O Canto da Cigarra

Assis Nóia

Gregório Santos disparou até a Estação Central do Metrô de Brasília, segurando uma mala preta. Desceu uma, duas escadas rolantes. Tentava a todo custo abstrair o peso da escolha que oficializaria em vinte e quatro horas. Não era todo dia que um proeminente físico nuclear compactuaria com a mudança de rumo da história do Brasil, quiçá do mundo. Se um simples bater das asas de uma borboleta pode alterar o curso natural das coisas, imagine o que repercutiria uma mera probabilidade de explosão nuclear. Num metrô quase vazio, puxou de sua mala um convite sigiloso, com o símbolo oficial das Relações Exteriores do Brasil. Leu-o novamente, em voz baixa:
“Recepção de gala no Palácio Itamaraty para brindar a aliança histórica entre Brasil e Argentina”…
Gregório jamais se imaginou envolvido em uma decisão desse naipe, daquelas que figurariam nos livros de História. Desceu no ponto e logo chegou ao hotel reservado pelo Ministério. Fez o check-in e tomou o elevador para o quarto andar. Defronte a porta do seu quarto D3, notou que um idoso calvo estava empacado com seu cartão magnético no quarto vizinho, o D4.
“Vire o cartão, senhor”.
O velho ignorou e continuou concentrado no erro. Gregório tentou abordá-lo novamente, sem êxito. Aproximou-se, meio impaciente, tomou o cartão das mãos do hóspede e o passou. O velho apenas sorriu, agradecido. Gregório só pensava em deixar seu corpo pender sobre uma cama macia, arrancar os sapatos com os próprios pés e apagar…
Quando acordou, viu-se transformado em um inseto gigantesco! O exoesqueleto pesava, as pernas finas se debatiam. Arfante, Gregório situou-se no quarto de hotel, ainda à noite. Sentiu cordas vocais vibrarem em seu abdômen e um som ensurdecedor tomou conta do ambiente. Uma cigarra? Mal conseguia se beliscar pra se certificar da realidade daquele horror. Levantou-se da cama com muito esforço e cambaleou até o espelho.
“Como vou fazer a história acontecer assim?” – apavorado.
Observou o convite da festa sobre a penteadeira e notou algumas partes em branco. Seu nome e registros documentais foram apagados!
Gregório deu um salto do pesadelo, espatifando-se no tapete. Suava em bicas. Ajoelhado, percorreu os olhos por todo o corpo. Depois acendeu a luz do quarto e mirou-se no espelho. Aliviou-se: o olhar refletido ainda era do deus que não cabia dentro do homem. Verificou o convite e lá estava seu nome estampado. Ligou o ventilador de teto e abriu uma latinha de cerveja.
“Setembro em Brasília é foda”, disse, virando a latinha.
A temporada seca inspirava o canto delas: as cigarras.
A janela estava aberta e dava para os fundos do hotel, um terreno de grama mal aparada, com poucas árvores. O canto estridulante da cigarra invadiu o quarto e causou arrepio em Gregório. Com os ouvidos zunindo, correu pra fechar a janela. Em vão. O maldito soprano parecia estar sob o seu travesseiro! Ligou a TV. O History Channel transmitia um documentário sobre Santos Dumont. O locutor dizia que o inventor suicidara-se por ter se decepcionado profundamente com sua invenção, manuseada também com propósitos belicosos. Gregório apagou a luz, deitou-se e tentou relaxar. Aquele canto o irritava além do normal. Sua esposa, que era bióloga, vivia lhe contando sobre a vida dos insetos, seu objeto de estudo. “Esses sacanas cantam pra atrair as fêmeas”, disse Gregório, em tom de lembrança. O canto também atraía recordações de sua infância, quando passava o verão no sítio dos avós. Naquela época, quando aprendia com seu avô a cultivar a terra ao invés de como explodi-la, todos dormiam um sono remansoso, embalados pelos sons múltiplos da natureza, como o coaxar dos sapos, o chiado do rio e o canto das cigarras.
“Vale mesmo a pena entrar nos livros de História por ter feito uma coisa que mandaria tanta vida pelos ares?”
A rosa de Hiroshima irradiou em sua memória. Estaria mesmo disposto a ser um dos que rubricariam o fim do Acordo Quadripartite com os representantes do governo argentino, iniciando, assim, uma produção desenfreada de bombas atômicas?
Brindariam esse acontecimento com champagne, danças e risadas caudalosas de vaidade. Pura vaidade.
Era tão atraente e perturbador ao mesmo tempo. Como ignorar o chamado para assumir o poder de rasurar as linhas da humanidade?
Tinha que calar aquele canto.
Abriu a janela e varreu os olhos sobre o parapeito, que se estendia horizontalmente até a janela do quarto vizinho. Ali estava o danado, em frente à janela do D4, arriscando a vida pela perpetuação de sua espécie. Gregório apanhou um cabide e tentou cutucá-lo, sem sucesso. Calçou os sapatos e foi pedir ajuda ao hóspede vizinho, que bastava abrir sua janela e dar cabo do inseto insano. Tocou a campainha, socou a porta, gritou. Nada. Xingou qualquer coisa e voltou pro seu aposento. Espiou novamente de sua janela e viu que daria pé. Impetuoso, com ar de quem é capaz de superar qualquer barreira, subiu sobre o parapeito. Bastava uns dois ou três passos para pôr fim àquela ópera infernal. Fincando as unhas nas fissuras dos tijolos, Gregório se equilibrou como pôde e se julgou patético. Estava agora a um pisão do inseto, que se esgoelava mais do que nunca. O maior dos predadores estava ali, a meio centímetro, hesitando se o reduziria à hemolinfa ou se somente o empurraria do precipício. Um pulsar inefável de dominância e superioridade ferveu em suas veias. A sola do seu Ferracini massacrou a cigarra.
Gregório tinha o mundo sob seus pés.
Um súbito formigamento atravessou seu corpo, desequilibrando-o. O físico escorregou parapeito abaixo. Conseguiu se dependurar com as duas mãos. O líquido viscoso que escorria da cigarra foi se entremeando em seus dedos.
Gregório berrou a plenos pulmões por socorro.
Ninguém ouviu seu canto entoado pra subir.
Dois minutos depois do acidente, o velho do D4 abriu sua janela para fumar um cigarro. A insônia amenizava quando contemplava as estrelas, que murmuravam ruídos de luz em seus ouvidos moucos. Deu um último trago e lançou, distraidamente, a guimba sobre a cigarra macho que fez a história acontecer.

