Janeiro, 2066

Charles C.

Depois do ataque aéreo, das bombas que transformaram o Eixo Monumental em escombros, vieram os paraquedistas. E com eles o cheiro da morte, de violência, o estupro. Às crianças decepadas nas largas avenidas de Brasília ninguém mais presta atenção — infiéis, diz o risco de faca nas testas. As mulheres protegem suas crias. Poucas conseguem; não vejo nenhuma conseguir.
Com o rosto coberto com panos improvisados e amarradas pelos pulsos e tornozelos, a corrente de braços é arrastada aos gritos por um sargento. Cada grupo segue para a praça mais próxima. As que não morreram estupradas nas curras promovidas por aqueles brutos de língua estranha formam a mais sombria imagem que já presenciei nas sete décadas que vincaram experiência no meu rosto. Nasci cinco anos antes do ataque às Torres Gêmeas, e sempre ouvi que esse dia chegaria. Nunca acreditei nisso. Hoje, velho demais para lutar, não consigo falar a respeito. Escrevo.
Magras, rotas, sangrando, com os olhos vidrados em choque; ou simplesmente resignadas. Mulheres desesperadas são afiladas no proscênio de palcos improvisados onde quer que haja uma vala, um buraco no chão. Lagos e fontes servem também. E ali, postas lado a lado, sem direito a julgamento, as balas de fuzil penetram-lhes o pescoço, o peito, o ventre; dilaceram rostos, quebram costelas: matam. Não há palavra mais dura. Morte já vem com um crucifixo no meio. Eles matam. Simplesmente matam. Sem saber porque ou para quê. E naquelas mulheres não se enxergam rostos, só se vêem figuras; garranchos mal acabados da vida que lhes resta. A Guerra Santa havia chegado. Depois do ataque aéreo e das bombas, eu tinha só uma certeza. A Guerra Santa havia chegado.
Das casas, de seus apartamentos, das repartições públicas, de padarias e supermercados, arrancadas, uma a uma. Elas não são mais donas de nome ou de passado. O futuro todo se resume a mais quinze minutos. Quantas são? Não consegui contar. Sob o sol de janeiro, os pés queimando nas seis pistas do asfalto negro, chegam arrastadas e agora aguardam, com os cristais de concreto de Haruyoshi de pano de fundo, alinhadas na borda do lago. Do outro lado do asfalto os comandantes confabulam sob a sombra da concha acústica, suando em seus uniformes negros, os rostos cobertos pelas balaclavas.
Com um toque no fone acoplado ao ouvido o sargento informa: “prontas”.
Há dois soldados para cada vítima a ser eviscerada da própria vida. Dez braças separam a ponta dos AK-47 do peito de cada uma. É espaço suficiente para não errar o alvo; é espaço suficiente para ouvir os dentes batendo uns nos outros, tiritando uma reza, implorando perdão. Eu não queria estar em nenhum dos dois lados. Elas pelo menos morrerão e se acabará o sofrimento. Eles — dezoito, vinte anos? — ouvirão para sempre o tac-tac do medo trincando mandíbulas, enxergarão as lágrimas das violentadas no rosto de suas mulheres, abraçarão seus filhos e neles, madrugada adentro, no colo, verão os olhos secos e abertos dos miúdos decapitados. Eles…
Cratatá. Tá. Tá. Cratatá!
Ordem cumprida.
As infiéis, as adúlteras, as da vida: julgadas, condenadas e executadas sem que uma palavra tenha sido dita em suas defesas. Duas caem de joelhos para a frente, e posso ouvir o som dos ossos do rosto batendo no chão. As demais caem para trás, no lago, que de tão raso deixa o corpo mais fora que dentro da água. A água já não contrasta seu verde com o concreto do chão. O sangue que jorra das feridas tingiu tudo.
Segundos se passam e eu noto um movimento. Uma delas ainda está viva. Espalma as mãos no chão e se levanta. Tem as unhas pintadas, o cabelo claro. Vestia, até ser violentada, uma calça justa demais. Dona de si. Já não é mais dona de nada. Nem o corpo lhe pertence agora.
Ela grita enfurecida. Impreca palavrões, maldições. Não adianta. As línguas não se comunicam. Há um oceano, um oceano e um continente entre o português e o árabe.
O comandante é chamado. Soldados seguram a mulher.
Gritos, balidos estridentes. “Maria!” — ela grita e aponta para o crachá pendurado no pescoço. Como as outras, traz o sinal do adultério riscado de faca no rosto, e arfa com as últimas energias para recomendar a alma daqueles soldados ao inferno.
Pá!
Não é um tiro agora.
É um tapa.
A bigornosa mão do comandante a derruba. Maria cai ajoelhada e os olhos borrados do excesso de maquiagem mal ajustam o foco no coturno quando um chute nas pernas a dissuade de qualquer reação. Ele a levanta pelo braço, empapado de sangue. Escarra em seu rosto. Arranca-lhe do pescoço o crachá do Ministério da Defesa — sua única e singular… defesa — e o exibe para os soldados. O cordão corta o couro, a pele. Despojo de guerra. Um troféu diante do QG do Exército.
Urram. Os soldados urram satisfeitos. Dão tiros para o alto. Cratatá! Gritam palavras desconhecidas. Não preciso entender as palavras, a linguagem da guerra é universal.
O comandante agarra Maria pelo cabelo. Ela já não se opõe. Como a um garrote, ele firma nas mãos as extremidades do cordão do próprio crachá e, com força atende ao clamor do pelotão. Ela se debate. Primeiro forte. Depois cada vez mais devagar e então, com os olhos sem vida no céu sempre azul de Brasília, a alma se dá por vencida e abandona a luta.
Adúltera, infiel, impura. Olhos pintados, unhas postiças.
Ou simplesmente mulher.
Não importa.
Agora já não é mais nada.
Os prismas de concreto no lago da praça se postam em oração e velam os corpos que diante de si apodrecem. Um carcará pousa no vértice do mais alto dos cristais, paciente. Ele também sabe. Depois do ataque aéreo, depois dos soldados, a Guerra Santa estava apenas começando. E com ela, o tempo de fartura. Não é preciso entender o seu piado. A linguagem da guerra é universal.

