O homem que colava

Enrico

Tudo começou quando ele descobriu o significado do seu nome. Era criança ainda e aquilo não fazia o menor sentido. Passava os dias matutando enquanto andava em sua pequena bicicleta nas ruazinhas de uma cidade pequena no interior da Alemanha. Era um menino quieto, falava pouco e quando balbuciava algo era porque não fora entendido por gestos. Nem mesmo na escola aprendera a soltar a língua. Por isso, muitas vezes era motivo de chacotas das outras crianças, o que o fez ficar cada vez mais tímido.
Chamava-se Kléber, um nome sem importância, a não ser pelo fato de o pai ter um amigo de mesmo nome. Foi procurando na Internet que o pequeno descobriu que Kléber significava colador de cartazes. Mais uma vez sentiu-se diminuído. Os outros tinham nomes de significado mais profundo, tais como sabedoria, digna de amor ou o iluminado. E no entanto o dele não tinha graça, ele mesmo não tinha graça. E foi por estas alturas que começou a querer tornar literal o significado de seu nome. Tornou-se um pequeno vândalo ao colar imagens com dizeres obscenos nos lugares mais inapropriados da cidade, como igrejas, teatros ou nos quadros brancos da escola.
Ficava satisfeito em ver que nunca era descoberto e que, dado o seu jeito reservado, nunca recaiam suspeitas sobre ele. Aprendeu a ser safo e andar nas sombras. Conforme os anos foram passando, mais ousadas os seus cartazes e em lugares cada vez mais difíceis e vigiados. Certa noite, quando todos os familiares dormiam, saiu do sobrado em que morava com um rolo de adesivo hidráulico dentro de um cano de PVC. Caia uma neve fininha e, ao subir em um andaime de um monumento histórico em reforma, escorregou e caiu da altura de alguns metros. Quebrou uma das pernas e para não ser flagrado foi se arrastando por alguns quarteirões, até chegar de volta em casa. Subiu com mais dificuldade ainda as escadas que o levariam até seu quarto. Deitou na cama com a adrenalina ajudando-o a suportar a dor. De madrugada, simulou uma queda na escada e foi socorrido pelo pai que o levou ao hospital.
Precisou ficar alguns dias imobilizado, o que lhe deu tempo de projetar novas ações. Ao final de uma semana começou a sentir dores mais fortes na perna. Voltou ao hospital, estava com uma bactéria que o manteve mais seis meses internado. Ao final do período, estava manco e obcecado para concretizar tudo o que havia projetado em sua mente. Aos vinte e poucos anos era um jovem aposentado por invalidez e anunciou aos pais que usaria o dinheiro para conhecer alguns países. E foi juntamente com um grupo de turistas que, um belo dia, Kléber chegou ao Brasil. Com algumas excursões programadas em seu pacote de viagem, foi conhecer Brasília. Na mochila, cartazes cada vez mais mordazes. Mas isso já não rendia o prazer que sentia antes. Precisava de algo que o levasse a sentir o deleite de outrora. Ao olhar o painel de azulejos de AthosBulcão, uma pomba desenhada de cabeça para baixo o fez dar voltas em sua imaginação.
Em um dia de atividades livres, comprou uma tira adesiva branca e umas canetas azuis. Passou por uma banca de revistas e viu uma reportagem falando sobre os desenhos ousados que haviam aparecido de forma misteriosa em diferentes pontos turísticos do Brasil. Pediu uma cópia do jornal basicamente gesticulando e agradeceu ao jornaleiro num sotaque carregado de alemão. Quando saiu, o outro atendente falou rindo e imitando o turista:
— Você viu como ele caminha? Tá fundo, tá raso! Tá fundo, tá raso!
Embora não dominasse muito bem o idioma, Kléber entendeu a piada sobre seu andar manco, o que fez aumentar seu desejo de deixar uma marca mais forte naquela cidade. Fazia um dia azul quando atravessou o gramado e passou por um relógio de sol que desconhecia o horário de verão e enganava-se em uma hora. Estava quase chegando ao cenário de seu primeiro grande ato. O que fizera até agora ficaria num patamar muito abaixo. Pegou a fita azul e sobre ela fez desenhos iguais aos que vira na obra do artista de Brasília.
Ao cair da noite, voltou para o hotel e pegou pelo braço a camareira que havia deixado amordaçada e amarrada mais cedo. Tirou-lhe o adesivo da boca e a fez engolir um pílula. Esperou que ela apagasse, enquanto observava a Igrejinha pela janela.
Na manhã seguinte, uma moça vestida de branco e com a cabeça pendendo para baixo foi encontrada morta e colada na parede com fitas adesivas azuis. Enquanto o país amanhecia com a notícia triste, um turista alemão pedia ajuda para entrar no avião que o levaria de volta a seu país.

Contagem:  786 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

A maior qualidade desta narrativa, a meu ver, é o seu ritmo e vitalidade, responsável por prender a atenção do início ao final. Reconheci no texto qualidades visuais de um filme de suspense que corta a respiração do leitor-espectador. A caracterização física e psicológica do personagem, associada ao significado do seu nome, merece aplausos, assim como o vertiginoso clima da ação, que chega num surpreendente desenlace. Enrico, minha única sugestão é de pequenos retoques no polimento da prosa. No mais, parabéns, seu conto é conciso, criativo, e consegue surpreender!

Celso Bächtold

Notei um certo descompasso no texto ao analisá-lo como um todo. Como exemplo, o autor descreveu minuciosamente o caráter reservado do personagem e a sua frustração para com o seu nome, mas, por outro lado, citou suscintamente o sequestro da camareira, um fato importante para o ápice do conto. Sugiro ao autor analisar previamente a importância de cada fato no contexto geral, e assim desenvolver seu conto.
Achei o entrecho muito interessante e inusitado, haja vista o objeto-chave sugerido neste desafio ter sido utilizado de uma forma tão criativa e surpreendente.

Paulo Fodra

O autor conseguiu evitar bem as soluções mais clichês da proposta. O fato da camareira assassinada ser o azulejo-pirata é uma excelente sacada. No entanto, o conto apresenta pequenas falhas de execução facilmente corrigíveis com uma revisão mais atenta, como a inconsistência sobre cor da fita adesiva, que foi comprada branca e logo depois aparece azul.

Roberto Klotz

Sensacional abertura, mesmo que em alemão Kleber não seja acentuado. Criativa frase em: “Aprendeu a ser safo e andar nas sombras.” Em 138 textos este foi o único a se lembrar do horário de verão. A sonoridade de “revistas e viu uma” não ficou boa. Fechamento sensacional, talvez o mais surpreendente entre todos os contos enviados.

Simone Pedersen

O conto é criativo e interessante. O personagem é rico e o final impactante. É preciso atentar para os elementos do desafio: cenário, personagem e objeto-chave.

Nota

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,5
Celso Bächtold 8,6
Paulo Fodra 8,5
Roberto Klotz 10,0
Simone Pedersen 9,1