O caçador de astronautas

Capitão Birobidjan

Deveria ter sido aquela a mais gloriosa das manhãs de segunda-feira. Hennig Marby desembarcou no Aeroporto Internacional de Brasília, ansioso por abraçar seu destino e retornar à Alemanha como um grande visionário. Trazia na valise desgastada livros de astrofísica, cosmobiologia, ufologia paracientífica – dentre outras publicações famosas e obscuras –, e uma edição espanhola de luxo do Manuscrito Voynich.

Usando como aríete o carrinho no qual carregava sua bagagem, removia do caminho os turistas brasileiros que superlotavam o salão de desembarque. Devido à confusa conexão em Lisboa, Herr Marby estava mais irritado que de costume.

― Como conseguem parecer tão perdidos na capital do próprio país? ― resmungou com carregado sotaque hamburguês.

De caminhar curto e apressado, o simbologista amador parecia menor dentro do casaco de lã listrado que engolia seu pescoço e mãos, conferindo à sua silhueta estoica um caráter divertido. Seus oculinhos sem aros e de lentes grossas não demoraram a encontrar o táxi que deveria conduzi-lo à germinação da Era de Aquário. Pouco fluente em português, encarou o motorista pelo retrovisor e disse com um suspiro impaciente:

― Sarah Kubitschek Park.

― Ah! O Parque da Cidade! ― constatou o condutor, antes de por o taxímetro para rodar.

A manhã estava fresca e primaveril, quase tão prazerosa quanto ignorar os comentários do taxista sobre a arquitetura de Brasília. Não estava ali para fazer turismo, mas para mudar o mundo. Em menos de uma hora reencontraria Mano Castaneda, um suposto matemático andino que havia conhecido há dois anos no místico Vale do Amanhecer, após uma palestra sobre o faraó Akhenaton.

Como Hennig Marby, Mano Castaneda também parecia convencido de que o indecifrável Manuscrito Voynich era um manual de instruções para contatar arquitetos celestiais. Após uma intensa troca de correspondência eletrônica entre os dois, Castaneda desapareceu misteriosamente. Mas, uma semana antes de viajar, Marby recebeu um vídeo no qual seu colega pedia para que ele não confiasse em ninguém e guardasse sua pesquisa em segurança. O alemão assistiu à mensagem inúmeras vezes, consumido por sentimentos de insegurança e perseguição. Em um dos frames, percebeu rabiscado na parede por trás de Castaneda, uma latitude, uma longitude e a seguinte inscrição em sânscrito: “Dia do Doutrinador, sob o tempo de Aton, na terceira hora”. Desvendada a charada, Herr Marby deduziu exatamente o lugar, a data e o instante em que deveria encontrar seu companheiro esotérico. Chegando ao estacionamento do parque, Hennig entregou uma nota de 20 euros ao taxista antes de cruzar com indiferença o chão forrado de flores cor-de-rosa, caídas das vistosas paineiras que embelezavam os jardins projetados por Burle Marx. Depois de desviar dos ciclistas e de um grupo de crianças que corria na direção dos pedalinhos, alcançou o relógio de sol próximo ao gramado. ― O tempo de Aton ― balbuciou. Quando a sombra do gnômon marcou nove horas, Hennig Marby se aproximou do espelho d’agua no qual se refletia a estrutura de seis metros de altura utilizada para medir o tempo. Com a demora de seu contato, começou a ver inimigos em todos os lugares. Usurpadores de pouco talento interessados no trabalho de sua vida. O vendedor de picolé, a moça de patins, a velha com o cãozinho enfezado, todos eram membros da mesma organização que, há anos, espionava cada movimento daquele determinado alemão que não se entregaria antes de uma boa luta.

― Herr Marby.

Hennig quase desmaia ao ouvir o próprio nome sussurrado daquela forma. Para seu alívio, logo encontrou a face amigável de Mano Castaneda. Após um cumprimento desajeitado, o homem meio peruano, meio boliviano, levou seu colega aos banheiros do parque, a fim de conversarem reservadamente. Com seu inglês engraçado, mas inteligível, Castaneda perguntou a Hennig Marby se ele gostava do mosaico de azulejos exibido nas paredes externas do banheiro público. Sem entender o propósito daquilo, o alemão exasperou-se e pediu para que o homem revelasse de vez a razão daquele inusitado encontro. — Você precisa apreender o lirismo do que está por vir, meu amigo — continuou Castaneda. — Esse belo arranjo é de Athos Bulcão, famoso artista brasileiro que também colaborou na eclosão do pássaro sagrado chamado Brasília, cidade que esconde muitos enigmas, Herr Marby. E, acredito, o maior deles se encontra entalhado em uma das peças utilizadas no trabalho de Bulcão. De dentro de um cesto de lixo, Mano Castaneda retirou um pacote feito com jornal. Diante do olhar pouco efusivo de Marby, desembrulhou um azulejo com motivos circenses. — Este azulejo, meu amigo… Este simples azulejo foi confeccionado na tradicional fábrica Viúva Lamego, em Portugal. Um dia, Athos Bulcão revestiu com este belo pedaço da História as paredes de alvenaria do Gran’ Circo Lar, demolido em 1999 para dar lugar ao Complexo Cultural da República. Porém, o mais singular está do outro lado desta placa de cerâmica. Eu encontrei, Herr Marby. Ao revelar a face contrária do azulejo, Mano Castaneda ofereceu a Hennig a visão mais poderosa de sua vida: Um texto com a mesma escrita criptográfica do Manuscrito Voynich e, logo abaixo, sua tradução em sânscrito. — A chave! — emocionou-se Marby. — Temo por minha vida. Roubei este artefato das mãos de um homem muito poderoso. Mas eu não poderia deixar que o segredo fosse descortinado por um burocrata, capaz de utilizar o conhecimento hermético para fins nefastos. Agarre seu destino, Hennig Marby! Conduza a humanidade através das estrelas! A chave é sua, mas preciso que me ajude a fugir. Creio que cinco mil euros garantirão minha segurança. Sem ouvir direito o que Mano Castaneda dizia, Herr Marby pôs suas mãos sobre o azulejo e, depois de acariciá-lo demoradamente, devolveu-o ao andino. No dia seguinte, fecharam a transação e Hennig voltou à Alemanha, onde desvendaria o mistério da própria inocência. Em junho daquele ano, Mano Castaneda foi preso na Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, junto aos azulejos de outro painel projetado por Athos Bulcão. Planejava vender mais uma réplica fajuta de cerâmica do Gran’ Circo Lar. Sua nova vítima buscava a localização de um tesouro dos índios Goyá, supostamente enterrado sob o Palácio da Alvorada.