Contagem: 997 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

No início não senti empatia com o conto: tive a percepção, no primeiro parágrafo, de um tempo-espaço muito compacto para introduzir demasiados e pouco convincentes elementos. A descrição da metamotfose onírica seguida da revelção do discurso interno do personagem (Aliviou-se:o olhar refletido ainda era do deus que não cabia dentro do homem) fez o conto crescer. Mas para mim o ponto alto do texto consubstancia-se na tensão entre a insignificância de um inseto que tanto perturba com sua “ópera infernal” e a dominância e superioridade delirante do personagem que, para esmagá-lo, realiza um ridículo massacre. Engenhoso o processo de ridicularização do personagem ao longo da construção da narrativa. Repare que “Empurraria no” e não “do precipício”.

Alexandre Lobão

História interessante, imaginativa e bem escrita, apesar de alguns pequenos erros que uma revisão resolveria. O final também ficou bem interessante. Ficou um pouco estranha a relação da primeira menção ao acordo, como sendo para “brindar uma aliança histórica” e a segunda, como “fim do acordo Quadripartitite”. É claro que uma nova aliança quebraria o acordo, mas a forma como foi colocado deixou isso confuso.
O maior ponto de melhoria é relacionado a evolução psicológica do personagem: quase que de repente o personagem decide que “Tinha que calar aquele canto.“;a história ficaria mais crível se as divagações anteriores fossem interrompidas com reclamações cada vez mais fortes sobre o canto da cigarra.
Além disso, o uso do local da provocação, “metrô da rodoviária”, foi apenas marginal, uma vez que a ação se concentrou em um hotel e a estação em si não teve importância na história.

