O enviado

Clara Lua

Como sempre a capital era um caldeirão dos diabos fervendo com escândalos morais e financeiros. Revelações bombásticas de corrupção traziam mais e mais jornalistas que se hospedavam nos hotéis próximos ao complexo político. O ramo hoteleiro de nada se queixava, pois quanto mais confusão, mais hóspedes e mais dinheiro.

Não foi à toa que o gerente do apart hotel estranhou aquele homem esquisito entrando no estabelecimento que ficava próximo ao Palácio da Alvorada. O sujeito era alto feito um poste, magro feito um cabo de vassoura, tinha os cabelos e barba compridos e usava um camisolão por cima de uma calça surrada. Trazia um alforje igualmente surrado, e mais estranho ainda, não desgrudava de seu cajado. Mas pagou em dinheiro uma hospedagem de uma semana. Não falava nem o estritamente necessário, ou seja, mudo feito um cavalo. Se lhe diziam bom dia ele só meneava a cabeça, se perguntavam seu nome, ele balbuciava qualquer coisa, no entanto, ao dar entrada no apart hotel fez tudo direitinho, apresentou identidade e assinou: Jeremias Almengor da Silva. O “da Silva” certamente acrescentava certa leveza ao peso do estranho nome. O cara era limpinho, descia de banho tomado, cheirando a sabonete.

Diante da visão inusitada de todo o conjunto, ninguém estranhou que ele trouxesse um sino tatuado no braço magro. Ora, o sino parecia ser o de menos. Mas não era, aí é que está. Seu Gilberto, o gerente e esotérico nas horas vagas, procurou no Google a simbologia do sino. Podia ser coisa boa tanto quanto podia ser coisa do mal, dependendo de cada cultura. Acabou se acostumando com o homem, afinal o que é que tem ser um pouco ou muito estranho? Todo mundo tem direito às suas esquisitices. Jeremias entrava e saía do hotel, sem nenhuma confusão aparente. Acontece que seu Gilberto tinha um olho lá e outro cá e percebeu que Jeremias deixara cair da carteira um santinho com a profecia de Dom Bosco. Aí tem coisa, concluiu o homem. Mas continuou sem saber se era coisa boa ou má.

E foi aí que em seu terceiro dia de hospedagem, Jeremias saiu e foi direto para o Palácio da Alvorada. É lógico que foi barrado bem longe da entrada, mas levantou o cajado, mais se parecendo com o profeta João Batista no deserto exortando a todos que se arrependessem. Quando perguntado o que queria, insistia que precisava falar com o Presidente. A princípio ninguém deu bola, era só espantar o sujeito e pronto, mais um maluco entre tantos que já tinham aparecido no pedaço. Só que o homem não arredava pé, era coisa particular e urgente. Jeremias já começava a ser manchete de televisão, pois água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Aborrecido, o presidente não teve saída senão dar uma colher de chá para Jeremias, às vezes até um presidente tem que se ocupar de questiúnculas. Convinha agradar o povo que já simpatizava com o cara com nome e pinta de profeta. Pobre presidente!

O que conversaram a portas fechadas permaneceu em segredo de Estado, mas o Ministro para Assuntos Ocultos conseguiu ouvir a frase “separar o joio do trigo”. Cabeças vão rolar, ele deduziu, e logo a notícia viralizou tanto no palácio como na mídia, como tudo viraliza hoje em dia. Jeremias era o grande astro do momento, “o cara”. Voltava sereno para sua suíte no apart hotel, sem dar a mínima para os jornalistas que se digladiavam para entrevistar o sujeito.

– E aí seu Jeremias, o que o senhor falou para o presidente? O que o presidente respondeu para o senhor? O senhor é religioso? Como o senhor se sente?

E Jeremias fazia ouvidos moucos, subindo direto para seu quarto. No palácio corria à boca pequena que o presidente havia mandado comprar duas caixas de alprazolam de 2 mg. A coisa estava feia. E piorou quando a imprensa descobriu que o presidente deixou o palácio na calada da noite indo para o apart hotel onde Jeremias estava hospedado e lá ficou em seu quarto pelo resto da noite. O que seria aquilo? Agora era a montanha que ia até Maomé? O que faziam? O que conversavam? Teria o presidente algum rabo preso com Jeremias? Mistério total. No dia seguinte o presidente voltou para o palácio com olheiras profundas e desferiu ordens que foram seguidas à risca. Tudo no sigilo.

