La Campana

José M. Umbelino Filho

Veja bem, meu caro. Esse não é o tipo de caso que se conta assim, fácil, fácil. Exige certa dose de credulidade, de boa-fé, que não podemos pedir a qualquer um – e que, pedindo, perigamos acabar malquistos e malditos. Então você entenda minha demora nos preâmbulos. Não é nariz de cera. Não é firula. Quando remexemos essas tais coisas – que tais coisas? – essas de profecia, de fé, de fim do mundo… bem, você sabe. Quando propomos o além, alguém sempre chia. Alguém sempre melindra. Desacredito que seja o seu caso; confio na sua capacidade de abstração, meu caro. É só cautela. Pois te digo, e não nego, ora, não nego mesmo: tudo que vou contar é a pura verdade. Pé junto e mão na bíblia. Agora, se acontece da verdade, quando pura, descer queimando igual aguardente, então…
Foi em Brasília, nos dias do caos. De onde estávamos, num apart hotel perto do Palácio da Alvorada, era impossível enxergar a coisa toda. Mas sabíamos que a cidade estava em polvorosa; a multidão íngreme, a barulheira disparada, a grande passeata se movendo como a montanha de Maomé. Todos iam ao palácio exigir a cabeça do presidente. Qual presidente? E quem sabia? Perdemos a conta das trocas. Pleno 2020, passados já seis impeachments num combo desastroso, e a democracia canarinha havia inventando na marra o inédito jogo das cadeiras presidenciais, a roleta russa do jeitinho brasileiro, o self service dos escândalos. Estavam errados? Quem dirá? Eu não direi; sou a nata da canalhice, meu caro. Eu estava lá só pelo sport. Meu negócio sempre foi a farra. Minha política, a de Nero. Minha filosofia, a do barão de Münchhausen. Se o programa era tocar fogo no circo, eu levava pipoca. E sinceramente acreditei que João fosse dos meus. Até concordou em ficar comigo no apart hotel chique, longe das barracas e das quentinhas dos manifestantes. Achei mesmo que João era meu drugue, meu camarada. Mas, tão logo chegamos, ele começou um papo esquisito de dom bosco e terras prometidas. Uma conversa escabrosa.
No primeiro dia, o João me segura e diz, assim, à queima-roupa: “Escuta, cara, que eu não vim aqui pela farra. Estou numa missão. ” Falou sério, as mãos crispadas, os olhos grandes. Mas eu dei só meia bola; conheço o João desde piá. Sei o tipo. Ele sempre foi um cara meio desconcertado – nortista de nascimento, goiano de criação, italiano de ascendência, espírita às terças-feiras, católico nos dias santos. O João é figura. Mas nunca me abandonou numa bebedeira e nem num pé de valsa. Por isso fiz pouco caso. Ele, contudo, reiterou: “Você não acredita, né, cara? ” Tirou a camisa e me mostrou a tatuagem do sino. “Está vendo? ” Eu estava. “Tá maior! ” Não estava. Ele jurou que a tatuagem crescia; mas eu, sinceramente, achei que não crescia coisa nenhuma. Eu disse: “João, sossega o pito. A tatuagem está igual. ” Mas ele não se convenceu. Mostrou um desses santinhos de papel, um com Dom Bosco e alguma oração domingueira. Disse que tinha finalmente descoberto quem era o homem do sonho. Eu suspirei.
Vira e mexe ele voltava naquela história do sonho. A gente era adolescente ainda quando o João me apareceu com um sino tatuado no peito. Contou que havia sonhado com um homem todo de preto, parado no meio do cerrado, segurando o próprio coração na mão e dizendo: “La campana! La campana! ”. O homem falou que quando chegasse a hora, João deveria tocar o sino. Ele nunca esqueceu o tal sonho. Em Brasília, anos depois, nas vésperas da revolução, João cismou que o homem era Dom Bosco. Já tinha cismado que era Jesus, Raulzito e até o aiatolá Khomeini. Mas em Brasília o lance ficou sério.
No segundo dia, João permaneceu no quarto. Passou trancafiado, ouvindo repetidas vezes a mesma música do Belchior – aquela em que ele canta, por baixo dos bigodes: “Minha Alucinação é suportar o dia a dia. Meu delírio é a experiência com coisas reais.” À noite, retomou comigo: “Cara, você conhece a profecia de Dom Bosco? ” Claro que eu conhecia. Sou um bárbaro, não um néscio. Eu respondi: “João, meu querido, a profecia falhou. Ela garantia leite e mel. Prometia Suíça, e ganhamos Brasil! Olha ao seu redor. Tudo desmoronando e você nessa de terra prometida? ” Mas o João estava com a macaca. Ele disse: “Entenderam errado a profecia. Lembra da parte que fala: quando vierem escavar os minerais ocultos…? ” Respondi: “Sim. Vieram os bandeirantes. ” O João: “Necas! A riqueza oculta do Brasil não era ouro! São os dólares escondidos pelos corruptos. Toda a riqueza brasileira ainda está escondida. O profeta falou dos minerais ocultos nos meios desses montes. Não há montes em Brasília! Os montes são os prédios do governo. Nós somos os bandeirantes. Logo o sino avisará a hora da terra prometida! ” Eu suspirei. Você também suspiraria. Respondi: “E você deve tocar o sino? ” Mas o João me olhou com olhos cheios de fogo, assustadores: “Eu sou o sino. ”
Louco? Certamente. Equivocado? Bom… avisei que o caso é de cautela. Nós sabemos o que aconteceu no terceiro dia: a manifestação rugindo, o palácio desmoronando, os tiros, polícia subindo, paulada descendo, a cabeça doutro presidente rolando pela rampa. Fato consumado, certo? Mas é fato também que todo mundo ouviu as badaladas. Não dá para esconder isso aí. Você ouviu, eu ouvi; e quem negar que desminta as gravações, as filmagens, as reportagens. Quem negar que se explique, porque todo mundo em Brasília escutou. O clangor metálico e sublime, ressoando pelo planalto central como a trombeta da anunciação, e repicando doze vezes. Todo mundo ouviu, mas só eu vi. Só eu entrei no quarto e vi o João nu, seu corpo vibrando como se fosse oco, os olhos vazios, e ele gritando doze vezes. Gritos humanos, sim, mas límpidos, vibrantes, impossíveis, como badaladas de sino.

