O caso do azulejo pirata

Clara Lua

O sujeito destoava da maioria das pessoas presentes no Parque da Cidade. Alto demais, com uma cabeleira basta quase sempre atrapalhada sobre a testa e os olhos. Vestia-se de um jeito como um personagem que tivesse acabado de sair de um livro antigo. Magérrimo, usava calças com cintura alta, o que lhe conferia uma aparência daqueles palhaços com pernas de pau. Sentou-se bem próximo ao relógio de sol no parque. Ninguém o conhecia e ele também não conhecia ninguém. Este anonimato era bem-vindo na véspera de completar cinquenta anos, e Hans Beck havia escolhido Brasília para se afastar um pouco de sua tumultuada vida profissional em uma notória universidade na Alemanha. Há muito que deixara para trás um casamento fracassado e um filho de quem há anos não tinha notícias. Não culpava ninguém pelo seu fracasso, nem mesmo a si próprio. Sentia-se bem. Esboçou um sorriso de satisfação por estar completamente só. A solidão nunca fora um peso, antes um alívio.

Entre o burburinho de crianças, adultos, cantores ao ar livre, ambulantes oferecendo seus produtos, Hans fechou os olhos, e deu um suspiro profundo de contentamento. Depois, levantou-se e foi na direção de um painel de azulejos de AthosBulcão. Ali, ajeitou os óculos, e foi acompanhando meticulosamente todo o desenho assimétrico que já conhecia de outras viagens à Brasília. É fantástico! Pensou ele. Tudo parecia bem. Entretanto, por causa de sua imbatível condição obsessiva de tudo examinar com riqueza de detalhes, fez uma descoberta surpreendente: identificou um único azulejo pirata no meio de milhares que compunham aquele painel. Aquele azulejo não fazia parte do conjunto do grande artista AthosBulcão. Hans tinha certeza disso. Seu comportamento obsessivo compulsivo, acrescido de um agudo senso de observação lhe permitia enxergar além da grande maioria das pessoas, mas isso de certa forma não deixava de ser uma maldição, pois o tornava refém dos mínimos detalhes que nunca lhe escapavam.

A princípio, a existência de um único azulejo pirata que não comprometia em nada o magnífico conjunto da obra do grande mestre Bulcão não incomodou o alemão. Ninguém perceberia, é fato. Apenas ele, eterno perfeccionista. Mas não se passaram cinco minutos sem que uma necessidade imperiosa de comunicar tal fato lhe martelasse o cérebro. Aquilo não estava certo. Procurou um posto de polícia dentro do parque e lá expôs o que julgava ser seu dever. O policial que o atendeu, evidentemente nada entendeu. Estava ali para atender ocorrências de fato, como assaltos ou qualquer incidente que causasse a perturbação da ordem pública.

– O quê? Não entendo sua queixa. Foi roubado?

Hans não deixou de demonstrar seu descontentamento, mas paciente, insistiu:

– Policial, há um azulejo falsificado, não é de autoria de AthosBulcão.

Mais um maluco, pensou o policial.

– Quero ver seus documentos.
Hans tirou seu passaporte e o exibiu ao policial.

– Aqui diz que o senhor é alemão. Mas fala português! Esse passaporte é seu? Ou “achou” por aí?

Por um acaso, uma jornalista com olhos de águia estava no recinto, ávida por uma novidade que merecesse destaque em um jornal. Ouvindo o diálogo, ela se ofereceu para resolver o impasse.

– Policial, ele está dizendo que existe um azulejo pirata de AthosBulcão, o artista que desenhou e pintou os azulejos do painel do parque.
A moça tentou ajudar.

– Posso ver seu passaporte? Senhor …senhor

– Hans Beck.

A jornalista não teve dúvidas de que se tratava de um alemão que falava um português impecável, quase sem nenhum sotaque. Pesquisou rapidamente em seu smartphone e comprovou que estava diante de um célebre professor, escritor, filósofo, cientista, doutor em artes, e profundo conhecedor da obra de AthosBulcão. A moça passou toda a informação para o policial que, contrariado, não teve alternativa senão registrar a estranha ocorrência. Mais tarde um perito do patrimônio histórico e cultural comprovou a veracidade do fato, mas o caso logo foi arquivado. A jornalista passou a notícia para seu jornal, mas não houve grande repercussão.
O fato de um único azulejo pirata no meio de milhares autênticos permaneceu um mistério para sempre. Hans voltou para seu país, certo de ter cumprido seu dever, porém incomodado, pois a ideia daquele azulejo pirata no lugar errado era-lhe insuportável. Mas nem sempre podia consertar certas situações, e sabia que o tremendo sofrimento causado por isso era inevitável.