Às 3 horas da tarde, pontualmente, toda a capital foi sacudida por sinos que repicavam em todas as igrejas, colégios, mosteiros cristãos e budistas, convocando todos para a boa ou má nova. O presidente foi às falas na televisão e apresentou Jeremias com seu cajado e seu sino tatuado no braço magro. Finalmente o homem falou. Era um profeta encarregado de concretizar a profecia de Dom Bosco sobre a cidade. Jeremias limpou a garganta:

– “é verdade que quando viessem escavar as minas ocultas, no meio destes montes, surgiria aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Seria uma riqueza inconcebível …” riqueza essa que foi usurpada pelos corruptos. Urge separar o joio do trigo. Como é bem provável que nesta cidade perdida de corrupção não reste um único trigo em pé nem deitado, apenas joio da pior qualidade, verterá sangue nesta terra todas as tardes e noites, sangue que cairá do céu e brotará do chão, até que cada joio seja arrancado e lançado ao inferno. E que já vá tarde!

Evidente que todo mundo caiu na risadaria e o presidente caiu nas pesquisas e na desgraça geral, mas naquele mesmo dia, ao findar a tarde, naquele momento em que o crepúsculo deita seu manto sobre a cidade, começou a descer sangue do céu, uma chuva vermelha que só amainou quando o sol da manhã começou a surgir, exibindo um mar vermelho de sangue. O fim do leite e mel eram favas contadas. Jeremias Almengor da Silva não foi mais visto em canto nenhum. Sua missão estava cumprida.

Contagem: 985 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

O conto está interessante, embora esteja linear demais – o ideal em contos é que haja alguma surpresa ou “virada” na história.
Há alguns problemas de continuidade/tempo que devem ser evitados em futuras histórias: muita coisa acontece em pouco tempo, tirando a credibilidade e quebrando a suspensão da descrença da história. Por exemplo: Jeremias, sem fazer nada, via notícia (aparentemente) em poucas horas; a notícia “viraliza” em poucas horas, o presidente cai nas pesquisas em poucas horas.
Um pequeno detalhe: na frase “Voltava sereno para sua suíte no apart hotel, sem dar a mínima para os jornalistas que se digladiavam para entrevistar o sujeito.”, “voltava” se refere a Jeremias; pelo que “o sujeito” não se encaixa na frase, deveria ser simplesmente “entrevistá-lo”

Ana Vilela

O texto está bem escrito, o narrador é bom, se desenvolve bem, com uma linguagem condizente e limpa, mas a história em si não empolga.
A ideia do profeta, até em virtude da profecia de Dom Bosco, está em muitos contos. O cenário político também já é esperado. O início não instiga. As informações, já tão batidas, podiam até ser usadas, mas de uma forma diferente… Partes como esta “O ramo hoteleiro de nada se queixava, pois quanto mais confusão, mais hóspedes e mais dinheiro” são desnecessárias, pois nada acrescentam ao conto.

Betty Vidigal

− Falta muito para o conto estar pronto. Pode ser que venha a ficar bom, mexendo bastante.
– Por que “mudo feito um cavalo”? Cavalos não são particularmente silenciosos. Você não pode dizer “mudo como um peixe”, porque seria um lugar comum. Pode usar qualquer outra comparação com algo vivo ou inanimado que seja mudo. Mas será que você precisa mesmo de uma comparação, aqui?

Revisão:
• “tinha os cabelos e barba compridos”
ou você diz “tinha cabelos e barba compridos” ou” tinha os cabelos e a barba compridos”
• exortar – corrigir a regência. Você pode dizer “exortando todos a se arrepender”, ou “exortando todos a que se arrependessem”.
• Verificar vírgulas, regências…

