Lugar de Santinho

K

Os primeiros raios de sol do meio-dia vazam pelas pálpebras semicerradas, fritam minhas pupilas.
– Seu sem vergonha! Safado! Jaguara!
Merda. Minha esposa.
– O que é isso?! E todas essas garrafas aqui?!
Sabia que não devia ter ido à última festa do Rangel.
– Deixa eu ver aqui o que é isso na tua virilha…
Olho para baixo e não acredito.
– …você tatuou um sino com um lacinho vermelho em cima do…
Triste e retraído badalo do sino.
– Caralho! Quem tá no banheiro?
Repentinamente arregalo os olhos: eu também não sei.
– Jesus… é uma travesti! Não, isso não tá acontecendo…
Sai de lá uma morena de ombros largos. Agora lembrei. Ah, Solange…
– A senhora me respeite!
– Respeito é o caralho, sai daqui agora seu, sua… sai daqui, vagabunda!
Solange, elegante, não se envolve em discussões banais. Vejo-a pegar uma bolsa e sair. Para ela, parecia não haver absolutamente nada de errado na cena peculiar vista pela minha esposa: eu, pelado, com um sino de lacinho vermelho desenhado na virilha, largado numa cama de uma espécie de hospedaria, rodeado de garrafas e mais um monte de outras coisas.
Nada me vem à cabeça a não ser um surrado “calma eu posso explicar”.
– Amor…
– E tu cala essa boca, infeliz!
Não ia dar certo mesmo.
Agora vejo minha esposa desabar numa cadeira jogada no canto do aposento. Recomponho-me lentamente, o corpo inteiro dói.
Tento sentar, a dor se intensifica. Não são hemorroidas: é o atrito seco de um pedacinho de papel. A situação é desconfortável, mas o esforço necessário. Com muita luta retiro o papelzinho do inusitado lugar. Na frente, a imagem de um homem sereno, no verso, uma série de palavras bizarras e confusas: esse senhor tomou algo forte.
Não vim para festas. Sinto que grandes responsabilidades me foram confiadas nesse mês aqui. Olho pela janela, um edifício pomposo com estruturas brancas paralelas que se intercalam com o vazio, desenhando curvas. Homens vestidos de preto, mulheres suspensas em sapatos com plataformas circulam pelo local.
A última festa do Rangel foi demais pra mim. Esforço-me para recordar… após a sexta dose, pouco lembro, apenas momentos aleatórios. Vejo muita bebida e gente elegantemente vestida. O local está bem iluminado, todo colorido, as luzes movem-se de um lado para outro. Fica a impressão de ser uma festa de alta sociedade.
– Tantos anos dedicados… O que eu faço agora? Hein?! O que eu faço?!
A mulher está desolada. Sentada na cadeira, envolve os joelhos com os braços, quase em posição fetal. Eu, mudo, esfrego os olhos ao ver a improvável cena: os membros dela vagarosamente fundem-se ao corpo, a cabeça une-se aos joelhos, os dois pés tornam-se um só, até que todo o corpo se transformasse em uma simples esfera cor de pele. Então uma fina crosta branca surge e envolve essa massa fundida em si. Agora vejo em cima da cadeira um grande ovo, do exato tamanho da fêmea infeliz.
Uma pequena rachadura inicia no topo do ovo e progride, dividindo-se em forma de relâmpago, deixando vazar uma gosma vermelha. A gosma vagarosamente lambuza todo o chão, e então vejo dela surgirem flores que já nascem mortas. De uma dessas flores sai uma bolsa viscosa cor de pele. A bolsa cresce cresce e se rompe. Sai de dentro um bebê. O bebê começa a falar, voz aveludada, desejando me convencer que basta pensar positivo e tudo ficará bem.
Vejo então através do vidro da janela dessa estranha hospedaria uma gigantesca tempestade. Trovões fulminam o céu negro. Pessoas correm para todos os lados, procurando abrigo. Ao toque dos trovões, ouço o som de um sino: sim, provinha de mim, a partir do balanço do badalo.
Preciso tomar cuidado ao me movimentar, pois percebo que a ferocidade dos trovões aumenta à medida que o badalo balança mais forte, conforme movo meu próprio corpo. Como estratégia, devagarinho sento no chão, em posição de lótus. Fecho os olhos. Sinto a temperatura aumentar, algo crepitando.
Abro os olhos. Chamas em todo lugar. O quarto completamente incendiado, assim como todas as construções e todas as coisas incendiáveis lá fora. Fecho os olhos novamente numa tentativa pueril de me defender. Chamas aproximam-se do meu corpo, causando dor… dor…

