O Caso Cristais

Rosa

Nem mesmo Hugo, que era o melhor cabeleireiro de toda Asa Norte, eu disse ao delegado, teria feito um trabalho assim, nem mesmo Hugo, porque não é sempre que podemos colocar em prática nosso talento, mas tem um dia, eu disse ao delegado, em que isso é possível e comigo havia sido possível no dia em que aquela mulher entrou no Salão. Não tinha hora marcada, disso eu tenho certeza, acho que tenho, e eu estava no intervalo quando chamaram, ela tinha pressa e eu queria mesmo era faturar, por isso mandei o intervalo lá pra Sobradinho e sentei a mulher na cadeira. Marcela, respondeu quando perguntei seu nome, disse que era Marcela, que estava cansada do visual, se sentindo velha, que é o que todos nós sentimos, todos nos sentimos velhos e não é hoje ou de vez em quando, nos sentimos velhos a toda hora, toda maldita hora nos sentimos velhos e é pra isso que as pessoas vêm pra cá. O delegado deu uma olhada na cadeira, na bancada e fez cara séria, por isso me contive. Mas, quando ele tocou no assunto do Caso Cristais, arrepiei, achava que aquela história havia sido esquecida, disso eu tenho certeza, acho que tenho, pois quando ele veio com aquela história logo perguntei Que foi, doutor? Lembrei da imagem da mulher jogada lá no espelho d’ água da praça, a mulher do Caso Cristais, então o delegado quis saber sobre Marcela, porque nosso trabalho não é cuidar só do cabelo, as pessoas vêm aqui também pra rejuvenescer a alma, por isso botam pra fora, botam tudo pra fora, pra sair de alma leve, tão leve que às vezes nem se olham no espelho, mas Marcela se olhou no espelho, e muito, se olhava da direita pra esquerda, da esquerda pro centro, do centro pra baixo, se olhava tanto que tomei a iniciativa e disse Vamos começar? Ela respirou fundo, disso eu tenho certeza, acho que tenho, e disse Sim, vamos e foi aí que estendeu-me o crachá, esse crachá aqui, mostrei ao delegado que o apanhou e ficou olhando, letra por letra, como se já soubesse o que tinha acontecido e quisesse, ali, comprovar sua teoria, por isso deixei-o lá com o crachá. Quando Marcela me passou o crachá, nem vi o que estava escrito, só vi um tracinho amarelo, outro verde e a foto. Confesso que ela estava muito mais bonita quando entrou no Salão, mas tava pagando, então fiz exatamente como pediu, que era ficar igualzinha à foto. Tem certeza, amiga? perguntei, então ela disse Sim, tenho, ela queria voltar a ter a aparência da foto tirada há uns três anos, talvez quatro, disse ela. Procurei a cor, castanho escuro, Vai querer o mesmo comprimento também? Confirmou e, então, procurei um aplique. E o fio, a grossura do fio? Tudo igual. Coisa que não entendi, trocar aquela seda maravilhosa por um castanho sem graça, mas vamos lá, talento é talento, nem mesmo Hugo teria sido capaz