O Badalo das Onze Horas

Assis Nóia

O sino ecoou um dobre fúnebre às onze da manhã e uma pétala de rosa branca caiu sobre a bandeira do Brasil.
Ricardo Ferreira pulou da cama, num sobressalto. Esfregou os olhos, confuso. Coçou o sino tatuado no antebraço direito enquanto bocejava. A GloboNews transmitia ao vivo um grupo considerável de manifestantes às margens do Paranoá, tentando avançar até a residência oficial do presidente. Luzes e vozes múltiplas vibravam na janela do quarto de hotel, que dava vista privilegiada para o Palácio da Alvorada.
Ricardo acendeu a luz e um cigarro. Caminhou até a janela, letárgico. Deteve-se por um instante em seu horizonte, esfumaçado por bombas de gás lacrimogêneo e barricadas incendiárias. Apurou a audição e tentou discernir os clamores do povo revoltado; eram vários, atribulando-se violentamente uns sobre os outros. Vozes dissonantes, zero organização, uma balbúrdia espantosa. Mirou o poente tímido, fazendo figuração naquele cenário. O sol parecia se recusar a testemunhar tanta vergonha caótica no mundo.
“Há por do sol como o da Alvorada?”
João saiu do banheiro, penteando os cachos densos numa calmaria sem fim.
“Que susto, cara. Pensei que tivesse lá embaixo”.
Ricardo apagou o cigarro e petelecou a guimba cinco andares abaixo. Afastou-se da janela, sentando em uma das camas de solteiro.
“E desde quando eu desgrudo de você, hein?”
“Seria bom, né, de vez em quando. Cinco anos dividindo a mesma cela não foi suficiente pra você enjoar da cara do negão aqui não?”
“Pra amizade, nada nunca é suficiente. É preciso que haja troca constante. Amizade é devoção”.
“Lembrei até do Sérgio agora, aquele catequista salesiano que visitava a gente. Um grande ser humano, o Sérgio. Vivia dizendo uma coisa assim: você visita seu amigo? Telefona pra ele? Prepara refeições pra receber ele na sua casa? Pois então… se Deus é seu melhor amigo, por que não fazer o mesmo?”
Ricardo riu-se nostálgico da lembrança, sem conseguir evitar a ponte com o pensamento de que amanhã seria o dia de visitar um grande amigo.
“Tive o sonho. Outra vez”. – disparou, angustiado.
João guardou o pente fino no bolso da calça e sentou-se à mesa redonda no canto do quarto. Cruzou as pernas e olhou bem fundo para Ricardo. Posicionados como se estivessem em um divã, Ricardo encheu as mãos com seu rosto vincado de mistério e liberou um suspiro entre dedos.
“Não aguento mais isso, João. É um carma, só pode ser. Quase diariamente esse sino ecoando na minha cabeça… Você sabe o quanto eu já penei na cadeia com essa história, não sabe?”
“Ô se sei. Você cismava que tinha uma igreja por perto, te chamavam de doido. Não aceitava que esse sino era um aviso de Deus”.
“Aviso de Deus? Rá! Por causa dessa ideia aí eu até tatuei essa merda no braço. De tão alienado que fiquei. Até hoje nada! Isso só pode ser um castigo de Deus, isso sim”.
“As mensagens divinas são inexplicáveis, meu caro. Por que eu? Por que isso? Acha que nunca me fiz essas perguntas também? No fim das contas, precisamos entender que não cabe a nós questionar. Apenas aceitar e registrar. Tudo se explica na hora certa. Ou não”.
João se voltou para o noticiário da TV.
“Ele vai renunciar” – disse, em tom profético.
“Ah, vai sim… Sem querer desrespeitar os seus ‘dons’ – fez aspas com os dedos – esse daí não larga o osso não. No país da impunidade, só trouxa se rende”.
“Você se rendeu”.
“É diferente, não compara. Primeiro que eu nunca tive grana pra subornar autoridade. Segundo que naquele momento o meu brother tava morrendo, engasgando com o próprio sangue no chão daquele maldito banco. Eu tinha que… – travou com um nó na garganta – eu tinha que tentar salvar a vida dele, não tive escolha. Meu melhor amigo morreu por minha causa… se render foi o de menos”.
“Você teve escolha. Poderia simplesmente ter fugido com os outros dois comparsas, com a mochila cheia de dinheiro. Poderia ter trocado mais tiros com o policial e tentado matá-lo. Mas não. Você se rendeu pra tentar socorrer o melhor amigo”.
“Era o mínimo que eu podia fazer! Será que você não entende? Eu levei o Mário pra São Paulo comigo, fui o cabeça da porra daquele assalto e usei a doença da mãe dele pra convencer a me ajudar a faturar aquela grana!”
“Eu já sei de tudo isso. Chega de se lamuriar com essa história. Pela lei dos homens, você pagou sua pena. E aos olhos de Deus, seu arrependimento é verdadeiro. Pense que se você não tivesse feito tudo isso, não teria me conhecido”.
Ricardo se levantou da cama e oscilou pelo quarto com as mãos na cintura, contendo o pranto. Acendeu outro cigarro. Em seguida, arrancou um santinho do bolso, com a imagem de Dom Bosco. Ficou olhando para aquele pedaço de papel amarelecido como se ali resguardasse o baú de todas as lembranças de sua vida.
“Minha foto já tá bem desgastada nesse”. – disse João, descruzando as pernas a um riso leve.
“Foi a última coisa que ele me deu antes de morrer. Ele te devotava… o Mário sim, era um santo. Por que não fez nada por ele?”
Como se já esperasse o silêncio de João como resposta, tragou o cigarro olhando para o teto, segurando a emoção para que não escorresse salgada.
“Olha isso – riu-se, amargurado, lendo a profecia – ‘Terra de onde se jorrará leite e mel’… esse foi seu maior erro, Dom. Essa terra só jorra desgraça e corrupção”.
Ricardo findou o cigarro no cinzeiro e foi vencido pelo pranto. João o acolheu num abraço e o balançou, como se o ninasse.
“Aquieta esse coração. O Mário foi instrumento de Deus. Você agora é um novo homem”. – consolava, enquanto tinha o ombro encharcado.
Na manhã seguinte, Ricardo repousava um buquê de rosas brancas na lápide de Mário, cujo epitáfio era a oração a Dom João Bosco. O sino do santuário do padroeiro de Brasília dobrou fúnebre. Eram onze horas.
Temer havia renunciado. À vida.

