Mistério da vida

Pontiac

Abre os olhos. Por instantes, fica sem saber onde está. Olha ao redor. Aos poucos, vai retomando a consciência. Está num quarto de hotel em Brasília. Chegara na noite anterior, vindo do Nepal. No domingo estava entre os monges, meditando.
Aquele sonho ainda o perturbava. Não o desta noite, mas o que o motivara a vir ao Brasil.
Tenta colocar em ordem os últimos acontecimentos. No sonho, percorria uma trilha através de uma densa floresta. De repente, um nevoeiro forte o fez parar: não enxergava um palmo à sua frente. Do meio do nevoeiro, surgiu um padre, apontando para um túmulo ao lado da estrada. Na lápide, uma inscrição: “Francesco Bosco; 15/20”. Acordou sobressaltado. Pulou da cama e correu para o computador. Na primeira pesquisa que fez no Google sobre “Francesco Bosco”, apareceu o padre italiano Dom Bosco, fundador dos salesianos, cujo pai se chamava Francesco. Incluiu na pesquisa os números. Ficou sabendo que se referia às coordenadas do sonho-visão de Dom Bosco, que previra o surgimento de uma cidade no centro-oeste brasileiro, onde jorraria leite e mel.
Quase nada sabia sobre Brasília até então. Conhecia Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, embora nunca tivesse vindo ao Brasil.
Lembrou-se de Greg, seu amigo brasileiro, com quem tinha compartilhado inúmeras aventuras mundo afora, desde que se embrenhara pelo estudo das Ciências Ocultas.
Greg já o convidara diversas vezes para conhecer o Brasil, mas nunca havia pensado nisso.
Pegou o telefone e ligou para o amigo.
Após algum tempo, atende uma voz sonolenta:
— Alô? — Greg? É Rudolph.
— Rud? O que aconteceu para ligar a essa hora?
— Desculpe, amigo. Estou no Nepal. Esqueci do fuso-horário. Terça-feira chego ao Brasil. Você pode me encontrar em Brasília?
— Rud… Você está vindo para o Brasil? O que deu em você?
— Greg, recebi uma missão do meu guru. Preciso ir a Brasília. Você está no Brasil?
— Rud, estou no Brasil sim. Mas você tem noção do tamanho deste país? Eu moro em Manaus. Hoje eu ia embarcar para um rali no Jalapão. Mas é claro que vou cancelar minha viagem e esperar você em Brasília. Não vou deixar de recebê-lo, meu amigo alemão.
Aquelas palavras o tranquilizaram. Como poderia andar em Brasília, sozinho, sem falar português?
Nas mais de vinte horas de voo até Brasília, procurou estudar tudo sobre a cidade.
Precisava saber por onde começar sua busca e onde procurar aquilo que nem ele sabia o que era.
Rudolph era obcecado por Misticismo, Ocultismo, Esoterismo, segredos da vida. Sua obsessão aumentou depois da aposentadoria. O casamento de trinta anos também chegou ao fim. Depois que ganhou um prêmio milionário na loteria, apostando nos números soprados num sonho por seu guru, passou a ter tempo e dinheiro para seguir seu guia espiritual, a quem obedecia cegamente. Agora vivia a percorrer o mundo, à procura de autoconhecimento, tentando desvendar os mistérios da vida.
Na pesquisa, durante o voo, descobriu que Brasília era o centro do turismo místico e religioso do país. Então teve certeza de que estava no caminho certo. Leu sobre o Vale do Amanhecer, o Templo da Boa Vontade, a Cidade Eclética, os centros de energia esotérica da capital. Mas acreditava particularmente que a resposta para o seu sonho estaria na Ermida Dom Bosco ou no Santuário Dom Bosco, por razões óbvias.
— E aí, Rud? — cumprimentou Greg, estendendo-lhe a mão e um sorriso.
— Por onde começamos? O alemão lhe falou sobre Dom Bosco.
— Então vamos primeiro ao Santuário, que fica a duas quadras daqui, sugeriu Greg. — De lá, vamos à Ermida. Rudolph gostou dos monumentos, mas não encontrou nada que lhe chamasse a atenção ou que tivesse relação com o sonho.
Voltaram ao hotel. No saguão havia um panfleto que alguém deixara cair. Rudolph pegou o papel e perguntou a Greg o que estava escrito.
Era sobre uma feira mística no Pavilhão de Exposição do Parque da Cidade.
— Vamos imediatamente pra lá, disse Rudolph, puxando o amigo pelo braço. Greg concordou: sabia que o alemão era obsessivo e não queria contrariá-lo.
Quando chegaram, Rudolph ficou encantando com o parque. Ao longe, viu uma aglomeração perto de um lago. Ali havia um monumento. Perguntou a Greg o que era aquilo.
Greg fez a mesma pergunta a um homem que estava ao lado. O homem disse que ali era o Lago dos Gansos e o Relógio de Sol do Parque da Cidade, mas que não sabia o porquê daquela aglomeração em torno do relógio.
Movido por intuição, Rudolph quis ver de perto aquela pequena multidão. Atravessaram o parque a pé e se aproximaram.
Estava havendo um protesto ali. Os jovens manifestantes, empunhando cartazes, gritavam palavras de ordem, protestando contra a demolição da sede social do Clube do Congresso, onde havia obras de Athos Bulcão.
Rudolph quis saber mais sobre o caso.
Greg conversou com o líder dos manifestantes. Ele relatou que a sede social do Clube do Congresso seria demolida para a construção de um edifício moderno. Três obras artísticas de Bulcão virariam ruína, principalmente os dois painéis de azulejos que decoravam a parede da sauna. Rudolph sugeriu a Greg ir conhecer o Clube.
Ficou impressionado com os painéis. Procurou saber que seriam feitas daquelas peças. O responsável pela demolição disse que os azulejos estavam à venda e que seria fácil a retirada intacta de no mínimo 95% dos azulejos.
Rudolph agora descobrira a razão de ter vindo ao Brasil.
Já há algum tempo, decidira construir um santuário para o seu guia espiritual, no quintal de casa, na Alemanha. Seu guru queria as paredes revestidas pelos azulejos de Bulcão, por isso o mandara ao Brasil.
Acertou o preço, resolveu questões alfandegárias e contratou uma transportadora para levar a encomenda num contêiner de navio para a Alemanha.
Dois meses depois ele recebe em casa um carregamento. Abre as caixas: lá dentro, peças novas, bem embaladas de azulejos pirata de Athos Bulcão, e um bilhete que dizia: “Não foi possível o aproveitamento dos azulejos dos painéis. Substituímos por estas peças novas. Esperamos que não se importe”.

