O homem-cigarra

Ladrão de São Thomé

Escorado sobre o balcão da portaria do edifício, Maneco vigiava os ponteiros do relógio quando ouviu um grito; e uma trovoada de móveis, e um alarido de vidraças até uma voz se rasgar por socorro. O porteiro pensou logo em ladrão, mas no caminho já imaginava o que o aguardava.

– Calma, dona, tá tudo bem. É só um bichinho…

– Bichinho?! Isso aí é um monstro nojento!

– Que nojento, dona. Sabe alcaparra? Se você refogar as cigarras na farinha, diz…

A moça regurgitou antes de despachar o porteiro como se um inseto fosse, usando uma nota de dois reais no lugar da vassoura. Até o porteiro da noite chegar, Maneco já tinha prestado umas cinco assistências – inclusive a um moleque na calçada que tentava amarrar um barbante no bicho e fazê-lo de pipa. Ao se aproximar do abacateiro, ele viu um envelope semi-aberto no chão. Era um convite. Sem nome. Para um encontro das embaixadas de Brasília no Palácio do Itamaraty. Ele ficou alguns segundos meio inerte, até ouvir um bate-boca lá na portaria.

Era Arnaldo Rabello procurando pelo pacote. Morador do prédio e funcionário do Ministério das Relações Exteriores, ele arrotava suspeitas sem nem ouvir os argumentos do vigia noturno. Maneco tratou de esconder o embrulho e debandar, deixando a cigarra do menino feito pipa avoada. Sem o convite, matutava, Arnaldo não iria à festa – logo não o encontraria lá. Também contava a seu favor uma, digamos, camuflagem social – ele era só o moço que entregava cartas, abria portas e, na primavera, ajudava a conter as malditas cigarras. Não podia perder a chance de estar numa festa daquelas.

E Maneco não era de desperdiçar oportunidades. Este era seu segundo emprego na vida, conquistado depois de ouvir o zelador do prédio falando sobre a vaga na fila do banco. Correu até o síndico, disfarçou uma indicação e, como gratidão enviesada, deu um punhado de notas ao colega de serviço. Já o primeiro trampo foi ainda jovem, quando virou peão de obras no canteiro do metrô, ali perto, na Estação Central. É verdade que, também daquela vez, inventou meia dúzia de experiências no ramo. Passou quatro anos na construção, tempo em que mal via os primeiros raios de sol e já se embrenhava embaixo da terra, feito cigarra jovem, de onde saía apenas quando o mundo adormecia. Agora era a sua vez de cantar.

No dia seguinte, gorjeou rouquidão ao telefone pedindo folga ao administrador do edifício. Depois seguiu até uma loja de aluguel de trajes para festas, onde trabalhava um amigo dos tempos de metrô. Inventou-se padrinho de casamento, choramingou um fraque no fiado e prometeu pagamento em dobro. E assim o fez – com um cheque sem fundo, naturalmente.

Ele subiu a rampa do Palácio como se um noivo fosse, mas, em vez da marcha nupcial, ouviu o eco incessante das cigarras. Passeou pela Sala Dom Pedro I e logo veio um garçom oferecendo um ceviche que mal cabia embaixo da unha. Mandou meia olhada, mais para o garçom do que para a comida, e tratou de enfiar tudo na boca. Parecia um catarro temperado em água salobra, mas sorte sua que era pouco. Essa gente ganha tanto dinheiro pra comer feito pobre, pensava, quando viu Arnaldo passar do outro lado do salão. Capengou em si mesmo, sentiu o fraque enforcá-lo e por pouco não derrubou uma escultura. Era possível que o condômino nem o reconhecesse naquelas vestes, mas, não custava evitar.

Esgueirou-se até o terraço, onde alguns convivas se concentravam para admirar os jardins suspensos de Burle Marx. Aquele povo, sempre afeito a cochichos, era obrigado a quase gritar para conseguir se comunicar, tamanho o alvoroço que as cigarras faziam naquele fim de tarde. Foi aí que ouviu uma loira de cara esticada lamentar entre os dentes.

– Sabe, uma vez estive em Provence, perto de Mônaco, também famosa pelas cigarras. Mas lá elas cantam tão bonito…

Maneco não se aguentou e deu uma estrebuchada, atraindo a atenção dos convidados que por ali ciscavam – entre eles, um embaixador de vista espichada, que comentou:

– Mas todas são muito saborosas.

– Parecem alcaparras… – disse Maneco, meio ao vento.

O china sorriu, enquanto a senhora estourou um botox antes de sair rumo ao banheiro. Maneco viu o embaixador se aproximando e inclinando a cabeça, tal como nos filmes de Bruce Lee, até um sujeito chegar puxando o porteiro pelo braço. Era Arnaldo Rabello. Ele o arrastou e xingou ao pé do ouvido, ameaçando não só expulsá-lo da festa, como também do emprego, “quiçá vai parar na polícia”, ele disse, enquanto Maneco tremia mais pela significância de “quiçá” do que da polícia. Foi quando o embaixador apareceu e, com ligeiras abanadas com as costas da mão, enxotou o algoz. Diante de uma autoridade maior que ele, Arnaldo viu-se como aquele vigia noturno, impedido de argumentar, e achou por bem esconder-se em outro andar.

Agradecido, Maneco desandou a contar suas histórias, que deixara o sertão numa forte seca, quando comia lagarto e até rato-rabudo, e depois cigarras com pequi em Brasília, onde, aliás, devido à obra do metrô, passou mais de dez anos debaixo da terra, feito aquelas barulhentas que estavam ali, sabe? O china ria e repetia, “homem-cigarra, homem-cigarra”, e se danava de perguntar como as conseguia, qual o modo de preparo. Quando a noite caiu, Maneco tinha conquistado seu terceiro emprego na vida: motorista do embaixador da China e caçador de iguarias.

