Muitas Apreensões

Eclipse Penumbral

Como descrever a correria? Formigueiro desmoronado? Briga de torcidas? A blitz para apreensão de menores tinha acontecido pela manhã na Rodoviária, e Speed, com agilidade incomum naquele horário, tinha se favorecido pela falta de dinheiro e abstinência momentânea do crack. Ainda teve tempo de agarrar a mochila roubada um dia desses de um alemão e correr rumo ao Conjunto Nacional. O objeto preto tinha se tornado um troféu pelo qual ele já tinha brigado mais de uma vez. Mais do que o tecido acolchoado que podia se travestir de travesseiro, ele era continente de uma preciosidade azul, o azulejo do Bulcão.
Nunca antes em sua curta vida Speed tinha se apegado a algo como agora se apegava a esse azulejo. Sua experiência mostrava que os objetos trocavam de donos, que a posse era sempre transitória, que o apego era reles ilusão. Mesmo assim, desta vez a atração tinha superado sua escolha pelo “carpe diem”. E a mochila passara a ser sua prioridade número um. Ele nem sabia que estava agindo dessa forma, ele simplesmente vivia assim. A mente embotada de drogas nem permitiria o desenvolvimento de muitos pensamentos coerentes e conectados, Speed vivia intuitivamente, a palavra sendo o excesso.
Leila vinha saindo do Conjunto Nacional quando viu Speed perambulando por ali. Mesmo depois de tantos anos sem o ver ela o reconheceu por baixo da camada de sujeira e desmazelo. Ele, assim distraído, sentiu seu olhar sendo magnetizado pela linda mulher que o fitava curiosa, linda e muito chique aos olhos dele. A filha da patroa da mãe, na casa de quem ele tinha passado algumas tardes, a única pessoa que olhava para ele naquela casa, aquela que lhe oferecia sorvete. Oi, Speed. Como vai a sua mãe?
Antes mesmo de ouvir a resposta, Leila percebeu a apreensão do rapaz com a aproximação do segurança. Enlaçou o braço dele e passou-lhe as sacolas. Me ajude a levar até o carro. Mesmo de saltos altos Speed era agora um palmo mais alto que ela. Eu me casei, Speed, já tem três anos. Ele é dez anos mais velho que eu e eu não sou feliz. Eu nem consigo beijá-lo mais. Quando falo em separar ele me diz que é só uma fase ruim no casamento, que vai passar, que é feliz comigo. Mentira, eu sei que ele mente. Me enche de presentes. Vou te contar um segredo. Estou apaixonada por outro.
Leila falava e falava como se tivesse encontrado com sua amiga mais íntima, aquela que nunca chegou a ter. As meninas a invejavam na escola, ela era a mais bonita, a mais atraente. Ela se vingava roubando os namorados das mais antipáticas. Abriu um pacote de biscoitos gourmet e o colocou nas mãos de Speed, com a mesma condescendência que sempre usou com ele. Parecia que ele ainda era um menino e ela uma mocinha namoradeira. Vamos comigo até a Praça dos Cristais, entre no carro. Speed entrou sem mesmo saber onde era a tal praça. Se soubesse onde era talvez hesitasse.
Ouvia e apreendia as informações que Leila oferecia candidamente. Seu endereço na super quadra e o nome do marido. Olhava o decote generoso da blusa justa de Leila e sentia o medo ancestral do macho pela fêmea, o medo da “vagina dentata”. Ele ainda não conhecia uma mulher no sentido bíblico. Tinha sido violentado por um agente da Unidade, castigo comum nesse centro de reabilitação. Para se masturbar pensava em mulheres como Leila, sua paixonite de infância. Mulheres pequenas, delicadas, cheirosas e provocantes. Lembrava-se dela esmaltando lentamente as unhas dos pés em vermelho enquanto fingia ver um programa na televisão. Ele sempre pensava nela assim. Acocorada, de shortinho, pintando as unhas dos pés.
Enfim chegaram onde a moça queria ir. Ela estacionou o carro e disse a Speed que ele poderia conhecer a Praça dos Cristais ou a concha acústica se quisesse. Ela iria entrar no Quartel do Exército atrás do Major Lourenço, eles precisavam decidir suas vidas e ele a estava evitando. E tinha que ser hoje.
Speed caminhou curioso na grande área que circundava o espelho d’água. Não teria escolhido ir até a área militar, mas ali estava tranquilo. Ele resolveu que o melhor era ir se camuflando nas árvores sem chamar a atenção das pouquíssimas pessoas que por ali passeavam. E foi dali que ele viu Leila ser barrada no portão e em pouco tempo vir caminhando junto a um oficial alto, fardado. Os dois pareciam discutir, Leila elegante em seus sapatos salto 12, o major negando com a cabeça. Eles iam em direção aos cristais de concreto que emergiam da água, porém, repentinamente o major segurou no braço de Leila e retornou pelo caminho de onde tinham vindo. Algo caiu no chão.
Sorrateiramente Speed foi se aproximando do local e ali encontrou um crachá, um crachá de acesso ao Ministério da Defesa. Isso certamente valeria alguma coisa, ele sabia quem poderia se interessar. Olhou Leila de longe agora, delicada como uma bailarina, os cabelos louros compridos brilhando ao sol.
Ele não estava longe da Rodoviária, voltaria caminhando. A mochila estava no carro, mas ele sabia onde busca-la. Ninguém melhor que Leila para cuidar do seu precioso azulejo. Speed estava ficando inquieto, precisava da sua dose matinal. O acaso não existe, Leila seria sua. Speed esboçou um sorriso com a apreensão de si próprio.