Contagem: 998 palavras

Comentários

Allan Vidigal

É bem escrito e interessante, mas tem alguns pepinos.
1) a menos que eu não tenha entendido alguma coisa, o cara acorda às 11 horas da manhã e logo em seguida é por-do-sol?
2) algumas palavras foram usadas de um jeito muito estranho. Por exemplo, “barricadas incendiárias”, ou “atribulando”. Licença autoral, e tal, mas soou esquisito para mim. Deu uma quebrada.
3) Acho que não dá para usar “tivesse” (como contração de “estivesse”) em conto. Põe um apóstrofo antes, pelo menos…
4) Coisas como “vista privilegiada”: a menos que você esteja escrevendo anúncio de imóvel, melhor evitar.

Cinthia Kriemler

Cumpre o desafio. Todos os elementos solicitados estão no texto. Mas a história, que até me pareceu começar bem. Não empolgou. Descambou para um texto meio piegas. A frase final resgata o espírito da história que eu achei que você ia contar.
Atenção para:
PÔR do sol — manteve o acento, assim como o verbo pôr, que dá origem à palavra (e que manteve o acento diferencial do pronome por)
que EStivesse lá embaixo — o verbo é ESTAR e não TER.
Cinco anos (dividindo a mesma cela) não FORAM suficientes (e não “foi”)
. Na frase ‘dons’ – fez aspas com os dedos, escolha: ou retire a aspa de dons ou retire a frase explicativa. Você está dizendo a mesma coisa duas vezes, apenas de maneira diferente.
. se (ME) render foi o de menos”. Neste caso é “me render foi o de menos” já que ele está falando de si mesmo.
. Ele te devotava… — Ele tinha devoção… Devotar algo a alguém. Ou devotar-se a alguém (que é o seu caso)
. Terra de onde se jorrará leite e mel — jorrar não é pronominal. E o texto original dessa citação está correto. Bastava copiar, já que colocou entre aspas.

Marco Antunes

Atribular, quando pronominal, significa “Sentir tribulações ou atribulações; afligir-se, angustiar-se, mortificar-se.” E não fez muito sentido naquele contexto, além do mais, não rege a preposição “sobre”. “zero organização”, não diz nada, quando muito se pode usar oralmente em outro contexto muito pouco formal como uma forma nominal a denotar crítica, mesmo assim soa estranho. “pôr do sol” deve ser acentuado. “Que susto, cara.” Trata-se de uma exclamação e pede interjeição. “Cinco anos dividindo a mesma cela não foram suficientes pra você enjoar da cara do negão aqui não” Essa seria a forma correta, mas, como está na voz da personagem, vou entender que foi uma estilização da linguagem. Vamos cuidar melhor da pontuação?! O diálogo sou-me pouco convincente, assim como as personagens, ora usando um registro esperado em presidiários, ora outro esperado em beatos. Em suma, no curto espaço de mil palavras, melhor não tentar malabarismos assim, pois não há tempo de credenciamento das personagens ou do diálogo. O entrecho é interessante, monótono, mas interessante. Gostei de certos toques de estilo que revelam um autor preocupado com a elegância do texto. Temer renunciou?! Bem, se queria fechar com chave de ouro, conseguiu!

Nálu Nogueira

Achei bem escrito, soube encaixar bem a provocação e criar uma história coerente e bem costurada.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio proposto. Texto bem articulado, com trama interessante, bem estruturada e bem desenvolvida. O desfecho é inesperado, mas tem ligação com o que foi desenvolvido.Linguagem bem elaborada, com poucos desvios gramaticais. O conto atinge bom nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal  8,0
Cinthia Kriemler  8.0
Marco Antunes 8,5
Nálu Nogueira  9,0
Wilson Pereira 8,8
Total  33,5