O estranho

Cruz e Espada

Ele apareceu na quarta-feira. Alto, magro, olhos negros, cabelos grisalhos, sotaque forte puxado para o espanhol.
– Café – pediu.
Meus olhos estavam vermelhos e o crânio latejava. Se ele notou a mão tremendo enquanto servia, preferiu não comentar.
Quando terminou de beber, tirou do bolso um maço de cigarros e uma caixa de fósforos com a propaganda de um hotel. Antes que acendesse eu avisei que era proibido fumar. Ele não insistiu. Perguntou quanto devia, deu o dinheiro trocado e foi embora.
Não houve mais surpresas no resto do dia. Pessoas subiram e desceram as escadarias do metrô, entraram e saíram dos trens, se encontraram e se perderam; um pavimento acima, a rodoviária distribuiu o rebanho mundo afora.
Depois do expediente voltei para a pensão. Uma hora sacudindo no ônibus. E nada de Rosane ligar.
Tomei banho, contei as moedas para comer um cachorro quente e fui para o quarto. As cigarras cantavam. Grudadas no tronco das árvores que margeavam a rua, zumbiam que nem furadeira. Colocar algodão nas orelhas ou fechar a janela não resolvia. Elas arrumavam um jeito de superar os obstáculos e me conduzir à loucura.
Alguns inquilinos deixavam a televisão ligada para enganar o escarcéu. Eu não sabia o que era pior.
Dormi mal e acordei num susto. Arrastei o corpo pelas calçadas, tomei o rumo da Asa Sul.
Ele voltou na quinta-feira e tornou a pedir café. Estava tenso. Bebeu sem desviar a vista da entrada e desapareceu na multidão.
Cumpri meu calvário. Trabalho, ônibus, falta de crédito no celular, pensão. O barulho parecia ter aumentado. Tudo parecia mais confuso.
Ele repetiu o pedido no dia seguinte. Precisei segurar o bule com as duas mãos para atendê-lo.
– Algum problema? – ele perguntou.
Limpei as gotas derramadas sobre a fórmica:
– As cigarras não me deixam dormir – expliquei.
Ele bebeu um gole:
– Nova York não tem cigarras em setembro – disse.
Em seguida estalou a língua:
– Mas o café brasileiro é melhor que o americano.
Abri um sorrisinho e cobrei a conta. O celular vibrou no bolso. Era mensagem de Rosane: gato, não dá mais, desculpa.
Esmurrei o granito da bancada: filha da puta! Quando eu tinha grana me infernizava querendo namorar. Agora que a situação apertava caía fora. Mandei quinze toques, ela não ligou de volta. Pedi dinheiro emprestado para os colegas e só recebi gargalhadas em resposta. Escondido atrás do Caixa, o gerente me mandou enfiar o telefone no rabo.
Não houve trégua também nessa noite. Quando o despertador tocou, eu não sabia se estava dormindo ou acordado.
Ele retornou no sábado, no mesmo horário, mas dessa vez não ficou sozinho. Um sujeito de terno e gravata encostou ao lado dele no balcão. Conversaram numa língua que eu não identifiquei, o homem de terno falando num tom agitado e ele respondendo com calma. A certa altura o engravatado estendeu um envelope. Ele o tomou entre os dedos e abriu num gesto veloz.
Vi pelo canto do olho que se tratava de um convite para o Itamaraty. Não havia nome no grande pedaço de papel dourado, apenas letras bem desenhadas convidando Vossa Senhoria para uma recepção de gala.
Ele retirou um pacote pequeno e retangular do bolso de trás da calça. O outro recebeu o embrulho, pôs dentro do paletó e partiu quase correndo.
Era meio-dia, o fim de semana começaria dentro de duas horas. Faltando poucos minutos para fechar a loja o gerente chamou um por um.
– Não vai ter salário – disse na minha vez. – Segunda arrumo um vale.
Fiquei quieto porque não adiantava reclamar. Era o terceiro mês seguido. O gerente chacoalhou as banhas e começou a descer a grade de aço. Arranquei o avental e saí.
O trânsito estava muito pior do que durante a semana. Os passageiros comentaram que as ruas haviam sido fechadas para permitir a passagem das comitivas que iam à festa no Itamaraty. Ninguém sabia o motivo da comemoração, só que vinha gente importante de todos os lugares. Reis, presidentes, artistas famosos.
As cigarras tinham feito uma pausa. Pela primeira vez em dias davam um pouco de paz. Abri a porta e me joguei na cama, maravilhado com o silêncio.
No quarto ao lado a tevê chamou o plantão. O apresentador disse que um grupo terrorista ameaçava Brasília. O líder era suspeito de participar de outros atentados e poderia circular pela cidade nesse exato instante. As autoridades manteriam a agenda para não ceder ao medo. Recomendava-se cuidado. Qualquer informação seria bem-vinda.
Achei que conhecia o sujeito alto e magro que descreviam. Se caminhasse meia dúzia de passos poderia conferir a foto na tela do aparelho. Talvez até lembrasse o nome do hotel anunciado na caixa de fósforos.
Mas nesse momento as cigarras recomeçaram a cantar mais alto do que nunca e eu cobri a cabeça com o travesseiro.
Que se foda, pensei.

