O branco

Rosa

– Tira – eu disse ao sujeito. – Tira essas mãos dos azulejos.
Já passava das dezoito e o Relógio logo pararia de dizer as horas. De uma árvore à esquerda, era possível ouvir uma versão vespertina da asa-branca. Sim, era o que eu imaginava estar ouvindo, embora não acreditasse naquilo. No gramado ao lado, um sobretudo, preto, um sobretudo que parecia bastante pesado, jogado ao chão e logo adiante papéis com tonalidades sépia. Pude ver ao passar, estavam escritos em alemão, julguei pertencentes ao sujeito que, obsessivamente, passava a ponta dos dedos nos azulejos.
– Que você quer?
– Hein?
– Com os azulejos – repeti. – Que você quer?
– Os brancos – falou. – Quero os brancos.
– Como assim, os brancos?
– Um só – complementou. – Quero um só.
O homem vestia uma calça clara com resquícios de grama seca fincados no tecido, também manchado por algo que poderia ser terra ou café. A calça era afinada no tornozelo e também vestia um colete preto puído e a coisa que eu não podia deixar de observar era um grande lenço que praticamente escondia a camisa e dificultava o movimento de seu pescoço. Ao chão, um chapéu. O homem apresentava as maçãs do rosto avermelhadas e a testa úmida, dava pra suar só de olhá-lo. Enquanto o observava, ele não parava de alisar os azulejos.
Todo final de tarde, desde oitenta e oito, tenho o hábito de passar no Parque e ver como se portam os assimétricos em relação à mudança de luz. Hábito diário e rotineiro que fator nenhum alterou, desde oitenta e oito.
– O branco – repetia ele. – Onde estará o branco.
– Meu nome é Athos – apresentei-me.
– Johann Wolfgang – respondeu.
– Bonito nome.
Realmente achei bonito seu nome e não o disse apenas por educação. A verdade é que estava por anoitecer e não havia mais necessidade de observar o fim da luz natural nos azulejos. Por isso, antes de sair, quis convencer Johann a fazer o mesmo. Foi quando ele parou de alisar os azulejos e estendeu-me a mão:
– Von Goethe – acrescentou. – Conhecem-me melhor por este nome.
Fiquei olhando para seu rosto, sem saber o que fazer. Ele continuava com a mão estendida.
– Não sabia que você falava português – eu disse, apertando sua mão.
– Depois que se morre, se pode falar qualquer língua.
– Verdade?
– Sim, gostaria de falar basco?
– Eskerrik no.
E começamos a rir. Houve um breve silêncio. Então Goethe voltou a passar os dedos sobre os azulejos. Somente sobre os brancos.
– O que procura na minha obra?
– Fausto – respondeu.
– Li Fausto, grande obra.
– Qual das partes?
Eu não sabia que Fausto era dividido em partes. Então falei do cão, do duelo e da pureza de Margarida.
– Leste a primeira parte – disse-me, taxativo.
– Sim, obra-prima.
– Leste a primeira parte – tirou o indicador que deslizava sobre um azulejo e fez uma pausa.
Então, com o mesmo dedo em riste, disse que eram três partes: a primeira que todos leram, a segunda que poucos leram e a terceira que ninguém leu.
– Estou aqui tentando encontrar a terceira.
– Nos azulejos?
Goethe disse que sim, nos azulejos.
O painel que eu criara para o Parque da Cidade era composto por azulejos dispostos de forma abstrata, nas cores preto e branco. Havia azulejos brancos, de fato, embora esses fossem em quantidade menor. O painel podia ser visto ao longe, causando uma primeira impressão no olhar e, ao modo conforme este olhar se aproximasse, a impressão iria se transformando. No fundo, o que haviam solicitado era uma forma de tornar o local visível à distância, queriam que transformasse aquele ponto num ponto de localização. Então, pintei figuras assimétricas, foi isso que imaginei ao criar o painel.
Era noite, o Relógio de Sol já não marcava hora alguma. Talvez não fosse de bom grado que dois velhos mortos ficassem no Parque da Cidade falando sobre seu trabalho.
– A terceira parte de Fausto – falou pausadamente – chama-se O Paraíso.
– O Paraíso?
– Sim, foi a que levou mais tempo para fazer. Foi a obra da minha vida. As outras duas escrevi em três anos.
Soltei uma gargalhada.
– Vamos dormir? – sugeri.
– Levou tanto tempo porque foi escrita num azulejo. Branco. Por isso se chama O Paraíso: Paradies. Mas o homem é tolo, não decifrou. E minha obra-prima veio parar nessa bosta. DassScheibe.
Eu disse a Goethe que ali ele não encontraria seu azulejo, pois faziam parte de uma obra conceitual, feita por mim, sem a mínima possibilidade de haver, infiltrada, uma peça pirata. Sua obra deveria estar em qualquer outro lugar.
– Por que não procura na Casa Branca?
– Torbeit – aumentou o tom da voz. – Por acaso sabe a procedência desses azulejos todos?
Como assim? Quem você pensa que é? Tive vontade de dizer para Goethe. Pintei esses azulejos todos, tive vontade de dizer. Mas não disse. Depois que se morre, não há mais necessidade em se dizer certas coisas. Por isso, não disse nada. Apenas pensei. Os azulejos ali eram meus. Todos eles. Faziam parte de uma obra que se espalhava pela capital inteira. Eu recebia míseras peças brancas e as transformava em obras de arte apenas com um pincel. Eu nada disse para Goethe. De todo modo, jamais havia me preocupado com a procedência das peças. Eram todas brancas, não haveria de me preocupar, eu tinha esse direito, pensei, eu tinha. Mas haveria um modo de mostrar para o alemão que ele estava errado. Haveria, eu tinha certeza.