Allan Vidigal

Gostei, de modo geral. Mas tem algumas escolhas de palavras que, confesso, acho completamente absurdas e injustificáveis. Por exemplo, “pulsar inefável” é jogo duro. Não só não precisa, como também não deve; enfraquece o conto.
Além disso, a estação de metrô, que deveria ser um elemento importante da história, é um mero cenário e poderia ser facilmente substituída por qualquer outro lugar; a gente fica com a sensação de que você não soube como usar o elemento e fez uma gambiarra qualquer.

Ana Vilela

A ideia de transformar o opressor no oprimido, ao final, é interessante. Apesar de batido, é algo que ainda funciona bem. Porém, neste caso, por ser o oprimido um inseto, se assemelha muito a Kafka. Apesar de, muito provavelmente, ter sido intencional, retira muito da criação.
Quando secomeça a ler o conto, pergunta-se: o que este velho insignificante faz aqui? E é bem interessante o fato dele fechar o conto. É quase a ação do acaso. Essa sutileza do fim é muito boa.

Betty Vidigal

Sensacional.
Algumas considerações: embora o conto esteja todo no passado (corretamente), qdo algo se mantém como verdade em qualquer tempo fica melhor dito no presente. É só um refinamento… Então, seria melhor dizer “Não é todo dia que um físico nuclear, ainda que proeminente, compactua com a mudança de rumo da história do Brasil”. Porque você está escrevendo no presente, e isso é verdade agora, como era antes. Há pequenos escorregões, como uma crase que faltou, mas nada que um revisor não corrija.

Celso Bächtold

– “Mal conseguia se beliscar “pra” se certificar da realidade daquele horror.”: creio ser melhor utilizar a linguagem clássica do que a coloquial, para ficar coerente com o restante do texto.
O autor bem utilizou a cigarra como personagem secundária, valorizando-a e deixando seu entrecho bem original.

Cinthia Kriemler

A intertextualidade no seu conto veio de forma interessante. Começando do nome do personagem, Gregório Santos, uma alusão a Gregor Samsa, até outros elementos de A Metamorfose presentes no texto de forma adaptada (barata/cigarra). Achei o conto criativo. Conseguiu não ceder à tentação fácil de ir para a fábula ou para o realismo.A participação da cigarra na história foi um recurso bem utilizado, mas eu não entendi a necessidade do velho. Você criou um personagem, descreveu-o, para depois ele não ter grande participação na história. A única relação que encontrei foi: tinha que dizer quer era velho para poder ser surdo e não abrir a porta, obrigando o protagonista a se equilibrar no parapeito. Muito longe a correlação! Gostei da cena final. Imaginei os dedos dele escorregando na gosma, vingança suprema s macabra da cigarra. Tem todos os elementos pedidos. Mas há alguma coisa de oscilante no seu texto desta semana.

João Paulo Hergesel

Não fica clara qual é a função da estação de metrô nessa história. Há algumas passagens que precisam ser revistas, como a gíria em “uma decisão desse naipe”, o lugar-comum em “suava em bicas” e a informalidade em “voltou pro seu aposento”. O conto, por mais que determine bem o objetivo do personagem, é confuso, como um recorte de situações futuras que não ocorrem, resumindo-se a uma noite em um quarto de hotel. Por fim, a morte ao tentar matar um cigarra soa inverossímil.

Marco Antunes

O primeiro parágrafo que poderia traduzir uma ótima ideia acabou confuso e desorganizado. O texto do convite é absolutamente inadequado e, por conseguinte, inverossímil. Pouco provável que um hotel reservado pelo MRE tenha ventilador no teto. ‘ Bastavam uns dois passos”. O conto que flerta com o fantástico, sem conseguir estabelecer o elo alegórico, não me convenceu em momento algum e pouco me interessou como literatura.

