O azulejo capurro

Charles C.

— Ernest, isso é muito ridículo. Ninguém vai acreditar! — diz o mais velho.
— Um homem loiro com meias no alto da canela grita do relógio solar no Parque da Cidade? Quem vai acreditar que isso é verdade? Pensa em alguma coisa melhor aí, porra!
— Droga sintética seria uma justificativa plausível. Fica bem…
— Não parece. Viciados costumam ser magrelos demais. Essa porcaria não alimenta. E ele até que é bonito. Pensa. Pensa!
— Olha ali. Já sei: o relógio marca meio-dia, a sombra do cara cai sobre as onze horas e ele grita, olhos mareados, chora a morte de um filho.
— Não sei, não sei… tem que ser mais elitizado, mais cult. Se não ninguém acredita. Aproveita e aumenta o volume; e traz mais gelo.
A música eletrônica invade a sala e em baforadas a fumaça do cigarro sobe e se dissolve no teto baixo.
— E que tal assim: “Turistas se aproximam. Um alemão de meias altas desbeiçadas sobe o relógio para um discurso político em plena capital da República…”.
— Não… que discurso ainda atrai turistas?
— Vai ver na época…
— Não…
— Vinte, trinta? Quanta gente se aglomera ali? O relógio não costuma atrair tanto turista. Esse de cabelos ondulados e óculos redondos deve ser francês. Olha o bigodinho, que ridículo.
— Francês ou… malandro?
— É… tá mais pra malandro.
— Ele está bem perto de um outro. Parece até que entrega alguma coisa pra ele.
— Você tá enxergando demais.
— Tem lupa aí, pega pra ver — aponta o mais velho para a escrivaninha. — E aumenta mais o som, porra, já pedi. Preciso de música pra isso.
— É mesmo… — diz o mais novo, com a lupa na mão — Parece que entrega alguma coisa. Ou será efeito desse uísque? Bom esse seu licorzinho aqui!
— Doze anos. Nem conta pra Clara. Se ela sabe que gastei com isso, me mata.
— Hum… parece alguém conhecido esse alemão.
— Pois é, tive a mesma impressão. Esse bigodinho do francês também me lembra alguém… o cabelo, os óculos redondos.
— Caramba!
— O quê?
— Que francês que nada. É o Portinari jovem!
— Ah, ah, ah! Ótimo! Isso é cult; é muito cool.
— Mas ele não olha para o alemão. Tá com os olhos fechados.
— Espera. Olha de novo. O que será que o homem grita lá em cima do relógio?
— Que tal isso: Desespero, não. Dor, emoção. Os olhos dele gritam em emoção. A boca se abre além do limite dos maxilares. Pelas linhas no pescoço se percebe a força que faz para chamar a atenção. Mas o curioso é que os turistas não olham pra ele.
— Ele tem algo de obsessivo. Grita… já sei: Griseldaaaaaa!
— Você é péssimo para nomes.
— Sei lá, inventei agora. Parece nome de mulher velha. Enche meu copo.
— Cantando. Já sei. Cantando. Ninguém me tira mais da cabeça. O alemão está cantando.
— Boa! — gargalhou o mais novo — Você bebeu demais!
— Estou falando sério! Olha como ele faz um “o” com a boca e coloca o queixo pra frente!
— Meu… Deus… é mesmo! Cantando no alto do relógio!
— O alemão apaixonado pela Griselda resolveu subir no relógio pra cantar… Será que cola?
— Olha só… ele está desesperado; Griselda o abandonou. Há dois anos o alemão vinha uivando toda noite na frente da casa dela. A mulher virou a obsessão dele. Mas ela não existe. É só a personagem de uma música. Da música que ele canta. É um alemão que veio na década de oitenta para o Brasil e se encantou por uma galega do sul. Entrou na paranoia e perdeu a noção de realidade. A mulher nunca mais apareceu, mas ele acha que casaram e viveram juntos por anos. Ele canta uma ópera!
— Ópera? Demodê demais… você tá ficando velho.
— Sei lá, o Athos adorava Caruso. Se é para ser um azulejo do Athos, tem que ter ópera. O Sole Mio é ópera?
— Não. É música popular. Do Giovani Capurro.
— Capurro… Capurro… Gostei do som. Me traz um papel e caneta. Deixa eu esboçar algo aqui.
O mais novo troca o disco. Volume no máximo; as caixas de som se distorcem. Gravação antiga no vinil. Mais duas pedras de gelo no copo de uísque. Beberica e fuma enquanto o mais velho joga garatujices no papel. Saboreiam o momento. Colegas de, digamos, profissão… há vinte anos. Ernest e Demétrio se especializaram em vender arte falsificada. Mas a grande sacada foi ver que os ganhos são muito maiores se legitimarem a fraude conseguindo uma exposição no museu. Para isso precisam de um bom texto que faça alguém acreditar na obra.
— Pronto! — diz o mais velho, e coloca um ponto final nos rabiscos do papel.
— Lê em voz alta. Quero ver se me arrepio.
O mais velho se levanta e declama, com a voz empertigada:
— Sublime na interpretação de O Sole Mio, o Azulejo Capurro, como é conhecida a peça de 40×40 cm de AthosBulcão, retrata um tenor no palco perfeito: o relógio de sol do Parque da Cidade. Na plateia uma referência a Cândido Portinari (o quarto homem, da direita para a esquerda), pilar fundamental na vida do artista. A metafísica da voz ressoa e transfere aos expectadores o tempo parado na tensão, a vitalidade que a melodia impõe, do sol, depois da semana de tempestades. A loucura que não pode ser contida. O sol é meu, o sol é meu, espuma o protagonista, a plenos pulmões, na delicada pintura (exceção à técnica do Gênio de Brasília) vitrificada sobre o azulejo.
(Silêncio, o mais novo não consegue reagir).
— Não gostou? — pergunta o mais velho, com o texto na mão.
— Não me arrepiei…
— Gostou ou não? Sério.
— Tô falando. Tá ruim. O Sole mio?
— Pensa naquele imbecil do museu, taradinho por velharia. Vai adorar.
— Tá bom. Tem razão. Ele vai gostar. Gostam de tubarão embalsamado e de mictório. Vão gostar disso.

