O mal da esperança é a desilusão

Ivan Martins

De pé sob o sol escaldante, nariz apontando para o sul, eu encaro o relógio. O mesmo que tenho tatuado em meu braço, e que desde criança utilizo como a proteção de tela do meu computador, e depois do celular que uso para fotografá-lo. Eu o encaro e penso no vazio que lentamente me preenche – enttäuschung é a palavra para descrevê-lo – e não consigo parar de pensar que talvez seja o mesmo vazio que transborda por todos os lados deste parque de aparência inóspita, o mesmo que ocupa todo o horizonte dessa cidade postiça.
Luto para evitar, mas não consigo não lembrar deBrünnhilde, minha primeira paixão, aos dezesseis anos, com quem briguei depois dela dizer que Oscar Niemeyer não havia entendido o estilo Bauhaus, que ele era um Mies van der Rohe ainda pior, e que Gropius e Meyer chorariam e arrancariam os cabelos se fossem obrigados a visitar Brasília. E para finalizar ainda o chamou de stalinista e disse que o relógio era feio. Claro que ela apenas repetia o que a mãe dela – uma dos muitos weimarianos traumatizados – pensava, mas fiquei com tanta raiva que passei um mês sem procurá-la. Quando o fiz já era tarde, e encontrei-a com o Richard, um esnobe insuportável que morava na melhor casa da nossa rua, Schubertstraße, e estudava piano na Liszt. Agora me pergunto se estava certo em trocá-la pelo relógio.
Eu nasci no dia 21 de abril de 1988, em Weimar, no mesmo dia em que o relógio foi inaugurado. É também o mesmo dia da inauguração de Brasília, vinte e oito anos antes, e de Roma, dois mil setecentos e quarenta e um anos antes de mim. Meu pai não era arquiteto, mas era comunista, e conheceu Niemeyer como membro do partido quando ele visitou Weimar alguns anos antes de eu nascer. Sempre falava dele como o maior dos arquitetos, um gênio artístico que era também um guerreiro do povo brasileiro, e dizia que um dia nós conheceríamos Brasília, a cidade-sonho concebida por Costa e embelezada por ele. Por sua influência eu aprendi o português, e juntos colecionamos itens relacionados à cidade. O que eu mais gostava era o azulejo branco com uma figura preta que lembrava uma peça de quebra-cabeça que disseram a ele que adornava as construções do enorme parque onde estava o relógio de sol do Arquiteto. Ano passado ele morreu, e após me formar em arquitetura com uma tese sobre o modernismo brasileiro eu decidi vir conhecer Brasília em sua homenagem. Em pé, defronte ao relógio, me pergunto se essa foi uma boa ideia.
“O mal da esperança é a desilusão”, foi a única coisa que minha mãe disse quando eu a contei sobre minha viagem. Eu não entendi na hora, mas agora entendo. Ela estava falando do meu pai, de como morreu entristecido por confrontar a realidade e suas ideias, de ver que as pessoas como a mãe de Brünnhilde eram maioria em nossa cidade, em nosso país, de perceber que o sonho falhara, falira. Mas falava também para mim: era um aviso sobre o que estava por vir quando eu chegasse à Capital da Esperança. Com o rosto fustigado pelo sol, eu a entendo.
Aéreo, de calor ou desapontamento, caminho até a construção mais próxima, onde algumas pessoas que praticam esportes param para descansar e beber água. A famosa beleza brasileira está presente nessas pessoas, mas estranho que o quase tão famoso amplo espectro de cores de pele não esteja. Não fosse o calor e a seca eu poderia até achar que estou de volta em casa. Abrigo-me do sol, e demora alguns minutos para meus olhos se acostumarem à sombra. Quando acontece eu me espanto com os azulejos que adornam a construção: num primeiro e ínfimo momento me encho de prazer em ver que são iguais ao que meu pai me dera na infância. Apenas para logo perceber que havia algo profundamente errado com eles. Por olhar tantas vezes e por tantos anos para ele, eu decorara cada centímetro de cada um dos lados e contornos da figura. Com meus dedos toco o azulejo frio e meço cada lado. Os tamanhos são diferentes. E para meu desespero o semicírculo branco está no lado oposto ao que deveria: ao invés de complementar o pequeno quadrado que se destaca da figura principal como uma protuberância ele o antagoniza. Fälschung é a palavra que domina minha mente, não me permitindo pensar em português. Percebo que uma peça individual – fosse a minha, fälschung, ou o original que encaro – não significa nada, que o intuito principal está na exaltação do conjunto, que a forma do todo é o que importa, e não a beleza de cada indivíduo. Depois me lembro da mãe de Brünnhilde, de minha mãe, de meu pai. Lembro da Weimar da minha infância e da Weimar de hoje.
Agora entendo o que minha mãe me disse. De que adianta um relógio de sol que só funciona entre novembro e fevereiro? De que adianta uma cidade supostamente igualitária se quem a habita não são os iguais? De que adianta um símbolo de um país que não simboliza nada que não o pior deste país? De que adianta um lindo azulejo se a tese de seu conjunto é que sua beleza é apenas acessória ao seu papel no todo?
Lembro-me de algo que li na internet antes de vir até aqui: dizem que no lado oposto da cidade existe outro relógio, perdido entre o cerrado selvagem e quase esquecido. Mas uno com a natureza que o cerca, e sem pretensão em seu projeto, apenas funcionalidade. Afinal, Brünnhilde estava certa. É melhor me apressar para encontrá-lo antes que esse vazio me preencha por completo.

