Maldito Crachá

Clara Lua

Violeta Paes chegou à Praça dos Cristais bem antes das 16 horas. Não que fosse ansiosa para encontros, às vezes até fazia questão de que esperassem por ela. Menina pobre que tinha sido, grudava os olhos em revistas chiques, admirando as madames com suas roupas caras. De uma coisa sempre esteve certa: ela era
,bonita, e não viveria eternamente na pobreza. Trabalhou arduamente. Gastou o primeiro salário inteirinho para comprar um tailleur discreto, mas chique, de qualidade. De forma igual, o segundo salário foi direto para uma loja de sapatos finos e assim por diante até estar apta para se apresentar em uma entrevista para um emprego melhor. Sabia que o vestuário era fundamental. O restante ela já possuía, pois era inteligente, leitora voraz, era linda de rosto e de corpo.

Conseguiu o emprego. Mais tarde conseguiu outro melhor, e mais tarde ainda, casou-se com Juvêncio Paes, o dono da empresa em que trabalhava. O cara babou pela menina. Violeta havia acabado de completar vinte e dois anos e o marido, sessenta e dois. Durante algum tempo, ela conseguiu ser fiel. Teve pena do homem que não media esforços para realizar seus mais ardorosos caprichos, e Violeta transformou-se numa dondoca, conseguindo até aparecer naquelas revistas que ela tanto gostava de admirar. Juvêncio era um amor, mas Violeta era de uma natureza singular, como tudo nela. Não era mulher de sentimentos mornos, nem de sexo comportado. Para dizer a verdade, Violeta era insaciável e Juvêncio estava longe de lhe corresponder a contento. Logo a moça tratou de arrumar um amante, era inevitável.

Não querendo perder a boa vida de dondoca, Violeta era muita cuidadosa ao escolher os amantes que os oportunos sites de sexo casual lhe forneciam. Conheceu um cara que amou. Cabelos loiros bastos, olhos azuis, corpo másculo, enfim, a moça não via a hora de concretizar o encontro com Eduardo, era este o nome do bonitão. Ele marcou com ela na Praça dos Cristais para assistir a uma palestra sobre “Como tirar o melhor da vida”, ou algo parecido.

Violeta chegou à Praça dos Cristais e admirou-se de nunca ter ido a um lugar tão lindo! Passeou por toda a Praça, ficou mesmo fascinada com o espelho d’água, refletindo os blocos lembrando cristais. Sentou-se um pouco no gramado, tirou os sapatos, bocejou, teve o desejo de deitar-se na grama, lembrando-se de uma foto de Clarice Lispector assim, de óculos escuros, olhando para o céu, mergulhada em algum mistério sublime. Cochilou. Num raro momento de epifania, Violeta sentiu que havia outras boas coisas na vida que não fossem apenas sexo ou exibir-se no Facebook. E ela estava exatamente naqueles minutos experimentando um novo prazer: o prazer de ser simplesmente.

Ao virar-se para se levantar, avistou um crachá perdido no gramado. Surpresa, viu que era de Juvêncio Paes, isso mesmo, seu marido. Examinou atentamente a foto de Juvêncio. Estava diferente. Era ele e não era. Talvez fosse o olhar, ou o modo de apertar os lábios, não podia precisar. Afinal, quem era este homem que ela tanto negligenciara conhecer? Em seu afã de esconder dele particularidades de sua própria vida, pecara por não conhecê-lo bem. Examinou novamente o crachá, sentindo grande interesse a respeito do marido e seus segredos. Não entendia como podia se interessar pela foto de um homem que já conhecia, ou talvez não? Sem entender exatamente a razão, encantou-se por algo nele até então desconhecido para ela. O fato é que o crachá do marido de repente se convertera numa armadilha de amor para Violeta. Essas conjecturas lhe faziam doer os olhos, as têmporas e o coração. Ah! Maldito crachá que a fazia prisioneira de um sentimento inexplicável!

