O detetive virtual

Pantaneiro

Arthur queria ser detetive. Era fascinado por histórias de suspense. O pai era policial civil, divorciado. A mãe voltou para o Maranhão. Arthur encontrou na internet campo fértil para brincar de investigador. Entrou num grupo de detetives, formado por hackers, especialistas em crimes virtuais. Para entrar no grupo, forjou dados, aumentou a idade, adotou codinome. Ao se embrenhar pela “deep web”, soube dos Cavaleiros Medievais, uma irmandade que surgiu nos porões dos antigos mosteiros e permaneceu na clandestinidade, em decorrência dos seus fins espúrios. Essa confraria ganhou notoriedade por congregar e acobertar padres pedófilos no século XVIII, na Europa.
O padre Dom Bosco, criador dos Salesianos, acolhia meninos que trabalhavam como adultos nas fábricas e eram presas fáceis dos pedófilos e escravagistas. Criou colônias de férias e oratórios festivos, onde os meninos brincavam, aprendiam artes e ficavam protegidos dos exploradores. Por isso, virou inimigo dos Cavaleiros Medievais. Certa vez, levou uma flechada numa emboscada, no sul da Itália, sobrevivendo por milagre. O papa João Paulo I, que tinha por objetivo acabar com a corrupção no Banco do Vaticano e escândalos de abusos sexuais na Igreja, morreu envenenado após um mês de papado, vítima do lado obscuro da Santa Sé. O símbolo da irmandade é um sino dentro de uma ferradura. A ferradura representa os cavaleiros. O sino, segundo a Igreja, possui o poder de purificação. Os Cavaleiros acreditam que, abusando dos meninos, serão purificados para expiar seus pecados. Arthur descobriu que os Cavaleiros Medievais ramificaram-se pelo mundo, não estão restritos mais à Igreja e continuam agindo, inclusive no Brasil.
Quando recebeu o convite do Leo, ficou lisonjeado. Afinal o amigo é filho de um médico notável, rico e exemplar. Dr. Anselmo é viúvo, sessenta anos. Leo é bem relacionado, mas tem seus amigos prediletos. Arthur é um deles. Comemorar o aniversário num hotel à beira-lago foi sugestão do Dr. Anselmo. Haveria um congresso de Cirurgia Plástica em Brasília. Para participar do evento e comemorar o aniversário do filho, a solução foi reservar uma ala do Royal Tulip, onde aconteceria a conferência. Para Leo não ficar sozinho, Anselmo sugeriu convidar quatro amigos para hospedar-se com eles no fim de semana. Assim se divertiriam, comemorando o aniversário. Leo convidou Arthur, Beto, Rafael e Ígor. Ele ficaria com o pai, na suíte master, enquanto os quatro amigos dividiriam duas suítes no mesmo andar.
Arthur pediu permissão ao pai, que concordou, pois viajaria para Pirenópolis com a namorada. Os cinco amigos reuniram-se na casa do Leo, sexta-feira, depois da aula. Almoçaram e foram de lancha, com o marinheiro do Dr. Anselmo, para o Royal Tulip, próximo ao Palácio da Alvorada. Dr. Anselmo estava desde cedo no congresso. Os meninos se divertiram na piscina e no salão de jogos. Sábado à tarde, a festa no hall de eventos do hotel. Na hora do parabéns, Arthur conheceu Dr. Anselmo. Um homem sério, mas educado. Algo, porém, chamou a atenção do garoto. Ele puxava uma perna e usava muleta.
Na noite de sábado, Arthur dormiria sozinho. A mãe de Beto, colega de quarto de Arthur, viera buscá-lo. Pensou em convidar Leo para lhe fazer companhia. Foi à suíte principal. Tocou a campainha. Ninguém atendeu. Insistiu. Notou que a porta estava apenas encostada. Entrou, chamando pelo amigo. Devia estar tomando banho. Ao passar pela ante-sala, viu uma agenda grande com capa de couro sobre a mesa. Não pôde deixar de observar a ferradura e o sino na capa da agenda. Levou um susto: o símbolo dos Cavaleiros Medievais? Na mesa, havia vários papéis soltos, cartões de visitas e anotações. E também um santinho de Dom Bosco. Na imagem do santo, o desenho de uma flecha atravessando seu peito, como São Sebastião. — O que significa isso?, pensou. Lembrou que os Cavaleiros Medievais tentaram matar Dom Bosco com uma flechada.
No verso do panfleto, além da descrição completa do sonho-visão de Dom Bosco, havia estas palavras. “Na cidade visionária do inimigo, os irmãos erguerão o Templo da Ferradura e nele reinará o Sino da Purificação”. Junto havia uma foto do Hotel Royal Tulip, cuja conformação se assemelha a uma ferradura. Largou a agenda e resolveu sair dali imediatamente. Ouviu um barulho vindo do banheiro. A porta estava semiaberta. No chuveiro o Dr. Anselmo se ensaboava, de costas. Na espátula do velho, ele viu! Uma tatuagem: o sino dos Cavaleiros. Arthur recuou. Queria sair dali imediatamente. Na pressa, esbarrou em algo, fazendo barulho. Dr. Antunes se virou, mas ele saiu correndo, bichinho assustado, passarinho arfante. Trancou-se no quarto. Pouco tempo depois, a campainha toca. Ele, imóvel, a respiração presa. A campainha insiste. Ouve a voz do Leo chamando. Ainda em pânico, abre a porta. Leo, sorridente, pergunta.
— Que houve? Daqui a pouco meu pai vai descer para jantarmos. Ele inventou uma desculpa. Iria depois. Ligou para o pai, várias vezes. Celular fora de área. Decidiu não descer mais. Não teria coragem de encarar o pai do Leo. Sua preocupação era sempre a mesma: — Será que o Dr. Anselmo me viu? No outro dia, sairia cedo e pesquisaria a vida dele no “Detetives Virtuais”. Certificou-se de que estava de posse dos dois cartões de acesso ao quarto. — Ninguém mais podia entrar ali, pensou.
Leo ainda insistiu, por telefone, que ele descesse para jantar, mas Arthur disse que estava sonolento, já comera um sanduíche, queria dormir. Ficou vendo televisão até mais tarde, o medo estampado no coração. Não apagou a luz. Programou o “sleep timer” do televisor. Vencido pelo cansaço, caiu no sono. Teve pesadelos. Sonhou que estava sendo perseguido pelos Cavaleiros Medievais e lutava para escapar. Pedia ajuda aos detetives virtuais, mas nada. Acabou sendo alcançado por um dos cavaleiros, que arrastava uma perna. Ele o agarrara e tentava tapar-lhe a boca com um lenço embebido em clorofórmio. Quase podia sentir o cheiro da substância e ouvir o “toc-toc” da muleta no chão. Acordou sobressaltado. Abriu os olhos. Ao lado da cama, o Dr. Anselmo, em pé, completamente nu, olhava para ele, com um lencinho úmido na mão.

