse respeito no conto do Enrico desta semana).

Ana Vilela

Ótimo texto. Divertido e gostoso de ler. A ideia da vingaça da cigarra também é muito legal – vingança sobre a própria história, sobre a ideia que os humanos têm delas, e sobre a fábula.

Mas o final do texto vai um pouco além do que devia, perdendo a força e explicando demais, apesar de entender que a ideia é terminar com uma moral, como em uma fábula, mas sem ser uma. Mas essa mensagem já está bem clara.

Betty Vidigal

A chegada da cigarra no bolso foi contada duas vezes. Um pouco redundante. Melhor ficar só com a segunda. Mas pode incluir isso do bolso felpudo e confortável no texto.
Trajetória não despenca… Mas enfim…
Tem muita coisa descartável no texto. Isso dos sonhos de elegância nostálgica, acreditar em Deus, querer tocar o violino, coisas que não fazem parte da estória.
Que poderiam ser muito interessantes noutro contexto.
A cigarra não tem que “reconsiderar” convicções inexistentes. Se não existiam, podem ser adquiridas, mas não reconsideradas.
E o figurão? A gente tem que saber o que houve com ele.
O final é estapafúrdio.
A coisa boa do conto é a cigarra ser insistente e o Joca não ser.

Celso Bächtold

Texto com aventura e humor. Gostei, apesar da inverossimilidade dos fatos.

Cinthia Kriemler

Eu não gosto de fábulas e afins, mas gostei do seu conto. Porque me fez dar risadas. Principalmente o parágrafo final. Cumpre o desafio de uma maneira diferente, pelo humor. E mostra que é possível criar um bom personagem de realismo sem descambar para o ruim.

João Paulo Hergesel

O título é fraco, genérico e não representa o conteúdo do conto. O texto, por sua vez, traz construções bastante interessantes, como: “era uma cigarra vintage”, “aprenderam a voar na mesma escola de kamikazes” e “cigarras não acreditam em Deus”. Nota-se que houve pesquisa e que o trabalho foi costurado de forma criativa, coesa e coerente com a proposta. Não havia necessidade de usar palavras de baixo-calão, ainda que na fala do patrão.

Marco Antunes

Um conto (?) com muito ar de crônica. Um desenvolvimento ora interessante, ora demasiadamente arrastado e pouco convincente. O final só mostrou a pressa com que o autor resolveu terminar o enredo em que se meteu e não parecia saber dar fim.

Nálu Nogueira

Genial!

Oswaldo Pullen

Português lavrado com correção, num conto monótono, pesado, mas que melhora a seu final.

Paulo Fodra

O verdadeiro incidente diplomático, para mim, foi a narrativa burocrática e rebuscada do conto descambar para um final tão surreal e pretensamente cômico. Todos os requisitos das provocações foram atendidos, a narrativa tem uma estrutura coesa e bem definida, mas o resultado não chega a empolgar.

Roberto Klotz

A abertura é tão boa que a ideia parece extraída do “Manual do escritor”. O texto é atraente e tem doses certas de humor inteligente: “cigarras vintage”; “Aprenderam a voar na mesma escola de kamikazes das aleluias e dos besouros”; “cigarras não acreditam em Deus. Não exatamente por razões ideológicas ou filosóficas, mas por simples incapacidade cognitiva.”. Com criatividade usou corretamente os elementos da provocação. Foi verossímel com a cigarra falante. E encerrou com maestreza.

Simone Pedersen

Uma cigarra personagem, como o desafio pedia. O humor na medida certa: chamar uma cigarra de barata é ofensa grave! Um conto leve, muito criativo, sem pontas, com um fechamento hilário. Sacadas ótimas, como: “kamikazes aleluiais e besouros”. Uma cigarra feminista e moderna, que não quer morrer depois de botar ovos, e, ao mesmo tempo é saudosista. Esse conto é material para uma história infantil. Parabéns! Criou uma lenda de cigarras, dentro do conto.

Wilson Pereira

O conto está de acordo o previsto no concurso. A trama é muito interessante, original mesmo. O enredo não se constitui propriamente em fábula, mas a cigarra acaba se tornando a personagem principal. Há um toque sutil de humor e de ironia no texto. Os fatos estão muito bem articulados e bem encadeados. O desfecho é surpreendente. A linguagem é rica, com expressões novas e bem aplicadas ao contexto. O conto alcança elevado nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,3
Alexandre Lobão  10,0
Allan Vidigal 8,5
Ana Vilela  9,5
Betty Vidigal 8,8
Celso Bächtold 9,6
Cinthia Kriemler  9,8
João Paulo Hergesel  9,8
Marco Antunes 8,0
Nálu Nogueira  10,0
Oswaldo Pullen  9,0
Paulo Fodra 9,0
Roberto Klotz  10,0
Simone Pedersen 10,0
Wilson Pereira  9,5
Total  140,6