Nálu Nogueira

Interessante, criativo, reuniu todos os elementos da provocação e usou as referências clássicas de forma bem-humorada e muito bem articulada, com a dose certa de tensão. Só não “comprei” o metrô: primeiro porque é estranho pensar que figura tão importante e portando mala de conteúdo tão igualmente importante (embora não explicado) se valesse do metrô de Brasília – para ir até onde? A “estação central” seria a da rodoviária? Quando o autor diz que Gregório “Disparou até a estação central…”, de onde ele vinha? Se ia se hospedar num hotel, então presume-se que vinha de outro Estado, e se assim era, teria chegado pelo único aeroporto da cidade – então por que iria até a estação central? Ademais,só haveria hotéis nessas proximidades – e nem tão próximos assim:; as estações seguintes apenas se distanciam dos setores hoteleiros, com esforço posso imaginar o “ponto” do início da Asa Sul, mas ainda seria uma caminhada e tanto. Talvez o(a) autor(a) não more na cidade ou, como eu, não faça uso do metrô. Sei que para quem não é de Brasília esta informação é irrelevante, mas não posso deixar de manifestar meu estranhamento, já que vivo na cidade e este pequeno detalhe deixou a história descosturada.

Oswaldo Pullen

Conto algo confuso, com o foco difuso entre uma mala, uma bomba atômica (será que estava dentro da mala?), um acordo entre Brasil e Argentina e uma cigarra que afinal se tornou o ponto focal do conto. O pesadelo Kafkaniano é completamente desnecessário.

Paulo Fodra

Conto com uma ideia muito interessante, mas com pequenas farpas que acabam prejudicando a sua fruição. Poderia melhorar muito com uma revisão e/ou edição mais criteriosa.

Roberto Klotz

Será que eu entendi? Será que devo reler o conto? A clareza é questão fundamental. Eu preciso reler, porque não captei e se não captei é porque tenho dificuldades de entender ou porque faltou clareza. Gregório acordou inseto e frente ao espelho: “Aliviou-se: o olhar refletido ainda era do deus que não cabia dentro do homem” – Qual deus?Cigarra homem ou outro? Teria sido melhor “Aliviou-se: o olhar refletido ainda era homem.” No Plano Piloto não existem hotéis na extenção da linha. Teria sido verossímel se tivesse entrado em alguma estação (e não ponto) e desembarcado na estação da Rodoviária. Alí teria vários hoteis à disposição. A estação de metrô e o convite estão presentes como figurantes. Gentil homenagem aGregor Samsa. O fechamento, com verdadeira transforamção, é ótimo.

Simone Pedersen

Difícil acreditar que um proeminente físico nuclear se penduraria na parede externa de um hotel para matar uma cigarra. O narrador usa linguagens conflitantes. Por ex.:“as estrelas, que murmuravam ruídos de luz em seus ouvidos moucos” . Se o texto é prosa poética, do início, fica encantador, mas quando a linguagem oscila, afeta a leitura. Para contrapor: “a um pisão do inseto, que se esgoelava mais do que nunca”. O autor escreve bem, foi a história que não me empolgou.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio proposto. A trama tem uma sequência lógica e os fatos estão bem fundamentados e bem articulados. O final, apesar de surpreendente, acontece de forma um pouco precipitada. O conto se realiza com uma boa técnica narrativa. A linguagem, bem elaborada, alcança nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,8
Alexandre Lobão  9,1
Allan Vidigal 8,0
Ana Vilela 9,0
Betty Vidigal  10,0
Celso Bächtold 9,7
Cinthia Kriemler 9,5
João Paulo Hergesel  8,0
Marco Antunes 7,8
Nálu Nogueira  9,2
Oswaldo Pullen  9,0
Paulo Fodra  8,5
Roberto Klotz  8,7
Simone Pedersen 8,0
Wilson Pereira 8,8
Total  132,1