Contagem: 996 palavras

Comentários

Allan Vidigal

A ideia é interessante, mas acho que precisaria de muito mais volume de texto para funcionar. Fica complicado apresentar essa paramitologia toda em mil palavras: acaba amontoando informação.
Outra: “espátula”? Acho que você misturou “scapula” e “espádua” (coisas desse tipo não afetam em nada a nota, ok? É só algo que me chamou a atenção).
Não está ruim, mas não funcionou para mim.

Cinthia Kriemler

Enfim, uma história diferente. Adorei. Prendeu minha atenção do começo ao fim.E é bem escrita. Cumpre o desafio e mais. Você poderia desenvolver um livro a partir desse conto. Parabéns!
*antessala ficou assim, pós Acordo.

Marco Antunes

“deep web”− “sleep timer”− Expressões estrangeiras precisam vir em itálico. O entrecho é confuso e pouco convincente, o narrador é o velho narrador egoísta que toma tudo para si e raramente liberta a ação. O autor não deve esquecer de que a natureza do conto é teatral e dramática. Já ouvi uma posição de um grande teórico bastante radical a esse respeito. Dizia o lente, cujo nome agora me escapa, que todo bom conto, dispensado o narrador, teria potencial para transformar-se em teatro e toda peça, implantado um narrador, teria potencial para transformar-se em conto. Por isso, valorize o diálogo, a ação direta.

Nálu Nogueira

Poderia ter sido um bom conto, mas o autor se atropelou na narrativa, elementos demais para juntar, construções equivocadas e confusas, narrativa um tanto infantil e uma “espátula” que eu creio que é “escápula” ou “espádua”. O enredo eu achei realmente bom e promissor, penso que o autor deva se debruçar sobre a história, enxugar os excessos, articular e encadear melhor a narrativa, e assim construir um conto à altura do enredo criativo que concebeu.

Wilson Pereira

O conto atende à proposta do desfio. A trama é interessante, mas falta-lhe algo de verossimilhança, consistência narrativa.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 7,5
Cinthia Kriemler  10,0
Marco Antunes 8,2
Nálu Nogueira 6,5
Wilson Pereira 8,3
Total  40,5