Contagem:  980 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

O conto está bem escrito, gramaticalmente e ortograficamente falando. Não há problemas de ritmo ou coesão. O tema é pesado, e o uso da “linguagem da guerra” deu um fechamento interessante para a história. O uso de um narrador em primeira pessoa foi uma boa escolha estilística – ainda que tenha gerado alguma confusão. O narrador era obviamente um personagem, por ter “data de nascimento” e nacionalidade. No entanto, como ele poderia estar tão perto para chegar a ouvir um tapa, e ao mesmo tempo não ser um personagem “visível”, presente claramente na história?
Incomodou-me, ainda, a visão amplificada da violência (ainda que atribuída a um grupo já violento); não pela violência em si, mas pelo risco de reforçar preconceitos contra a religião do Islã no leitor, uma vez que há a tendência de se atribuir ao todo a característica de alguns radicais. Acredito que o escritor precisa estar consciente de que suas palavras afetam e transformam pessoas, pelo que deve evitar preconceitos, ainda que velados, contra quaisquer grupos.
Detalhes: Na frase “Poucas conseguem; não vejo nenhuma conseguir”, é possível entender que o narrador sabia por terceiros que alguma conseguiu, mas ele próprio não havia visto; no entanto, esta construção é pouco usual e causa estranheza, soa contraditória, pelo que não recomendaria seu uso.
Outro ponto é a frase “eviscerada da própria vida”. Ainda que se possa aceitar seu uso por liberdade literária, “eviscerada” significa “privada de suas vísceras”, pelo que não demanda – nem deveria ter – complemento.

Ana Vilela

1 – Atenção às contradições: “As mulheres protegem suas crias. Poucas conseguem; não vejo nenhuma conseguir.” O narrador, em primeira pessoa, se contradiz: “protegem”, “poucas conseguem” e “não vejo nenhuma conseguir”. Elas tentam proteger.
2 – Seria interessante evitar exageros e tantos adjetivos, até porque a ideia do conto já é pesada por si só, então pede algo limpo. As cenas já bastam. Exemplos: 2.1 “Magras, rotas, sangrando, com os olhos vidrados em choque”. Na última parte, uma sugestão: Ou olhos vidrados ou em choque. 2.2 “[…] garranchos mal acabados da vida que lhes resta.” Garrancho já pressupõe algo que foi feito em desleixo. E “da vida que lhes resta” é desnecessário. É sabido que estão diante da morte. A palavra garrancho já tem uma força muito grande nesse contexto: pessoas = garranchos. Basta. Diz tudo. 2.3 “A Guerra Santa havia chegado. Depois do ataque aéreo e das bombas, eu tinha só uma certeza. A Guerra Santa havia chegado.” Desnecessária a repetição e falar novamente das bombas. Já foi dito. Está claro. 2.4 “[…] asfalto negro […]”. Asfalto é negro. “[…] eviscerada da própria vida […]”. Eviscerada é suficiente. 2.5 “[…] é espaço suficiente para ouvir os dentes batendo uns nos outros, tiritando uma reza, implorando perdão […]”. Dentes batendo já prediz que é um no outro. Ex.: “…espaço suficiente para ouvir os dentes batendo, a reza, o pedido de perdão.” Limpar o texto é muito importante. 2.6 Evite juízos de valor na fala do narrador: “Vestia, até ser violentada, uma calça justa demais.” Pode não parecer, mas há juízo de valor aí.
3 – Atenção ao português: “Sem saber porque (por que) ou para quê”; “só se vêem (veem) figuras”. 3.1 Atenção ao tempo verbal. O narrador fala no presente. “A Guerra Santa havia chegado. Depois do ataque aéreo e das bombas, eu tinha só uma certeza. A Guerra Santa havia chegado”.
4 – Pontos positivos: algumas ótimas colocações. Ex.: “Elas não são mais donas de nome ou de passado. O futuro todo se resume a mais quinze minutos.” A história é forte, o narrador é bom, mas é necessário evitar os exageros, o excesso de adjetivos, a interferência do narrador. Perigoso também colocar os árabes na história. Deixar em aberto muitas vezes é bem mais interessante. Deixe o leitor dar à língua estranha a origem que ele quiser.