Contagem: 807 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Escrita precisa,enredo bem estruturado, embora falte tensão à narrativa. Gostei do final. Adorei a frase “A rodoviária distribuiu o rebanho mundo afora”.

Alexandre Lobão

História muito bem escrita, com um protagonista bem construído e um arco de mudança bem estruturado. Não foi mencionada a estação de metrô objeto da provocação, mas como se passa na rodoviária, não acredito que isso seja um grande problema. Nada mais a acrescentar, exceto: Parabéns!

Allan Vidigal

Ótimo.

Ana Vilela

O texto segue muito bem, tem ótimo narrador, gera curiosidade e até angústia, mas não há uma história de fato, nem um ápice. Espera-se alguma conexão entre a falta de grana do personagem e o sujeito que aparece para tomar café. O personagem fala tanto da falta de grana, que esse é o mote do conto; ele é o personagem central. E o não o terrorista. Assim, o conto deixa a desejar. Fica um desejo de querer saber o que vai acontecer com o atendente. Apesar de o terrorista gerar curiosidade, a empatia se dá é com o moço que leva o fora da namorada.
A ideia de uma história dentro da outra é muito boa. Mas uma dessas histórias ficou solta.
Atenção: cachorro-quente.

Betty Vidigal

Final ótimo.
Não ficou muito claro onde o personagem mora– é uma pensão? Precisa dizer. Inquilino pode ser de casa alugada.
Como que com o rabo do olho ele coseguiu ler o convite? Não dá. Melhor o sujeito largar o convite no balcão e então o protagonista ler.

Celso Bächtold

Texto bem desenvolvido, mas sua parte final deixou a desejar. Não houve um ato ou fato que fosse o ápice do conto, o que o torna um pouco enfadonho.

Cinthia Kriemler

A história é verossímil e contém todos os elementos solicitados. Achei interessante, embora ainda esteja me perguntando quem, por mais que esteja com a vida ruim, deixaria de salvar pessoas e evitaria um ataque terrorista. A omissão criminosa me assusta. Gostei da forma como as cigarras fizeram parte da trama, como pano de fundo, não como algum personagem de carne e osso.

João Paulo Hergesel

Por mais que esteja bem escrito do ponto de vista literário e com bastante clareza e corração linguísticas, não parece um conto; está mais para recorte de romance. Existem muitas aberturas a serem exploradas na vida do barista, mas que não conseguem se concretizar nas pouco mais de 800 palavras.

Marco Antunes

Bem longe de seu melhor trabalho neste desafio, este parece traduzir uma certa falta de inspiração e até vontade de escrever;Pelo menos o autor se limitou a um realismo plausível e manteve o patamar mínimo de estilo a que nos acostumou. O entrecho é cheio de buracos e aspectos que mereceriam maior explicação, porém cumpriu o desafio.

Nálu Nogueira

Gostei bastante da soluçao do(a) autor(a) para unir os tópicos da provocação num conto verossímil. O personagem principal está bem situado, bem descrito, seu tormento é captado pelo leitor. O final é genial – um humor que eu adoro e que desmente a ideia do altruísmo, humanizando o personagem, ao invés de resvalar pro que poderia ser mais óbvio.

Oswaldo Pullen

Excelente.

Paulo Fodra

Uma das narrativas mais promissoras dessa safra, consegue criar uma tensão angustiante com os efeitos da insônia e o mistério da identidade do estranho. No entanto, o desfecho anticlimático decepciona por não estar à altura da promessa do conto e desperdiçar detalhes interessantes da história como a vida amorosa e financeira do balconista. Pareceu-me pouco provável que o protagonista sonolento tenha conseguido identificar um convite para uma festa no Itamaraty, com tanta riqueza de detalhes, apenas com o canto dos olhos.

Roberto Klotz

Boa abertura com um pequeno mistério. A história se desenvolveu com criatividade usando certeiramente os elementos da provocação. Fiquei curioso sobre o personagem alto e grisalho, ótimo comentário sobre as cigarras em NY. Fiquei sem saber quem é o sujeito misterioso, mas dei uma boa gargalhada co o final.

Simone Pedersen

Um conto muito bom. Parabéns! A construção do personagem me fez pensar muito. O final é perfeito. Está ali, é só dar uns passos, mas o cansaço da vida faz parecer um deserto e não se envolver é tão mais fácil. A cigarra é personagem?

Wilson Pereira

O conto está de acordo com a proposta do concurso. O conto apresenta uma trama bem articulada e bem desenvolvida, dentro de uma boa técnica narrativa. No entanto, a linguagem deixa a desejar em termos literários e o desfecho é um tanto insosso.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  8,6
Alexandre Lobão 9,7
Allan Vidigal 9,5
Ana Vilela 9,0
Betty Vidigal 9,7
Celso Bächtold  9,0
Cinthia Kriemler  9,4
João Paulo Hergesel 8,5
Marco Antunes  8,5
Nálu Nogueira  9,5
Oswaldo Pullen 10,0
Paulo Fodra 8,7
Roberto Klotz 9,6
Simone Pedersen  10,0
Wilson Pereira  7,8
Total  137,5