Malandrinha

K

Cerveja na mão. Cigarro na outra. Passeio acaba na Igrejinha. Ah, Malandrinha…
– Cê vai fazer algo hoje à noite?
Última tragada. Joga a bituca no cantinho da parede revestida de cerâmica. Anjos caídos em formato de pássaros brancos; ao fundo, azul celeste. Um deles agora beija a bituca: já passou pela boca da Malandrinha. Outro anjo então recebe o duro afago de sua mão, que apoia um corpo curvilíneo, um pouco torto, baixa estatura, profundidade abismal.
Dois seios apontam na direção de um jovem ruborizado pelo convite. Mão no bolso, olhos fogem do confronto. Malandrinha continua firme, levemente curvada para trás, olhos negros escondidos por uma madeixa de cabelo ruivo. A fera observando sua presa.
– Não sei ainda… alguma sugestão, Malandrinha?
Estou no Brasil há mais de um ano. Não sei o que me deu. Acho que não deveria ter nascido na Alemanha. Gente fria, sorrisos raros. Aqui todos chamam todos de amigo. E eu gosto de amigos. Eu me esforço. Acontece que…
– Você é bem paradão, né?
Não, eu não estou conversando com Malandrinha. A pergunta foi dirigida a um rapaz fraquinho de óculos, todo tímido, nas garras da bandida. Eu? Estou apenas observando.
Sei tudo sobre Malandrinha. Dos seus passeios noturnos, dos rapazes e das meninas. E de todo mundo junto. Muito se vê de um apartamento a outro. As pessoas felizes, a coisa pegando fogo. Ela sempre começa abrindo o último botão da camisa: é o sinal.
– Podemos nos ver amanhã de novo?
Ela não perdoa.
– Amanhã é mais caro.
O rapaz sente a pancada, mas não sabe reagir. “Tudo bem”, ainda mais ruborizado.
– Você me busca aqui na Igrejinha amanhã às onze, beleza?
Ele acena com a cabeça, positivamente, movimentos rápidos, trêmulos e curtos. Não tenho dúvidas de que ele jamais fez o que está prestes a fazer: o comportamento do moço faz-me lembrar…
Passeava eu a esmo, conhecendo a cidade. Recém chegado. Conheci Malandrinha no Relógio de Sol do Parque da Cidade. Jaquetinha de couro surrada, óculos Ray-Ban, cigarro mentolado. Um colar dourado procurando lugar entre duas protuberâncias generosas. Uma linha entre elas vinha exposta entre os espaços dos botões abertos da camisa cor de carmim.
Desde então, há mais de um ano, ocupo-me de sua vida.
Na primeira vez Malandrinha não cobrou nada. Fiquei feliz: apaixonado. Malandrinha só começou a cobrar depois que notou que eu acompanhava os seus passos. Então, ela me deixa observá-la, e eu pago por dia.
Agora que despachou o rapaz, ela vem em minha direção, acendendo cigarro, jogando garrafa na calçada.
– Mais um otário nerd em busca de uma aventura que não deseja…
– As pessoas desejam mais do que sabem, Malandrinha.
Olha de soslaio, tragando.
– E tu não me venha com mais conversinha que eu já tô de saco cheio de papo merda hoje…
Ela nunca se despede. Dessa vez, caminhando, parece ter sido atingida por um espasmo elétrico, como se uma grande ideia tivesse ocorrido. Virou-se repentinamente:
– Você quer me ver amanhã com esse prego?
Ela sabe que eu gosto. Aceito na hora. Vai ser na casa dela. Eu quero ver.
Malandrinha nunca me deixou entrar lá. Já a levei até à porta. Nada. Ela abre a porta e entra: nunca se despede. Sai cheiro de terra daquele local iluminado por luz amarela.
Da janela do meu apartamento minha rotina é ver a antirrotina de Malandrinha. Chamas ruivas dançam pelo desenho curvado de suas costas: cada vértebra reverbera. Só não vejo seu quarto: aí está o mistério. Satisfação quando a festa começa na sala. Chega sempre o momento em que ela migra ao aposento oculto. Então só me resta devaneio, masturbação e sono.
Dessa vez eu quero ver.
Pontualmente às onze estou na Igrejinha. Boca seca. Alguns metros me separam de um rapaz magrelo movimentando-se freneticamente de um lado para o outro. Uma hora nos separa de Malandrinha: ela sempre atrasa. Ela sabe que estamos esperando. Sai de um táxi, um beijinho no motorista, olha para mim de relance, andando em direção ao menino de óculos. Logo está em outro carro, saindo.
Eu sei onde Malandrinha mora e combinei com ela, antes de tudo, os sinais da festa. Chego na entrada do apartamento: a porta aberta. Subo até o sexto andar. Passos no corredor, de par em par, risadas sinuosas circulam o corrimão de ferro. Aguardo a porta fechar. Alguém abre uma cerveja. “Relaxa, boy”, ouço: ouvido colado na porta. Um zíper é aberto. “É aqui, é?”. Cadarços desamarrados. Fivela da cinta. Ouço o suor frio do rapaz. Ouço o cheiro molhado em suas calças. “Apressadinho…”. Malandrinha não perdoa.
Pelo lado de fora ouço a porta do quarto sendo aberta. O rapaz começa a ofegar. Passos curtos em direção a um inferno particular. Fecha a porta. Minha vez.
Abro com leveza a porta da frente. Aquele cenário já vi bastante. Sei cada detalhe, cada pacotinho de preservativo, cada agulha usada. Agora eu quero ver mais. Da sala ouço ela falar, de dentro do quarto: “hoje vou te mostrar alguém especial”. Malandrinha então abre a porta que me separava do aposento misterioso.
Quarto iluminado por luz vermelha, livros e livros espalhados no chão, velas pretas e incenso numa mesa. Ao fundo, painel de azulejos baratos formando mosaico. Um menino apavorado dá um salto, gruda suas costas na parede. Os mosaicos agora envolvem seu corpo, derretendo, fundindo-se à réplica barata à AthosBulcão. Malandrinha olha para mim, profundo. Abre o último botão da camisa.
– Ah… Malandrinha…