Contagem: 889 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto surpreendente. Personagens contrastantes, credenciados com competência. Sutilezas bem trabalhadas. O desfecho, original, revela uma certeza e uma urgência. Bem bolado.

Celso Bächtold

O texto é quase que linear, e não há um ápice que faça a diferença no contexto geral do conto, nem um encerramento que satifaça a curiosidade do leitor, deixando-o incompleto com relação a esse episódio que parece ser o primeiro capítulo de alguma coisa.
No mais está muito bem escrito, e tem um enredo bastante interessante, que pode realmente ser aproveitado em uma obra mais complexa.

Paulo Fodra

Texto muito bem planejado e executado, que começa e termina com uma apreensão. A trama se desdobra com ritmo ágil porém preciso, sem saltos ou buracos. A mochila furtada do alemão é um detalhe interessante, que provoca um delicioso sorriso em quem leu os contos da primeira rodada, mas não chega a atrapalhar a fruição do texto para os novos leitores.

Roberto Klotz

Começo não impactante, mas com isca para fisgar o leitor. O que é ótimo. A tensão esteve presente no conto do início ao fim. Não percebi Leila como dondoca, mas como “riquinha”, mesmo assim não dá para dizer que não atnedeu a provocação: in dubio pro reo. Achei Speed apropraido para usuário de craque, temo ser clichê, tanto que já foi uado neste Desafio por outro escritor. Evite os adjetivos vagos como linda (bela, bonita), procure adjetivo qualitativo (ruiva, sensual). O destaque foi a tensão em toda a extensão do conto que finda com possibilidade de continuação.

Simone Pedersen

Elementos do desafio atendidos parcialmente. Repetições de palavras próximas: nem, mesmo, mais. Evitar gerúndio. Precisa de uma revisão.
Difícil acreditar que Leila estava a caminho do escritório do marido para resolver sua vida, e convida Speed para acompanhá-la e passear na praça, sem detalhar para onde nem o porquê. Talvez ela quisesse levá-lo para ver sua mãe, que falava, às vezes, sobre o menino que viu crescer. Talvez ela pudesse simplesmente ter que deixar algo com o marido, no caminho. Leila falar demais é estranho, mas pessoas agem de forma incomum quando não estão bem. Acontecimentos pontuais precisam de explicação. Ela ser escoltada para fora, convencer o oficial e voltar, fica solto. O que ela fez para ser barrada? Estava alterada? Por quê? Viu algo? Essa cena é necessária para cair o crachá, então precisa ser sólida.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  9,2
Celso Bächtold  8,8
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz 9,5
Simone Pedersen  8,0
Total 45,5