Contagem:  948 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Gostei muito. Única ressalva: o penúltimo parágrafo, desnecessário e que, pela obviedade (tudo o que está nele está implícito no resto do conto), tira vigor do conjunto.

Cinthia Kriemler

Sempre que eu leio em um conto alguma de que discordo, eu procuro me dizer que aquilo é uma fala do personagem, e não do autor ou autora. Com base nisso, vou dizer ao seu personagem uma coisa: Brasília não é uma cidade postiça. Aqueles que moram aqui, mesmo que em piores condições socioeconômicas, sabem que é uma cidade de verdade. Eu sinto, a cada vez que leio um texto como o seu, que Brasília e seu povo continuam a ser culpabilizados pelo fato de os políticos de todo o país virem para cá fazer as suas lambanças. E que questões como o apartheid social, econômico e racial talvez ainda sejam menores aqui do que em outros lugares, embora existam, sim, e com força. Mas existem também nas cidades não postiças. Esse tipo de visão sempre me abala, habitante que sou desta cidade que eu amo há mais de 48 anos. E que tem muitas coisas boas.
Dito isso, vamos ao que interessa, que é a avaliação do seu conto.
É bem escrito e apresenta a trama de um ponto de vista diferente: pelo viés sociopolítico e cultural. Tem bastante informação interessante e mostra a cultura do autor. Convida à reflexão. Mas a impressão que me dá é que os elementos citados no desafio foram colocados no conto como panos de fundo para a denúncia política, social e cultural, e não como elementos principais. O azulejo com defeito está presente. O relógio de sol está presente. O alemão está presente. Até que ponto os três realmente conversam de forma harmoniosa, e não apenas interagem em face de uma necessidade de cumprir o desafio, é o que me deixou em dúvida. O foco, cada autor ou autora decide o seu. Mas a costura precisa ser sutil para não desviar a atenção do leitor da ideia original. Num concurso com tema, seu texto me pareceu um jeito de contornar o solicitado de maneira inteligente e diferenciada.
Uma ou outro ajuste na pontuação pode ser checado numa boa revisão.

Marco Antunes

Seria exaustivo apresentar os casos de falta de pontuação, peço apenas que o autor atente para essa exigência do texto. Frase de difícil intelecção: “ e depois do celular que uso para fotografá-lo”. Mais um texto deste grupo com narrador egoísta que toma tudo para si e não permite jamais que a ação aconteça e seja percebida pelo leitor. Sem ação (ainda que apenas interior, como o fez tantas vezes Clarice Lispector) e dinamismo o conto se perde, é morto. Aqui o caso é pior, ainda que razoavelmente bem escrito, o texto é quase um ensaio tal a quantidade de informações. As sentenças são enormes e dificultam a leitura fluente. Para piorar tudo, o conto (se for mesmo um conto) chega ao final como apenas um libelo político das opiniões do autor, do modo menos literário possível e dirimindo de vez a esperança de que o texto desenvolva um conflito real da personagem. O que diferencia Brecht, um escritor paradigma da literatura dita engajada do presente autor? A capacidade de mostrar em ação e bom teatro, como drama e conflito, a sua visão política. O crime perfeito não deixa vestígios, também a boa literatura não dá esse tipo de bandeira. Com todo respeito, é o texto mais aborrecido da rodada.

Nálu Nogueira

Gostei muito deste conto. Sombrio, algo pesado, arrasta o autor pro enttäschung vivido pelo personagem. Abordagem de questões sociais e políticas feitas de modo convincente. Os aspectos negativos são algumas construções pobres, sem sintonia com o que se está narrando, como “lembro-me de algo que li na internet antes de vir aqui”. Esta frase e o parágrafo final todo eu achei mais fracos, fiquei com a sensação de anticlímax.

Wilson Pereira

O conto está de acordo com a proposta do concurso. Está bem estruturado, apresenta linguagem correta e bem articulada. No entanto falta tensão e vigor, pois demora em pormenores sem importância para a trama.

Nota

Jurados

Nota

Allan Vidigal 9,5
Cinthia Kriemler 9,6
Marco Antunes 7,0
Nálu Nogueira 9,0
Wilson Pereira 8,2