Contagem:  995 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

Tal como o autor anterior, abusou da família “aquele” com sete ocorrências. O primeiro “aquele” não se refere aalgo anterirmente dito então quase toma o papel de adjetivo. Foi o único em 138 contos que abordou o sonho de Dom Bosco apontando pesquisa e orignalidade. Não é muito verossímil, apenas por amizade, deixar de participar de um rally que exige muita preparação.Precisava ter credenciado melhor a amizade entre os personagens. A palavra curiosidade encaixaria melhor que intuição em “Movido por intuição”. Bom fechamento.

Ana Vilela

O texto está bem escrito, mas o enredo é fraco. Trechos como este “Depois que ganhou um prêmio milionário na loteria, apostando nos números soprados num sonho por seu guru, passou a ter tempo e dinheiro para seguir seu guia espiritual, a quem obedecia cegamente” podem não convencer o leitor. Até poderia estar em um conto propositalmente clichê ou algo assim, mas não é o caso.
“Rudolph agora descobrira a razão de ter vindo ao Brasil.” Também não convence. Do nada, assim? Talvez algo sobre azulejos devesse estar inserido no sonho ou o trecho “Já há algum tempo, decidira construir um santuário para o seu guia espiritual, no quintal de casa, na Alemanha. Seu guru queria as paredes revestidas pelos azulejos de Bulcão, por isso o mandara ao Brasil” pudesse ser antecipado. São somente ideias. É que estas informações estão na cabeça do escritor apenas. Ao escrever, é necessário saber que o leitor não tem as suas informações, o que não quer dizer que o texto deva ser óbvio. Pelo contrário. Muito pode nem mesmo ser dito, apenas insinuado e o leitor, direcionado. O conto precisa ser “verossímil” até no realismo fantástico. Como? A sua construção deve fazer sentido em si mesma, não para a realidade aqui fora.
O fim também precisa ser melhor trabalhado. Não é algo que pega o leitor em cheio, seja pelo susto, seja pela sensibilidade. Talvez fosse interessante voltar à ideia do sonho…