Betty Vidigal

– O conto é bom. Tem frases lindas.
– Muito legal o jeito de situar o ano dos acontecimentos! Parabéns por esta.
(“nas sete décadas que vincaram experiência no meu rosto. Nasci cinco anos antes do ataque às Torres Gêmeas,”)
Também é um momento plausível para situar a ação. Em 2065? Pode ser que até lá a “Guerra Santa” tenha chegado.
– Não faz muito sentido que os soldados de ”dezoito, vinte anos” “urrem satisfeitos” e ao mesmo tempo sejam impressionáveis pelo “tac-tac do medo trincando mandíbulas”, vejam para sempre as“lágrimas das violentadas no rosto de suas mulheres” e “madrugada adentro” vejam “os olhos secos e abertos dos miúdos decapitados”. Soldado que urra satisfeito depois da matança e da pilhagem não vê assim as mulheres e as crianças do inimigo. Pra ele, não são humanos.
– Que saibam quem são as prostitutas, ok. Mas como saberiam quem são as adúlteras? Nem o marido sabe… 
– A mulher grita ”Maria” e aponta o crachá do Ministério da Defesa. Entendi que fosse o crachá dela. Se é, a personagem não pode ser classificada como “dondoca” (ou desclassificada…). Batia o ponto às 8 e saía às 5? Dondoca trabalha? Tem crachá? O desafio pede uma dondoca. (Ou era o crachá do amante? Do marido? Sei lá.) Mas suponhamos que o crachá não fosse dela. Alto funcionário do Ministério da Defesa tem um bom salário, mas não basta pra que a mulher seja uma “dondoca”.
– Dondocas não usam calças justas “demais”. Ficam nas listas das 10 mais elegantes, coisas assim. Usam roupas sexy, mas nunca demais. Sempre na medida.
– All in all, o conto está quase pronto, só precisa de uns ajustes.

Revisão:
● Estas frases não fazem sentido:
“Com o rosto coberto com panos improvisados e amarradas pelos pulsos e tornozelos, a corrente de braços é arrastada aos gritos por um sargento. Cada grupo segue para a praça mais próxima.”
O sujeito da primeira frase é “a corrente de braços”. Mas uma corrente de braços não tem rosto. Ok, é uma metonímia? Mas quem está com o rosto coberto por panos? E quais são os grupos? Se UMA corrente é arrastada por UM sargento, como pode haver mais de um grupo? como você falou em membros decepados, no início, entendi a “corrente de braços” ao pé da letra… os braços decepados todos amarrados uns aos outros, sendo levados por um “sargento”.
● “afiladas” não significa “em fila”, se é que foi isso que você pretendeu dizer. Afilado é cortante, ou muito fino, ou bem aferido. Nenhuma dessas 3 acepções parece ser adequada na sua frase.
● “Sem saber porque ou para quê.” Aqui, o correto é “por que”. Existe um truque muito bom pra saber quando é “porque” e quando não é. Porque=because; por que= why. Se você fala inglês, fica facinho. Se não fala, tem que entender as regras disso no português… Porque: justificativa. Por que: razão pela qual.

João Paulo Hergesel

O texto é muito mais prosa-poética do que qualquer outra classificação literária e/ou artística que possa receber – e isso é um primor! Um dos melhores contos da rodada. Comentários estilísticos: 1) A expressão “num céu sempre azul” é totalmente lugar-comum e merece ser descartada; diferente de “Morte já vem com um crucifixo no meio”, que é uma das simbologias mais lindas que li hoje. 2) O “por que”, separado, pode aparecer no meio da frase também, quando tiver sentido de “por qual motivo”.

Oswaldo Pullen

O conto, para este jurado, tem questões de inverossimilhança. A primeira delas se refere à descida das tropas invasoras no Eixo Monumental, onde encontram mulheres para servir a sua sana assassina. Pois bem, este Eixo Monumental comumente está vazio de transeuntes. O segundo problema está no fato de os tais paraquedistas não teriam como saber quem seriam as adúlteras, já que, com certeza, as tinham encontrado naquele instante.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 8,3
Ana Vilela  7,5
Betty Vidigal  9,2
João Paulo Hergesel 9,9
Oswaldo Pullen 8,0
Total 42,9