O incêndio

Pontiac

O padre Ângelo Melchior, ao desembarcar no Aeroporto Juscelino Kubitschek, disse ao taxista.
— Hotel Brasília Palace.
— Parece que foi ontem, mas lá se vão quase quarenta anos, sussurrou.
Entrou no apartamento e atirou-se na cama sem tirar o sapato. Contemplou o lago que se estendia à sua frente. Remoía nele um misto de saudade e indignação.
— Uma das poucas obras incompletas, disse pensativo.
Apesar da idade e do cansaço, o padre mantinha a memória intacta. Da última vez em que estivera naquele hotel foi na madrugada de 5 de outubro de 1978, um domingo. Depois que as últimas pessoas saíram da sala de reunião, no terceiro andar, por volta das 19h do sábado, ele foi lá conferir. Ligou a cafeteira na tomada, deixando-a estrategicamente escondida atrás de uma caixa de livros. Depois, dirigiu-se ao quarto para descansar. O relógio despertou às 3h. Retornou à sala. A cafeteira continuava ligada. Notava-se que o fio já estava vermelho de tão quente. Às 4h saiu, trajando agasalho. Às 5h da manhã o hotel estava em chamas. Instalou-se no Hotel Nacional, para onde já levara os seus pertences. No dia seguinte, embarcou para São Paulo e de lá para Roma. Posteriormente, a perícia concluiu que a causa do incêndio foi um curto-circuito na rede elétrica do hotel devido a uma cafeteira que ficou ligada, por acidente.
Melchior despiu-se diante do espelho. Sentia-se ainda bastante forte, apesar dos seus 75 anos. Tirou a cueca e analisou aquela tatuagem que tinha desde que entrara para a Ordem dos Salesianos, aos 18 anos. Um sino. Nunca ninguém soube dessa tatuagem, porque, sobre ser minúscula, ficava escondida entre os pelos pubianos. Ângelo Melchior descendia diretamente de Dom Bosco, daí o sobrenome. Entrou para a Ordem, não apenas visando dar seguimento à obra do Santo, mas também para cumprir seus sonhos-visões. O sino simbolizava a perenidade da obra de Dom Bosco. Melchior também tinha visões. Dom Bosco previa os acontecimentos e depois lhe retransmitia, para que ele os difundisse. Assim foi com Brasília. “Entre os paralelos de 15 e 20… Havia uma depressão… Onde se formava um lago… Quando vierem escavar as minas ocultas, surgirá aqui a terra prometida.”
O padre ficara inconformado porque os fundadores de Brasília não tiveram a sensibilidade de interpretar o sonho em toda a sua dimensão. Dom Bosco previra que Brasília seria a expansão da sua obra, a edificação do seu templo, no ponto em que se formava o lago. Para isso ninguém atentou. No lugar do hotel horroroso em que estava, devia ter sido erigida uma grande catedral para Dom Bosco, nos mesmos moldes da Basílica Maria Ausiliatrice, em Turim, com sua fachada, seus campanários, seus sinos. Melchior, que era guardião da obra de Dom Bosco e porta-voz do Santo, sentia-se na obrigação de corrigir essa distorção. Para isso fora chamado a ingressar na Ordem no ano em que Brasília foi inaugurada. Decidiu, aos 36 anos, vir para cá destruir este monumento profano. Pensou em explodir o prédio, mas não quis sacrificar tantas vidas inocentes. Optou pelo incêndio, que permitiria a evacuação do hotel. Achava, porém, que nunca mais o reconstruiriam. Até já apresentara ao Vaticano um plano para a construção da Basílica de Dom Bosco perto do Palácio da Alvorada. Só não contava com a pequena proporção que o incêndio tomou. Não surtiu efeito, o hotel ressurgiu. Ficou pior, pois vários outros hotéis se instalaram nas imediações. Falhara da primeira vez. Viera agora para terminar o serviço inacabado.
De manhã estava à beira da piscina, lendo o jornal, pensando na estratégia que iria adotar. De repente, viu um menininho de dois anos, aproximando-se perigosamente da borda da piscina. A mãe gritou de longe. Foi só o tempo de Melchior levantar-se e segurar o bebê antes que caísse na piscina. A mãe chegou perto dele e o agradeceu efusivamente. Ele ainda estava com o menino no colo quando percebeu uma mancha no bumbum dele, por baixo da sunga, no formato de um sino. A mãe prontamente lhe disse:
— É uma marca de nascença. Alguns dizem que é um dedal, mas acho mais parecido com um sino, sorriu. Acho que simboliza uma proteção para meu filho.
Depois de se apresentar e agradecer novamente, Arlete disse que subiria com o garoto. Entregou-lhe um santinho, com o sonho-visão de Dom Bosco. No panfleto, escreveu o nome dela e do marido, além do número do apartamento.
— Sou devota de Dom Bosco, revelou.
— Meu filho nasceu muito doente. — Corria o risco de morrer. — Fiz promessa ao Santo e lhe dei o nome de João Bosco.
Arlete disse também que o esposo estava num congresso no Centro de Convenções e que jantariam juntos. O bebê ficaria com a babá. Perguntou se o padre não gostaria de sair com eles. Melchior agradeceu, alegou um compromisso na Nunciatura Apostólica.
Depois do almoço, o padre recolheu-se para fazer a sesta. Teve um sonho revelador com Dom Bosco. O Santo lhe dizia, por parábolas, que “nem toda obra fracassada efetivamente o é”. “Deus escreve certo por linhas tortas”. “Os sinais estão à mostra”. “A obra precisa vicejar”. “Antes da construção do templo, recrutam-se os pedreiros”. Acordou, atordoado. Passou a tarde tentando decifrar o sonho-visão que tivera.
Quando Arlete chegou do jantar com seu esposo, perguntou a Irismar se João Bosco estava dormindo há muito tempo. A babá arregalou os olhos e perguntou surpresa:
— Ué! O pai do Seu Fernando não levou João Bosco para vocês?
— Pai do Fernando? — Que pai do Fernando? — Que história é essa? — Levou para onde?, desesperou-se Arlete.
Num voo Rio-Turim, dois dias depois, a aeromoça dirige-se a Melchior e pergunta com cortesia:
— Aceita um cobertor extra para seu filhinho, Senhor?
Melchior assente com a cabeça e completa sorridente:
— Não é meu filho: é meu neto. — Vai encontrar-se com o pai na Itália. A mãe dele está bem ali, apontou para outra poltrona, onde uma jovem dormia.
— Ela está muito cansada. — o pequeno João Bosco tem o hábito de dormir comigo.