Violeta levantou-se e examinou a Praça. Caminhou com cuidado, pois não queria ser vista, nem pelo marido, nem pelo amante. Mais para o fundo de algumas árvores avistou o marido e uma mulher. Eles curtiam um vinho numa toalha xadrez com taças e tudo. Violeta escondeu-se para poder ver melhor. A mulher era mais velha, madura, charmosa. Ambos estavam se divertindo numa cumplicidade que ela nunca tivera com ele. Juvêncio parecia diferente, mais jovem, feliz! Pela primeira vez via o marido de uma forma totalmente nova. Eles examinavam um livro, falavam, riam, e ela flagrou-o acariciando os cabelos da mulher. Juvêncio tinha uma amante! Esta descoberta caiu sobre Violeta como um meteorito!

Não podia dizer que estava com ciúmes. Não. Isso não. Mas algo dentro dela doía como uma costela quebrada. Sempre trouxera a fidelidade do marido como certa, sua adoração por ela era incontestável. No entanto, aquela mulher mais velha era especial para ele. Em meio a essas reflexões avistou Eduardo que procurava por ela. Escondeu-se daquele feixe de músculos. Só tinha olhos para o marido.

– Que diabos está acontecendo comigo? De repente me apaixonei por Juvêncio? Ou pelo mistério que envolve seu crachá?
Nada mais sabia de si, nem dele. Sentia-se fraca, trêmula, desconhecendo-se por completo. A cada minuto seu amor por Juvêncio parecia aumentar. Abraçou o maldito crachá do marido como se fosse um tesouro, como se fosse o próprio Juvêncio que ela não podia perder, agora não mais como uma segurança financeira, mas pelo homem que era. Saiu furtiva da praça e foi para casa. Confusa, lutava contra uma dolorosa sensação de perda que assolava seu corpo e sua alma. Sentia-se atingida por um terremoto 8.9 na Escala Richter. Precisava reavaliar sua vida, valorizar o que era importante. Trataria de reconquistar o marido, custasse o que custasse.
Naquela noite, quando os dois jantavam, pesou um angustiante silêncio. Ela não se lembrava de como jantavam antes, se conversavam, do que falavam. O marido parecia triste. Ela procurou um assunto. Inútil. Não se lembrava de nada para dizer. Finalmente ele quebrou o silêncio:

– Violeta, quero a separação.

Contagem: 961 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Não me empolgou em momento nenhum. Há alguns lugares comuns que incomodam (“trabalhou arduamente”), e em alguns pontos a linguagem lembra a dos livrinhos tipo “Sabrina”, coisa assim.
Sugestões específicas:
1) “Não querendo perder…”: acho que é sempre melhor, podendo, usar a forma afirmativa. “querendo manter…”, por exemplo.
2) Tem um errinho bobo de digitação, nada de sério, onde você deixou “muita cauidadosa”.
3) Em alguns pontos você usa “ele” e “ela” seguidamente e soa esquisito, pel menos para o meu ouvido. Às vezes não dá para evitar, mas às vezes dá. Por exemplo, “Ele marcou com ela (…)” ficaria bem melhor como “Marcaram (…)”.
4) “Ou pelo mistério que envolve seu crachá?”. Ora, que mistério? Não percebo no texto mistério nenhum: é só um crachá perdido.

Cinthia Kriemler

A história cumpre o desafio. Traz todos os elementos solicitados. A história de se apaixonar pelo crachá soou um pouco forçada, mas foge do comum. O final, que traz uma espécie de moral do tipo: “Bem feito”, ou: “Que ironia, no momento em que ela percebe que gosta dele, ele pede a separação”. Mas de modo geral está correto.