João Paulo Hergesel

A expressão “como sempre” me soa bastante clichê quando usada em início de frase, além de ser totalizadora e, portanto, passível de questionamentos. Eu cortaria, assim como a analogia com “caldeirão dos diabos”. Além de grosseira para se referir a Brasília (convenhamos que, mesmo com as conturbações que existem no Planalto, a cidade é cheia de amor), ainda não foge do lugar-comum. Continuando no primeiro parágrafo, “revelações bombásticas” também me parece bastante batido, especialmente depois que os programas de fofocas de celebridade conseguiram transformar o adjetivo “bombástico” em sinônimo para qualquer evento que contrarie a rotina do indivíduo comentado. No período seguinte, sinto que apenas “O ramo hoteleiro de nada se queixava” já é autoexplicativo e cria uma espécie de humor negro; no entanto, quando a explicação – “pois quanto mais confusão, mais hóspedes e mais dinheiro” – é acrescida, o texto parece tratar o autor como incapaz de entender nas entrelinhas. Aqui caberia a regra do “menos é mais”. Os chavões prosseguem no texto: “alto feito um poste”, “magro feito um cabo de vassoura” e prejudicam a originalidade linguística; a tentativa de inovação em “mudo feito um cavalo” não me pareceu muito correta: equinos relincham, trotam, bufam, fazem tanto barulho que não sei como podem ser classificados como “mudos”. O trecho “O ‘da Silva’ certamente acrescentava certa leveza ao peso do estranho nome” induz que “Jeremias” (no mesmo balaio de “Almengor”) seria um nome diferente, complicado, difícil; entretanto, não sei se pode ser considerado assim. A descrição a seguir, do homem limpinho cheirando a sabonete, não me parece muito conexa ao que vinha sendo tratado: falava-se do nome e do mistério, mas esses elementos não têm ligação com a higiene pessoal de um indivíduo. Novamente, outro choque de sentido: a esquisitice e a estranheza se apoiam no fato de ele se vestir com alforje e carregar um cajado, mesmo se chamando Jeremias da Silva, tomando banho regularmente e sendo um cidadão aparentemente correto. Soa até preconceituoso se não deixar claro o que se entende por esquisito/estranho e ao olhar de quem ele aparentava atender a esses requisitos. Quando a tatuagem do sino é colocada em destaque, ela está ligada à ação do gerente do hotel de pesquisar a simbologia do objeto; contudo, somente afirmando que pode ser “coisa boa” ou “coisa má”, o narrador não quer dizer nada. Seria interessante mostrar ao leitor qual é a benevolência e qual é maleficência que o sino representa – a não ser que fosse um caso de suspense; daí, porém, nem precisaria mencionar que tem duplo significado. E prosseguem os clichês: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”; “dar uma colher de chá”; “pinta de [profeta]”; “conversaram a portas fechadas”; “separar o joio do trigo”. Se pelo menos o conto fosse uma brincadeira metalinguística, teria motivo para a presença desses lugares-comuns; mas não o é. Existe outro caso de generalização: “como tudo viraliza hoje em dia” (lembrando que “hoje em dia” pode se confundir no tempo, se o conto não tiver sua data de criação bem demarcada). Por fim, a narrativa concretiza a hipótese apontada desde a abertura (de que Jeremias era um possível profeta), sem surpresas no desfecho, sem ações que estimulem o entusiasmo do leitor.
Considerações estilísticas:
1) Em alguns momentos, as vírgulas sozinhas não dão conta de demarcar as pausas e/ou os elementos enumerados; nesses casos, é importante pedir auxílio ao ponto e vírgula, que ainda se demonstra bastante útil linguisticamente, mesmo sendo esquecido por muita gente.
2) O nível de linguagem oscila bastante entre o culto/formal e o coloquial/informal. Isso é prejudicial para qualquer tipo de texto. No caso do conto, diferentemente da crônica, costumo recomendar que a informalidade esteja presente somente nos diálogos (a não ser que o texto seja narrado em primeira pessoa).
3) O uso do discurso indireto livre não me agradou. Talvez devido à fragilidade do conto, as falas se percam em meio aos parágrafos e percam seu potencial dialógico. Nesse caso específico, eu recomendaria utilizar os travessões.
4) A palavra “Presidente” ora aparece com a inicial em caixa-alta, ora em caixa-baixa. É importante padronizar. No caso, por ser o Presidente da República (e não o presidente de uma empresa, por exemplo), sugiro optar pela caixa-alta.

Oswaldo Pullen

Conto razoável, porém com problemas de verossimilhança. Cito o camisolão do profeta, que tornaria a tatuagem impossível de ser vista. A questão do pagamento adiantado de uma semana sugere que o personagem só iria permanecer por este período no hotel, o que o restante do conto desmente.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 7,8
Ana Vilela 8,0
Betty Vidigal 7,5
João Paulo Hergesel  7,0
Oswaldo Pullen 8,8
Total 39,1