daquilo, disse ao delegado, que bateu o crachá que segurava com a mão direita na palma da mão esquerda e perguntou O nome era Marcela mesmo? e eu disse que Sim, tenho certeza, acho que tenho, era Marcela, mas então o delegado ergueu o crachá até a altura dos meus olhos e repetiu Tem certeza? Eu não respondi, não respondi nada, fiquei gelado, porque não era Marcela que estava escrito lá, Eu tenho certeza, disse, acho que tenho que ela disse se chamar Marcela e eu passei a tarde inteira, parte da noite chamando-a por Marcela porque o trabalho ficou ótimo, mas levou tempo, cabeleireiro algum teria feito aquela mulher ficar idêntica à foto do crachá, no início pareciam até mulheres diferentes, eu disse ao delegado, que continuava com o crachá erguido na altura dos meus olhos, e eu olhando para o crachá. Foi ideia dele irmos lá no caixa, Quero ver no sistema, disse o delegado, e fomos ao caixa. A menina da recepção era a mesma, sempre a mesma, mas tinha mais olhos pro insta que pra olhar nos olhos das clientes e ela não lembrava, tenho certeza, acho que tenho, que ela falou a verdade quando disse que não lembrava de Marcela alguma nem se aquela mulher que passara a tarde inteira, parte da noite sem ter hora marcada pagou com dinheiro ou com cartão de crédito, por isso o delegado repetiu Quero ver no sistema e fomos lá, olhar no sistema e bateu a hora de entrada e de saída daquele dia, estava tudo no sistema e a cliente se chamava Marcela, Viu, não disse? falei para o delegado e o pagamento havia sido feito com cartão. Tá aqui, disse a menina da recepção. Marcela Dantas era o nome e respirei fundo e olhei pro delegado que ergueu mais uma vez o crachá na frente dos meus olhos mas, perto das tarjinhas verde e amarela, constava o nome Jandira Santos Carvalho, por isso sacudi as mãos sem entender e o delegado balançou a cabeça como se tivesse entendido tudo. Disse que a mulher do caso Cristais, encontrada com o rosto totalmente desfigurado, portava documentos no nome de Marcela Dantas. O interessante era que o corpo foi encontrado um dia antes de Marcela Dantas ter estado no Salão. Você realmente atendeu Marcela, disse o delegado. Eu não entendi, só fui entender depois, quando ele disse que o corpo encontrado não era de Marcela, era de Jandira. No dia seguinte, encontraram o corpo do senador Dantas e havia dois suspeitos, sua esposa e seu amante, por sua vez, marido de Jandira, que planejavam fugir com identidades trocadas. Ao que tudo indica, eu ajudara uma assassina a ficar com a aparência da vítima, pensei, mas parei de pensar porque cada vez que pensava eu entendia menos essa história, tudo que eu sabia era que havia feito um excelente trabalho, nem Hugo, o melhor cabeleireiro de toda Asa Norte teria conseguido aquilo, disso eu tenho certeza, acho que tenho.