Contagem:  959 palavras

Comentários

Allan Vidigal

A ideia é ótima e a realização, na maior parte, também.
Só me pareceu meio inverossímil que alguém que conheça o riscado possa acreditar que Bulcão fosse produzir uma pintura detalhista para um azulejo, mesmo que como “exceção à técnica”. Enfim, gostei bastante, mas o final me decepcionou um pouco.

Cinthia Kriemler

A ideia é boa. Athos Bulcão desenhavas padrões e os enviava para a serigrafia industrial. Até aí, tudo bem. Mas uma coisa ficou confusa para mim. O que os dois falsificadores queriam vender era o esboço com o padrão falso, fazendo de conta que era de Athos Bulcão? Achei um pouco forçado que alguém confunda uma desenho desses com algo de Athos. Mas fui além. Lendo o texto da descrição, dá-se a entender que a venda seria de um azulejo (“na delicada pintura vitrificada sobre o azulejo). Nesse caso, eu pergunto: como uma dupla de falsificadores confeccionaria um azulejo? É bastante inverossímil, visto que eles não conseguiriam fazer isso numa casa ou estúdio. O processo de impressão industrial de um azulejo é extenso (“O processo de produção do azulejo segue as “seguintes etapas: mistura de matérias-primas (argila, talco, carbonatos etc), secagem e granulação da massa em spray-dryer, conformação, decoração, queima. Os azulejos, submetidos à aplicação superficial de esmalte para garantir impermeabilidade, passaram possivelmente por mais de uma queima, para o encobrimento de eventuais defeitos e a garantia da homogeneidade cromática.”). Enfim, o texto não me convenceu. Algumas observações: *Cuidado com o uso da maiúscula ou da minúscula depois das reticências. Às vezes é um caso, às vezes é o outro. Veja neste link para não se descuidar mais: http://www.normaculta.com.br/* A palavra “garatujices” não existe. O correto é “garatujas”. * O substantivo “espectadores” é com “s”. Aquele que assiste a algo. Já “expectador”, com “x”, significa aquele que está na expectativa. No seu caso, é “espectadores” com ” s”. Como eu disse, a ideia era boa, mas, para mim, foi perdendo força ao ser executada e acabou ficando mais na vontade de fazer humor do que de escrever uma narrativa melhor.

Marco Antunes

A regência de “sobe o relógio” é possível, mas usa-se em geral para escadas e muros, dessa forma, o leitor estranha a forma, a menos que tenha em vista a imagem do relógio, porém, perceba algo: todas as vezes que um leitor precisa parar para pensar sobre um significado específico, quando estranha uma palavra ou uma construção, costumo dizer aos meus alunos que pôs um calhau no caminho da leitura, obrigando o leitor a vacilar. O mau disso é que o excelente ritmo que o conto vinha desenvolvendo até então estanca. “Gritam em emoção” não me parece uma regência possível, e o tom da conversa não dá apoio a uma expressão tão poética. A palavra “demodê” é demodê, fica estranho usá-la para criticar o caráter ultrapassado da sugestão.

Nálu Nogueira

Este conto me provocou muitas risadas! Adorei a premissa, gostei da história contada em forma de diálogo — ágil, leve,verossímil, o ritmo mantido do início ao fim. Mas houve escorregadelas na pontuação, o que prejudicou a nota.

Wilson Pereira

O conto tem aspectos interessantes, mas não constrói uma trama bem articulada. Falta algo que prenda o leitor para a expectativa de um final surpreendente.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 8,5
Cinthia Kriemler 9,0
Marco Antunes 9,0
Nálu Nogueira 9,0
Wilson Pereira 7,8