– Eminência! Eminência!
Um par de mãos sacode meu corpo.
– Dom Bosco! Está tudo bem?
Acordado ardendo em febre, abro os olhos com dificuldade.
– Estava gritando! Vim verificar se precisava de algo e o encontrei suando frio sob as cobertas.
Um dos internos do seminário tirara-me daquele esquisito pesadelo.
– Vossa Eminência teve outra premonição?
Ah, se ele soubesse.
– Pegue papel e tinta…
A febre subtraíra toda minha disposição para dar explicações. Então resolvi resumir a história àquela lida no papelzinho que tirei de lá.
– …e escreve aí, meu filho: entre os paralelos 15 e 20 havia uma depressão bastante larga e comprida…

Contagem: 814 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

O conto está bem interessante, engraçado e com um final surpreendente, parabéns! A voz do protagonista está muito bem definida, e os diálogos estão convincentes.
Acredito que há uma leve quebra de ritmo na parte em que a esposa vira um ovo até o bebê falar; devido ao excesso de informação em poucas frases.

Ana Vilela

(Antes de mais nada, creio que citar as festas do Rangel não foi à toa).
Ótimo narrador. Fala coloquial bem-sustendata. O conto foge totalmente ao comum e surpreende do começo ao fim. O absurdo ganha vez e prende o leitor. Também faz rir. Mais atentamente, percebe-se várias simbologias: a do ovo, a do sino, a da criança, a do fogo… Aliás, a ideia da pessoa acocorada que vira um ovo é perfeita. É como voltar ao útero, e é assim mesmo que nos sentimos quando ficamos nessa posição, principalmente se por sentirmos dor. Intencional ou não, faz o leito refletir. E, por sorte, e parabéns por isso, o autor não tenta explicar nada. O fim é ótimo.

Betty Vidigal

− Muito bom o começo. Me fez rir, e levar o leitor rir é coisa que pouca gente consegue. O clima farsesco bem divertido. No final, o loop temporal de o santinho conter a profecia ainda antes que ela tivesse sido feita é ótimo, meio Stephen King.
Delirante demais isso de ovo, bolsa, bebê – mas enfim: vai saber o que veem os profetas, quando em transe, né?
− Tem que ter alguma explicação de como foi que a mulher dele chegou à “hospedaria”.

João Paulo Hergesel

É uma crônica até o momento em que o agem resgata o santinho de dentro do seu organismo. Irrefreavelmente, o texto assume outro estilo narrativo, outro nível linguístico, outro peso, e passa a ser conto. Essa troca brusca da leveza do humor pelo registro de memória é perigosa: leva a crer que houve dois autores, com propósitos diferentes, trabalhando na mesma obra, sem sintonia e desconsiderando o processo de harmonização. O fato de ser uma perspectiva onírica não justifica o lapso; ao contrário, enfraquece a obra por não esclarecer, logo no início, que se tratava de um sonho. Já dizem os manuais de escritores: tentar livrar-se das afrontas à lógica apoiando-se na desculpa do sonho é decretar falta de criatividade. Em resumo: gostei da crônica inicial, gostei do conto central, desgostei da junção dessas duas peças, desiludi-me com o desfecho.
Considerações estilísticas:
1) A oração “Agora vejo em cima da cadeira um grande ovo” cria uma intertextualidade arriscada com o conto de Clarice Lispector: as ideias são outras, os propósitos são outros, o modus operandi da história é outra.

Oswaldo Pullen

Os primeiros raios não podem ser de sol de meio-dia. O conto é de mau-gosto, e se utiliza de palavras de baixo calão, o que poderia ter sido evitado facilmente. E, por fim, botar Dom Bosco deste jeito na estória…

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão  9,1
Ana Vilela  10,0
Betty Vidigal  8,5
João paulo Hergesel  7.5
Oswaldo Pullen  7,0
Total  42,1