Até ganhou um bocado de dinheiro, mas não se pode dizer que o embuste, dessa vez, deu lá muito certo: o embaixador sempre o intimava a degustar os aperitivos. E Maneco, que nunca foi sequer sertanejo, estava quase virando chinês para manter o emprego e toda aquela lorota. Já o chefe se divertia, e na primavera seguinte ameaçaria:

– Está chegando a época das alcaparras, hein, homem-cigarra – dizia, só para vê-lo tremer. E depois, alisando o bigode, pensava: a isso dão o nome de tortura chinesa…

Contagem: 982 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto muito bem tecido, com desfecho surpreendente. Apreciei o seu teor literário, particularmente em “Maneco vigiava os ponteiros do relógio,(…) ele arrotava suspeitas,(…)parecia um catarro temperado em água salobra”. A linguagem apresenta alguns preciosismos, como a conotação do quiçá no texto. Dei boas risadas. Ponto para o humor.

Alexandre Lobão

História bem imaginativa e divertida, neste caso tenho pouco a sugerir.
Trata-se apenas de uma questão de estilo, mas achei que a construção dos dois últimos parágrafos poderia ser diferente, com uma quebra de parágrafo antes de “Já o chefe…” e outra antes de “E depois…” que reforçassem as pausas dramáticas para dar mais força ao final.

Allan Vidigal

Divertido, sem destques negativos que seja o caso de mencionar.
A não ser, claro, o fato de que você forçou a barra para enfiar o metrô na história. Né?

Ana Vilela

O malandro que se dá bem, mas nem tanto, é legal, brinca com a ironia, com lados diversos do ser humano. Mas falta um clímax. O enredo é fraco: alguém que rouba um convite, vai para uma festa e se dá bem. É quase uma Cinderela, mas com um final irônico, divertido, e não muito feliz.

Betty Vidigal

Era um envelope ou um pacote?
É impossível “estourar” botox. Dá pra estourar pontos de uma cirurgia plástica, dá pra estourar implante de silicone, mas não botox.
A estória tem muitos detalhes desnecessários, fica cansativa. O dono do convite não tem importância na trama, o nome dele nem sequer está no convite. Então por que ele precisa ter nome e sobrenome? Se nem o protagonista tem sobrenome! Melhor dar nome ao chinês! (não que precise. Mas seria bom, pra não se referir ao embaixador simplesmente como “o chinês”.

Celso Bächtold

O texto está muito bem escrito e o entrecho é ótimo. Porém, creio que existem detalhes demais, o que torna a leitura um pouco cansativa, deixando-a sem fluidez.

Cinthia Kriemler

Interessante e divertido. Uma trama criativa que usou todos os elementos do desafio. Gostei do final.

João Paulo Hergesel

Algumas inversões – “como se um inseto fosse” e “como se um noivo fosse” – são desnecessárias e não se justificam nem na provável criação de um paralelismo sintático. A expressão “deixando a cigarra do menino feito pipa avoada” não faz muito sentido; talvez fosse mais sensato dizer “deixando a cigarra do menino avoada feito pipa”. Por fim, a estação de metrô parece ter sido incluída no texto apenas para atender o tema, não despertando relevância para o desenrolar da narrativa.

Marco Antunes

Tudo, toda a atmosfera, leva mais para o rumo da crônica que para o do conto, porém, na zona nebulosa que separa os dois gêneros, vou me deixar seduzir pelo humor do gênero e fingir que se trata, sem dúvida, de um conto e que há um claro conflito dramático e que a personagem se transforma no calor dos acontecimentos.

Nálu Nogueira

Criativo o modo como o autor reuniu todos os elementos da provocação, com doses de humor muito bem colocadas. Mas confesso que não entendi o que aconteceu com Arnaldo na festa nem porque teve que se esconder.

Oswaldo Pullen

O conto aparece somente como um repositório para as palavras-chave exigidas. Poderia ter sido mais inspirado.

Paulo Fodra

Conto muito bem escrito, que atende com muita criatividade às exigências da provocação. Maneco, o anti-herói da história, é uma figura singular e bastante cativante. O tom de humor habilmente construído casou muito bem com o final anedótico. Parabéns!

Roberto Klotz

Abertura e fechamentos bons. O cenário Metrô foi figurante. Chama muito a atenção uma palavra não usual quando repetida. É também o caso da inversão “como se xx fosse”. O nome Maneco aparece onze vezes. A história teria sido ótima se não tivesse errado no tempêro escatológico: nojento, regurgitou, arrotava, catarro. Com sutileza e delicadeza arrancaria gargalhadas. Mas não, senti nojo. Procure encantar leitores, provocar empatia. A criatividade foi o grande mérito desa história.

Simone Pedersen

Um conto divertido e original. A leitura flui sem tropeços. A cigarra é personagem? Gostei muito do homem-cigarra. Tem muitos Manecos por aí. Bacana.

Wilson Pereira

O conto atende ao proposto no desafio.
A trama foi muitotecida, com fatos surpreendentes e bem articulados. Há uma boa dose de humor no texto. A linguagem, muito bem elaborada, atinge um inegável teor literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 10,0
Alexandre Lobão  9,8
Allan Vidigal 8,8
Ana Vilela  8,5
Betty Vidigal  8,5
Celso Bächtold 9,3
Cinthia Kriemler  9,7
João Paulo Hergesel 9,0
Marco Antunes  9,1
Nálu Nogueira  9,0
Oswaldo Pullen  8,5
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz  9,0
Simone Pedersen 9,0
Wilson Pereira  9,3
Total 137,5