Marco Antunes

Todas as más qualidades da carpintaria lietrária já se mostram no primeiro parágrafo: a linguagem sem nenhum colorido estilístico, as repetições de palavras com grande proximidade como em “até estar apta para se apresentar em uma entrevista para um emprego”, a baixa percepção do valor do párágrafo já que há pelo menos dois aí: um que termina em “com suas roupas caras.” E outro logo após o ponto “De uma coisa sempre esteve certa”. Notei a pobreza de resumos canhestros em expressões como “e assim por diante” e, por fim, o paralelismo deselegante presente em “O restante ela já possuía, pois era inteligente, leitora voraz, era linda de rosto e de corpo.”
Já no parágrafo seguinte, segue com a linguagem fraca e o estilo pobre ao formular a obscura expressão “mais ardorosos caprichos”. Depois, segue o caminho dos malfeitos estilísticos com trechos como este: “naquelas revistas que ela tanto gostava de admirar”, em que acrescenta a desnecessária expressão “de admirar”, podendo a frase ficar mais fluida com uma simples modificação: “naquelas revistas de que ela tanto gostava”. Às vezes, o estilo, que é sempre inexistente ou muito ruim, ganha ares ridículos como ao escolher a protocolar expressão” “a contento”, mais adequada a um ofício, no trecho: “Violeta era insaciável e Juvêncio estava longe de lhe corresponder a contento.” No parágrafo seguinte, há um esmero de equívocos que vão do clichê à má pontuação: “Não querendo perder a boa vida de dondoca, Violeta era muita cuidadosa ao escolher os amantes que os oportunos sites de sexo casual lhe forneciam. Conheceu um cara que amou.” Termina o terceiro parágrafo com o trecho “ou algo parecido.” – Estranho já que, até então, não faltou nenhuma informação ao narrador. Por que não saberia exatamente essa informação? Continuar apontando a pobreza de estilo seria redundante, então passemos à análise do conto propriamente dito: a narradora poucas vezes liberta a ação e permite que o leitor a veja com seus próprios olhos, isso enfraquece em muito o conto. O conflito central, provocado pelo encontro do crachá, não me convenceu absolutamente, pois não houve tempo narrativo suficiente (ou movimentação interior relevante da personagem) para justificar ou credenciar bem a súbita atração pelo marido. A vista por entre as árvores, porém, foi convincente e o final excelente. Sente-se que a autora tem o impulso narrativo do contador, mas a inexperiência com o objeto literário pesou e pesou muito na tibieza deste conto. Por ora, aconselho apenas muita leitura de bons contistas.

Nálu Nogueira

Achei pouco convincente a história envolvendo o crachá. Primeiro, porque Juvêncio foi apresentado como dono da empresa – e donos raramente usam crachás de identificação. Depois, o amor-miojo que eclodiu em 3 minutos e se tornou avassalador, apenas por olhar um crachá, isso também não me convenceu.
O(a) autor(a) escreve bem, mas o conto está todo solto, sem muita lógica e sem uma proposta firme — se houve essa intenção, não se concretizou. Outro fato que me incomodou foi a personagem frívola e amante de grifes simplesmente sentar-se à grama com suas roupas caras… mesmo com a epifania, com o desejo de “simplesmente ser”, ainda assim me remeteu a uma personagem mal pensada e mal costurada. O autor poderia ter explorado várias possibilidades — Juvêncio não é dono de empresa, é um funcionário e ela descobre; Juvêncio não é Juvêncio, é um ladrão de joias ou traficante de drogas que usa a identidade de um trabalhador… Qualquer coisa teria sido mais plausível do que a solução que deu ao conto. Repito: o(a) autor(a) escreve bem, mas faltou imaginação, penso, para o desafio.

Wilson Pereira

O conto atende à proposta. Está bem estruturado, seguindo uma linha narrativa sequencial e interessante. No entanto, falta ao texto mais vigor. A linguagem não alcança um nível literário superior. E há um clímax um tanto piegas, quando a moça volta a se apaixonar pelo marido velho.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 7,5
Cinthia Kriemler  9,2,
Marco Antunes  7,0
Nálu Nogueira  7,5
Wilson Pereira 8,2
Total 39,4