Contagem:  1000 palavras

Comentários

Allan Vidigal

A premissa é interessante. O estilo de narrativa às vezes soa meio “esquisito”, na falta de melhor expressão; nem sei dizer ao certo o que é. Uma coisa que pegou, para o meu ouvido, foi a repetição – que me pareceu exagerada – do nome completo das personagens. Tem um trecho em que você usou “gnômon” e depois “estrutura de seis metros de altura usada para medir o tempo”: sei que pode ficar cansativo repetir “relógio” um monte de vezes, mas deve haver solução melhor do que essa!. No geral, bom, mas sinto que precisa de um pouco mais de fluidez.

Cinthia Kriemler

Gostei muito do seu texto. A leitura flui, a ideia é boa, o conteúdo foi bem apresentado. Dentro do inusitado do desafio proposto, é um texto perfeitamente plausível. A sacada de inserir o manuscrito Voynich na história deu um toque especial à narrativa. O texto é todo cuidadoso, por isso, vale ressaltar a única inverosimilhança encontrada: ninguém conseguiria permanecer em Brasília usando um casaco de lã até o pescoço em plena primavera. Fiquei esperando você dizer que ele logo tirou o casaco, que ele sentiu um calor imenso ou algo assim. Mas você deixou o alemão com o casaco, e sem ressalvas (rsrs). Aqui, faz 28º até no outono, como esta semana tem feito. Ainda mais que, um pouco adiante, você diz “a manhã estava fresca e primaveril”. Na primavera, temos temperaturas de 30°. Enfim, foi o único ponto inverossímil a destacar. Tome cuidado também com a revisão. Você escreveu um “d’água” sem acento. A título de contribuição: o verbo “pôr” manteve o acento diferencial da preposição “por” (“antes de pôr o taxímetro para rodar.”). Parabéns!

Marco Antunes

O Dicionário Aurélio não registra a palavra simbologista, embora ela seja potencialmente possível, mas destaco que semiólogo seja o nome preferencial dos estudiosos de signos em geral. Pôr como verbo é acentuado. O nome se escreve Mario Castañeda. No sentido usado, o verbo desviar é pronominal. Descortinar segredos é um clichê, evite isso. Do ponto de vista do entrecho, pareceu bastante interessante o cambalacho do peruano, embora a pressa em concluir tenha ficado evidente. Nota-se, pelos muitos detalhes do começo que o autor pareceu pressionado pelo limite do desafio e teve que dar rápido fechamento ao texto; nesse caso, aconselho ao autor que retorne ao texto e o refaça, pois a falta de unidade no ritmo narrativo evidencia-se facilmente. A personagem do alemão não me convenceu absolutamente, percebo que o autor tentou credenciá-lo como neurastênico, mas a pessoa sensível à movimentação pouco comum do aeroporto cai no cambalacho do modo mais fácil que se possa imaginar. A personagem do peruano saiu-se melhor e mais plausível como carácter. No geral, percebe-se que o autor ainda tem pouca intimidade com a escrita, embora já comece a mostrar quais serão suas melhores virtudes.

Nálu Nogueira

O autor demonstra domínio da escrita, o conto é irreparável, do ponto de vista da construção, especialmente no uso dos travessões — os diálogos estão impecáveis. Contudo, a partir da segunda parte do conto,fiquei com a sensação de que o autor o cometeu uma sucessão de frases que poderiam estar melhor conectadas, creio que o encadeamento ficou prejudicado com essa falta de sofisticação, destoando da leitura da primeira parte. Cito um trecho para exemplificar: “…Henning quase desmaia ao ouvir o próprio nome sussurrado. Para seu alívio, logo encontrou a face amigável de Mario Castaneda. Após um cumprimento desajeitado…”
Do ponto de vista da criatividade, achei a premissa muito interessante e verossímil, mas confesso que não consegui estabelecer com clareza a conexão entra a história contada e o título — talvez porque me falte conhecimento das referências de que o autor se utilizou.
Também considerei o final um pouco abrupto, fiquei com sensação de que o autor tinha pressa e que já esbarrava no limite de palavras.

Wilson Pereira

Conto bem estruturado; linguagem correta e de teor literário. Atende à proposta. Desfecho interessante.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 8,0
Cinthia Kriemler 9,6
Marco Antunes 7,5
Nálu Nogueira 9,0
Wilson Pereira 9,0