Contagem: 988 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Que texto provocativo e envolvente! Conseguiu me arrepiar do início ao fim. O texto cresce, chegando a um incrível clímax quando João profeticamente anuncia: “Eu sou o sino”. Consegue desmascarar a profecia de forma original. Surpreendente atualidade. Clima de denúncia, realizada com extrema competência. Desfecho muito criativo. Minúsculo problema de revisão que desconsiderei, dada a originalidade do conto.

Celso Bächtold

Conto muito interessante, sendo o estilo do autor dinâmico e vibrante. Com uma boa dose de mistério, o texto prende a atenção do leitor, que fica querendo chegar logo ao final para saber como termina essa história. Muito bom!
Um pequeno detalhe na frase:
“…papo esquisito de dom bosco e terras prometidas” Bosco é um nome próprio, e deve ser grafado iniciando-se por letra maiúscula.

Paulo Fodra

Excelente conto, com uma pegada muito boa. Todos os elementos da provocação costurados com maestria no texto. Narrativa tensa, em tom de causo contado, ajuda a negociar a suspensão da descrença. A leitura flui agradável e a criativa trama prende. Parabéns!

Roberto Klotz

Logo de cara pegou-me pelo braço: — Sentaí, escute.
Privilégio deve ser sentar-se ao seu lado, numa varanda domingueira para ouvi-lo prosear. Danado de bom.
Gostei do credenciamento do personagem ao mencionar Nero e Münchhausen. Mais ainda depois que descobri que “drugue” é companheiro na linguagem Nadsat de Laranja Mecânica. Amei a frase: “a mesma música do Belchior – aquela em que ele canta, por baixo dos bigodes” Tanto que resolvi ouvi-la também para acompanhar o restante do conto. Curiosidade: da outra vez que ouvi música durante a leitura no Desafio, também um corpo caiu da janela em “Pais e filhos” do Renato Russo. O fechamento previsto e anunciado ganhou força na descrição. Baita criativdade. Parabéns! Mas eu sou cri-cri: achei um erro. Há um espaço sobrando entre o ponto e as aspas em “Eu sou o sino. ” hahaha.

Simone Pedersen

Alguns contos dessa semana estão muito bons. Gostei muito desse. Inteligente e criativo. Os elementos do desafio foram atendidos. Indicaria para amigos lerem.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 10.0
Celso Bächtold 9.6
Paulo Fodra 10.0
Roberto Klotz 10.0
Simone Pedersen 9.5
Total 49.1