Contagem:  917 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Gostei muito do ritmo do texto, pleno de vitalidade e emoção. Reconheço a criatividade das estratégias de construção utilizadas, em especial a dessacralizção da igrejinha e a banalização dos azulejos de Athos Bulcão. Muito sugestivo o trabalho realizado com o universo dos sentidos nas cenas apresentadas. Malandrinha é uma personagem carismática, bem caracterizada, que cresce ao longo do texto. Impossível duvidar de sua realidade. Parabéns, K!

Celso Bächtold

Notei um certo descompasso no texto ao analisá-lo como um todo. Como exemplo, o autor descreveu minuciosamente o caráter reservado do personagem e a sua frustração para com o seu nome, mas, por outro lado, citou sucintamente o sequestro da camareira, um fato importante para o ápice do conto. Sugiro ao autor analisar previamente a importância de cada fato no contexto geral, e assim desenvolver seu conto.
Achei o entrecho muito interessante e inusitado, haja vista o objeto-chave sugerido neste desafio ter sido utilizado de uma forma tão criativa e surpreendente.

Paulo Fodra

Perfeita adequação ao tema, sem recair em soluções fáceis. Narrativa tensa, com um bom clima. Depois de criar tanta expectativa, o final acaba decepcionando. Poderia trazer uma revelação, ou até mesmo um anticlímax. Se o autor buscava esse efeito, acabou ficando só na intenção.

Roberto Klotz

Cometeu o pecado repetir “Malandrinha” 18 vezes. Inspirada e sinestésica frase “Ouço o cheiro molhado”. Este conto foi diferenciado, original. Poderia ser mais enxuto.O beijinho no motorista é inverossímel.

Simone Pedersen

O conto é muito criativo. Personagens ricos e final surpreendente. O desenvolvimento do conto é estimulante. É preciso atentar para os elementos do desafio: cenário, personagem e objeto-chave.

Nota

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,5
Celso Bächtold 9,3
Paulo Fodra 9,0
Roberto Klotz 8,0
Simone Pedersen 9,0