Contagem:  997 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

A história ficou bem interessante, e o texto está bem escrito, ainda que a abordagem estilística escolhida pelo autor, que lembra Saramago em alguns pontos, torne o ritmo de leitura lenta. Como se trata da narração de um personagem, quaisquer inconsistências e erros no uso do português podem ser atribuídos a ele, que manteve uma voz coerente e convincente, ainda que um pouco caricata.
O bordão “disso eu tenho certeza, acho que tenho” acabou sendo repetido vezes demais, desnecessariamente. Por exemplo, na frase “Ela respirou fundo, disso eu tenho certeza, acho que tenho”, o fato de ela ter respirado é pouco significativo, pelo que o uso do bordão pareceu excessivo.
A história, como é contada, dá a entender que o cabelereiro está contando o que se passou a outra pessoa, após o ocorrido. Neste contexto, a frase “esse crachá aqui”, ficou confusa, pois soa como se ele estivesse mostrando o crachá à pessoa com quem ele fala – quando na verdade é a frase que ele disse ao delegado, uma vez que logo adiante fica claro que o delegado ficou com o crachá. Ainda que não seja propriamente um erro, a frase gera uma confusão no entendimento do texto, e poderia ser melhorada.

Ana Vilela

Ótimo narrador em primeira pessoa. Narrativa bem construída e clara, o que não é fácil. O texto flui.
1 – Atenção às repetições, apesar de o estilo de texto exigir clareza. Há repetições necessárias e de marcação, de ênfase, mas não é o caso aqui: “[…] eu disse ao delegado, em que isso é possível e comigo havia sido possível no dia em que aquela mulher entrou no Salão […]” – disse ao delegado, possível.
2 -Tem um problema, uma questão que fica: se o delegado chega ao salão interrogando já sobre a tal Marcela, por que o cabelereiro se assusta quando é citado o Caso Cristais? Há algo que não cola na construção da trama em seu início.
3 – Perde-se um pouco do estilo no final. 3.1 Aqui, por exemplo – “No dia seguinte, encontraram o corpo do senador Dantas e havia dois suspeitos, sua esposa e seu amante, por sua vez, marido de Jandira, que planejavam fugir com identidades trocadas.” –, não se sabe quem fala, se o narrador ou se o delegado e há explicações em excesso. Melhor seria continuar jogando com as dúvidas. 3.2 “Ao que tudo indica, eu ajudara uma assassina a ficar com a aparência da vítima” – também fica fora do contexto, explicação desnecessária. Essa informação cabe ao leitor deduzir e está muito clara no conto. Talvez coubesse mesmo somente a dúvida ao narrador ao final. Aqui, já fecha bem, já volta o ótimo narrador impreciso e confuso (porém claro): “[…] mas parei de pensar porque cada vez que pensava eu entendia menos essa história, tudo que eu sabia era que havia feito um excelente trabalho, nem Hugo, o melhor cabeleireiro de toda Asa Norte teria conseguido aquilo, disso eu tenho certeza, acho que tenho.”
Muito bom: “[…] porque nosso trabalho não é cuidar só do cabelo, as pessoas vêm aqui também pra rejuvenescer a alma, por isso botam pra fora, botam tudo pra fora, pra sair de alma leve, tão leve que às vezes nem se olham no espelho, mas Marcela se olhou no espelho, e muito, se olhava da direita pra esquerda, da esquerda pro centro, do centro pra baixo, se olhava tanto que tomei a iniciativa e disse Vamos começar?”

Betty Vidigal

Muito bom. Tem que trabalhar um pouco pra estar perfeito. Pouca coisa. O personagem do cabeleireiro está bem construído. A trama é confusa em si; não por culpa sua, mas por culpa dela mesma. Você quase que conseguiu explicar tudo direitinho. Um pouquinho mais de tempo para trabalhar no conto – e você deixa bem clara essa mecânica de troca de identidades.

Revisão:
● “o melhor cabeleireiro de toda Asa Norte” – tem de ser “toda a Asa Norte”. (aparece duas vezes)
● “toda maldita hora nos sentimos velhos e é pra isso que as pessoas vêm pra cá”. Melhor “por isso”. Se você quiser “pra isso”, tem que completar a frase: “toda maldita hora nos sentimos velhos e é pra isso que as pessoas vêm pra cá, pra se sentirem menos velhas” – por exemplo. Ou qualquer outra explicação” do “pra” que as pessoas vão lá.)

João Paulo Hergesel

Considero uma ousadia escrever um conto em fluxo de consciência, com diálogos no estilo indireto livre, durante uma oficina literária. Geralmente essa estratégia é adotada em publicações experimentais ou por autores já consagrados, que demonstram domínio do idioma e da literatura. Por isso, registro os parabéns ao/à autor(a). O texto cumpre seu dever artístico ao retratar, no pensamento acelerado de um cabeleireiro, sua aflição por estar em depoimento com um delegado. A ideia, no entanto, é revelada assim que os personagens ficam claros, e o clímax perde seu impacto de surpresa. Além disso, o fato de existir uma novela na Rede Globo com temática semelhante (a irmã que usa os documentos da outra e modifica o visual para enganar a polícia) colaborou para revelar o mote da narrativa.

Oswaldo Pullen

Interessante conto de mistério, com a confusão entre Marcela e Jandira sendo explicada somente no final. Algumas coisas não são clarificadas, como o porquê do crachá ter ficado com o cabeleireiro. Mas no geral é bom.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão  9.5
Ana Vilela  9.8
Betty Vidigal 9.6
João Paulo Hergesel  9.6
Oswaldo Pullen  9.5
Total 38,4