No dia seguinte, retornei ao Parque da Cidade à hora de sempre. O Relógio de Sol marcava dezoito e dezoito. De uma árvore à esquerda era possível ouvir uma versão vespertina da asa-branca.
– Aqui está – estendi uma lanterna de luz negra ao alemão.
– O que é isso?
Acendi a lanterna. Apontei a luz para os azulejos, podia-se ver seu aspecto mais neural. Serpenteei a obra inteira.
– Luz negra – expliquei. – Se há algo cifrado em algum azulejo, vai aparecer.
Estalando os lábios e sem entender direito, ele apanhou a lanterna e começou a apontar para os brancos.
– O que não inventam – resmungou. – O que não inventam.

Contagem:  997 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Gostei bastante, mas tenho duas implicâncias com o texto.
Uma: Athos Bulcão não pintava os azulejos à mão. Fica esquisito o fantasma dele dizendo que era assim.
E duas: oquêi, liberdade autoral, suspension of disbelief e tal, mas achei muito estranho fantasmas com uma lanterna de luz negra.
(a menos que não sejam fantasmas, sejam doidos, mesmo. Mas, se forem, para mim não fico claro).

Cinthia Kriemler

É, com certeza, o mais criativo da rodada. Muito bem escrito, faz de um conteúdo impossível uma leitura agradável. Cumpriu o desafio e ainda mostrou que é possível sair do previsto, do lugar-comum. Imaginei a cena. É tem um final que me atrai: sem fechamentos “redondos”. Gostei muito mesmo. E ainda é muito bem escrito. Parabéns!

Marco Antunes

Alguns probleminhas mínimos de pontuação, mas que não devem ser ignorados. Observe esse imenso trecho sem nenhuma pontuação: “A calça era afinada no tornozelo e também vestia um colete preto puído e a coisa que eu não podia deixar de observar era um grande lenço que praticamente escondia a camisa e dificultava o movimento de seu pescoço.” O polissíndeto permite o uso de vírgulas o que tornaria a leitura mais fácil. “Hábito diário e rotineiro que fator nenhum alterou” – observe o uso um tanto deslocado da palavra “fator”, tenho fé que com um pouco mais de carpintaria o autor encontraria palavra mais adequada. O entrecho é um pouco confuso, mas é atraente. As personagens vivas e interessantes. A técnica narrativa agrada, tenho certeza de que mais ritmo nas frases podem melhorar seu texto. DICA: Recomenda-se o emprego da vírgula antes da conjunção “e” quando há orações aditivas de sujeitos diferentes a fim de criar-se uma leitura mais clara. Exemplo: João pegou suas coisas, e Isabel se trancou no quarto. [“João” pratica a ação de pegar; Isabel, a de trancar-se no quarto. “Ele comprou as peras, e as maçãs foram compradas por ela”. “Serra usa imagem de Lula, e PT vai entrar na Justiça.”

Nálu Nogueira

Achei muito criativo dar vida a dois mortos para construir essa história! O conto no geral está bem construído, narrativa coesa, verossímil. Adorei o Goethe e suas informações sobre FAUSTO! Mas achei a fala “…E minha obra-prima veio parar nessa bosta” um pouco destoante: não combina com o modo como o personagem vinha se expressando antes e também com nada do que diz depois, apesar do personagem ser meio mal-humorado. Alguns deslizes nas construções e nas retomadas da narrativa em meio aos diálogos e um final que achei decepcionante.

Wilson Pereira

O conto atende ao tema da provocação. Está bem estruturado a inova ao colocar como personagens o escritor alemão Goethe e o próprio Athos Bulcão, ambos mortos.

Nota

Jurados

Nota

Allan Vidigal 9,0
Cinthia Kriemler 10,0
Marco Antunes 9,0
Nálu Nogueira 8,8
Wilson Pereira 8,7