Contagem: 991 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Bom. Para mim, o melhor deste grupo nesta semana, mas tem o que melhorar. Por exemplo, o diálogo entre Ângelo e Arlete me pareceu muito artificial. E, como é ele que dá a chave do conto, isso é um problema mais ou menos sério.

Cinthia Kriemler

Gostei. Dá até vontade de ver uma continuação. Cumpriu bem o desafio é a história é bem escrita.

Marco Antunes

Bem, parece que vai mesmo ser uma cruzada em prol da pontuação, então que seja! Vamos pontuar direito? O entrecho é engenhoso e, certamente, o autor tem as manhas da narrativa, mesmo assim precisa deixar a ação mais visível, não deve esquecer de que a natureza do conto é teatral e dramática. Já ouvi uma posição de um grande teórico bastante radical a esse respeito. Dizia o lente, cujo nome agora me escapa, que todo bom conto, dispensado o narrador, teria potencial para transformar-se em teatro e toda peça, implantado um narrador, teria potencial para transformar-se em conto. Por isso, valorize o diálogo, a ação direta.

Nálu Nogueira

Encadeamento confuso, construções pobres de estilo e muitas repetições de palavras, faltou revisão. Final inverossímil.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio proposto. Trama bem estruturada e bem articulada, com desenvolvimento e arremate interessantes. Linguagem bem elaborada. O conto alcança um bom nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal  9,0
Cinthia Kriemler 10,0
Marco Antunes 9,0
Nálu Nogueira  6,0
Wilson Pereira 8,7
Total  42,7