Betty Vidigal

revisão:
● ficou sabendo que se referiam. (e não “referia”)
●jorrariam leite e mel. (e não “jorraria”)
●“já há algum tempo decidira” – “há” é presente. Se ele decidira, foi no passado. Você precisa aí de um verbo no passado. “Havia algum tempo decidira”.. Mas ficaria melhor com “algum tempo antes”, “fazia algum tempo que decidira”… Outro fraseamento.
●Como você usou verbos no presente, no início do conto, talvez seja melhor dizer “Rudolph é obcecado etc”. Porque alguns eventos são no passado, em relação ao momento do conto, mas, se ele era obcecado e está indo a Brasília por isso, então ele ainda é obcecado. Na mesma categoria, é melhor dizer que BSB “é” o centro do turismo etc, e não “era”. Porque , se era, continua sendo…
●“que seriam feitas daquelas peças” – o correto é “o que seria feito daquelas peças”.
●“seria fácil a retirada intacta de no mínimo 95% dos azulejos.” – Melhor “seria fácil a retirada de no mínimo 95% dos azulejos intactos”. Mesmo assim, não é o ideal. Tem jeito melhor de dizer isso. De qualquer forma, não é a retirada que é intacta, no caso. Sugestão: “seria fácil a retirada do painel, preservando intactos quase todos os azulejos”.
Tinha ouvido falar em Rio, Salvador e Manaus, mas não conhece São Paulo nem de ouvir falar? Que estranho…
— Não parece plausível que o amigo cancele a partcipação no rali no Jalapão, certamente com passagem comprada, para receber o protagonista… Possível, mas não provável. E você não precisava desse detalhe! Claro que detalhes deixam a estõria mais convincente. Mas podia inventar outro.
— O guru e o guia espiritual são a mesma pessoa? Não ficou claro.
– Brasília é o centro do turismo místico e religioso? Ué… se dissessem que é Salvador, eu concordaria, embora nunca tenha pensado no assunto. Mas me ocorrem primeiro São Tomé das Letras, Aparecida…
— O final é bom. Não é “um” azulejo pirata, como o desafio pediu, mas é bom.
— No todo, o conto está mais longo do que precisa ser. Tudo muito detalhadinho, muito tim-tim por tim-tim, tanto as descricões quanto as conversas.
— Fez falta algo que indique que eles estão conversando em alemão. A expressão “e aí?”, por exemplo, eminentemente brasileira, não deveria ter sido usada. A menos que algo explique por que um alemão disse isso para outro.
— Por que Greg conhece tão bem BSB, a ponto de saber que algo fica a dois quarteirões de onde estão? Ok, eles têm um guia…

João Paulo Hergessel

As ações começam, de fato, quando Rudolph chega a Brasília e encontra os manifestantes; o que antecede esse ponto pode ser considerado um trecho introdutório. Eis o primeiro problema: é uma introdução muito longa, que deixa o leitor sem parâmetro de o que será contado e qual é o motivo de essa história existir. Também existem algumas falhas, como: após uma conversa telefônica toda em português (sem indicações de que se tratava de uma tradução com licença poética), o narrador afirma, paradoxalmente, que o personagem não conhece nenhuma palavra da Língua Portuguesa. É preciso ter cautela para evitar esses equívocos. O texto traz ainda informações geográficas bastante ricas para determinar a ambientação; no entanto, muitos dos pontos mencionados não são universalmente conhecidos, e a rápida enumeração deles faz com que a o mapa mental se torne etéreo no imagnário do leitor. Talvez fosse o caso se selecionar alguns pontos e aprofundar o que são cada um deles. O desfecho é ótimo, com o “jeitinho brasileiro” de resolver as coisas; mas funcionaria perfeitamente num conto significativamente mais curto.

Oswaldo Pullen

Algumas perguntas surgem durante a leitura do conto, como por exemplo, de onde apareceu a passagem para o Brasil? A vinda para o Brasil foi determinada pelo sonho ou por orientação de um guru que não é apresentado? Em que época se passa o conto, já que se faz referência a uma desmontagem da sede social do Clube do Congresso?
O desfecho parece só ter sido inserido para justificar o azulejo falsificado, solicitado na proposição do conto.

Notas

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 8,0
Ana Vilela 7,0
Betty Vidigal 9,0
João Paulo Hergessel 7,5
Oswaldo Pullen 8,0