Ninguém nunca saberia que um pedreiro humilde já falecido, que ajudara a construir o painel no parque da cidade, havia levado sorrateiramente um azulejo para casa. Lá, com uma incrível habilidade para a arte, reproduzira tal e qual a pintura, e restituíra o azulejo pirata para o lugar do verdadeiro. Ninguém perceberia, julgava ele, se não fosse pelo alemão, muitos anos mais tarde.

Hans prosseguiu com sua vida, sempre perseguido pela obsessão. Na semana seguinte, enquanto almoçava num restaurante em Dresden, teve que passar pelo constrangimento de andar de gatinhas pelo espaço todo para procurar por um palito que havia caído de sua mesa. O garçom se ofereceu para ajudá-lo, e como não obteve sucesso na empreitada, simulou um palito tirado de outra mesa, mas Hans recusou, sabia que não se tratava do palito que procurava. Era um mero palito pirata.

Hoje, um solitário azulejo de desenhos, cores e traços autênticos de AthosBulcão enfeita a parede da sala da filha do pedreiro José Carlos, sem que ela jamais tenha suspeitado da arte do pai.

Contagem:  897 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Texto muito bem escrito. Acompanhei a narrativa com grande interesse, deixando-me envolver pela atmosfera do conto, criandoexpectativa em relação aos acontecimentos. Bem caracterizado inicialmente o personagem central, tanto física quanto cultural e psicologicamente. Contudo, o seu à vontade com a língua e a cultura brasileira (que só na cena da delegacia é revelado) parece apontar para a necessidade de mais elementos na caracterização inicial do personagem que legitimem a sua descoberta: a familiaridade com a cidade, sua arte, e com a língua. Bem elaborada a cena da descoberta do azulejo falso, a perturbação causada a um obsessivo compulsivo, alemão, e ainda por cima, perito em arte (mas fiquei curiosa de conhecer visualmente a imperfeição do azulejo). Outro ponto forte do conto: o humor. Ótima narrativa do comportamento de desconfiança do policial. A história do palito é sensacional! Só não me pareceu muito convincente a história do operário (tive a sensação de que enfraqueceu a narrativa). O final poderia ser trabalhado de forma mais surpreendente? De qualquer maneira, é uma excelente estreia neste desafio. Parabéns, Clara Lua!

Celso Bächtold

A autora caracterizou muito bem o personagem e o ambiente em que ele se encontrava. Por isso mesmo, talvez o parágrafo relativo ao “palito”, que descreveu mais uma vez o comportamento obsessivo do Hans, pudesse ser suprimido em detrimento de um maior enriquecimento do fato principal, o falso azulejo.
No mais está coerente e muito bem escrito.

Paulo Fodra

Tema simples, quase simplório, trabalhado de forma bastante apressada. Quando a história parece que vai começar a se desenrolar, termina. zAlgumas construções estranhas como “O fato de um único azulejo pirata no meio de milhares” e “simulou um palito tirado de outra mesa” acabam diluindo o foco da narrativa, junto com problemas de pontuação isolados.

Roberto Klotz

Ótima abertura com “como um personagem que tivesse acabado de sair de um livro antigo”. Mostrou originalidade em: “A solidão nunca fora um peso, antes um alívio.” E “o tornava refém dos mínimos detalhes que nunca lhe escapavam.” O fechamento também foi muito bom. Talvez pudesse eliminar o último parágrafo.

Simone Pedersen

O tema foi bem desenvolvido, respeitando o desafio, com leitura prazerosa e fluída. Sem surpresas. A motivação do pedreiro poderia ter sido mais explorada. Os elementos do desafio foram respeitados.

Nota

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,5
Celso Bächtold 9,0
Paulo Fodra 6,5
Roberto Klotz 9,0
Simone Pedersen 8,8