O mente de Deus

Cruz e Espada

O capítulo LXXIII da Genealogia Germânica (Berlim, 1685, autor desconhecido) descreve, em tom escandaloso, os anos de cativeiro de Wilhelm Brugher, O Mente de Deus. Segundo o magnífico tratado, Wilhelm foi um jovem que, como tantos outros no seu tempo, misturou fé e desejo de aventura. Inflamado pelo discurso dos papas, deixou o vilarejo que habitava nos confins de uma Europa ainda mal desenhada e embrenhou-se pelos desertos do Oriente em busca de Jerusalém. O calendário marcava 1294 e os sarracenos ocupavam a Terra Santa. Em nome de Cristo era preciso libertá-la.
Wilhelm, apesar da pouca idade, demonstrou valentia. Enfrentou as dificuldades do caminho e não tremeu diante das hordas bárbaras. Só depois de passar no fio da espada algumas dúzias de servos de Maomé foi lanceado pelo inimigo.
Não recebeu, entretanto, a glória de morrer em batalha. O destino lhe reservaria algo talvez mais importante. Se por um lado lhe negou a condição de mártir, por outro lhe ofereceu a possibilidade de confirmar sua crença debaixo da chibata. Foram quinze anos de suplício, cumpridos sem qualquer reclamação.
A biografia deste Jó de segunda hora relata que o calabouço possuía uma pequena janela que abria para a Porta Latina, a essa altura dominada pela arte muçulmana. Wilhelm jamais poderia imaginar, mas esta conjunção de fatores o salvou. Pois foi ao lado desta Porta que os artesãos contratados por Salahudin Terceiro assentaram os azulejos brancos e azuis que tanto encantaram o prisioneiro. Quando não era submetido à tortura, Wilhelm erguia o corpo emagrecido na ponta dos pés e decifrava os mosaicos incrustrados no muro. As linhas iam e vinham, imbricavam-se, formavam os temas mais belos que a imaginação podia conceber.
Foram anos de contemplação. Até que ao fim de um interminável dia de dor e solidão Wilhelm compreendeu algo mais: os desenhos falavam.
O impacto desta descoberta, mais tarde contada entre lágrimas pelo próprio cativo, foi uma revelação. Wilhelm esqueceu seus tormentos e passou a dedicar cada minuto livre à tarefa de desvendar aquela literatura feita de pedra e argamassa.
As histórias diziam respeito a todos os homens e mulheres. Permitiam identificar o que viria e o que deixaria de vir. E foi assim que Wilhelm soube da enfermidade que acometeria o filho do seu guarda mais severo e o avisou a tempo de salvar a criança. E depois soube da tempestade de areia que varreria as plantações e fez chegar a notícia aos ouvidos do sultão, que tratou de pôr as colheitas a salvo.
O talento de Wilhelm logo se tornou conhecido, e numa tarde ele descobriu que os guardas não abriam a cela para açoitá-lo, mas para conduzi-lo ao palácio. Salahudin queria vê-lo.
Wilhelm atendeu a ordem e fez o que os sofisticados médicos da Corte não haviam conseguido: cabelos desgrenhados e fedendo a urina de rato, elucidou o motivo das indisposições do soberano. Já o tinha lido na azulejaria com que seus olhos se deliciavam, e não levou mais do que um minuto para elaborar a resposta.
Ao ver-se curado, o sultão concedeu a Wilhelm liberdade e grande fortuna. Depois de uma década e meia, o cruzado deixava o cárcere e retornava à terra natal, onde teve vida próspera e extensa linhagem.
Wilhelm Brugher era meu avô mais distante. Muitas vezes brindei à sua memória e contei sua extraordinária vida a amigos e desconhecidos. Para calar os descrentes eu mostrava minha cópia da Genealogia, em cujas páginas a verdade reverberava.
Em algum momento, contudo, lembrar as proezas do passado tornou-se insuficiente. Eu precisava repetir no presente os passos do meu ancestral; precisava dominar a arte da adivinhação e assim dominar a vida.
Bati-me durante anos com o desejo de antever o futuro na rocha pintada. Graças a esta ferramenta demoníaca, a internet, vasculhei os quadrantes do universo, sem jamais esmorecer diante dos fracassos.
Há alguns meses meus esforços foram recompensados: um artista de nome impronunciável havia criado azulejos muito parecidos com aqueles que o fundador do meu clã descrevia. Perdoem se ofendo vossos ouvidos: o nome do mestre era Athos Bulcão.
Foi necessária muita paciência até encontrar um dos seus antigos auxiliares. O artista tinha morrido há vários anos, mas este velho assistente me guiou pela sua obra, afirmando, inclusive, que existia uma composição do tamanho exato da parede norte do meu porão, de frente para a qual eu pretendia alcançar o objetivo que me impusera. Depois de longas tratativas, enfim ouvi as palavras que tanto desejava:
– Consegui a obra que você procura, Helmut – disse o mensageiro num inglês precário. – Venha a Brasília. Estarei no Parque da Cidade, ao lado do relógio de sol, ao meio-dia da próxima sexta-feira. Traga cem mil euros.
Desliguei em êxtase e no dia seguinte apanhei o dinheiro e comprei uma passagem para São Paulo, de onde pegaria outro voo até a capital do Brasil.
A viagem foi angustiante. Dormi à base de comprimidos e sonhei com batalhas medievais.
Não foi difícil localizar o ponto de encontro nem o vendedor: ao lado do relógio de sol havia apenas uma pessoa. Um homem gordo usando chapéu, óculos escuros e sobretudo.
Dei-lhe o dinheiro. Ele me entregou um pacote retangular, despediu-se e partiu apressado.
Ajoelhei-me e rasguei a embalagem. Retirei os azulejos e espalhei-os no chão. No mesmo instante percebi que havia sido enganado. O material era de qualidade nitidamente inferior, as linhas tentavam copiar as tramas inventadas pelo artista mas não chegavam nem perto da sua sutileza e da sua poesia. O Sr. Bulcão jamais teria realizado um trabalho tão pobre.
Abaixei a cabeça, compreendendo. Na ânsia de emular meu antepassado, acabei dissipando uma parte do seu legado em azulejos piratas.
A frustração me prostrou, mas nem por isso cedi ao desespero. Levantei-me, sereno, e deixei o parque. Atravessando as alamedas floridas, considerei que Brasília estava recheada de originais do Sr. Bulcão. Eu encontraria esses trabalhos. Plantaria meus olhos diante deles. Assim como Wilhelm havia feito, esperaria até que as histórias irrompessem.

Contagem:  989 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

A primeira frase é impactante. Merecia um parágrafo isolado para marcar e fisgar o leitor. O restante do parágrafo baixa o tom e desestimula. Apesar de longo, gostei do credenciamento no aprendizado da interpretação da linguagem dos azulejos. O fechamento poderia ter sido mais trabalhado. O grande mérito do conto é a originalidade. A originalidade é que diferencia os escritores.

Ana Vilela

O texto é bem escrito, mas demora a pegar o leitor. Falta certa agilidade. A história acontece, de fato, quase ao fianal. Seria necessária, talvez, uma reestruturação ou intercalar os fatos. Não há um ápice de fato.

Betty Vidigal

revisão:
● O artista tinha morrido havia vários anos.
Cáspite! Que conto espetacular!

João Paulo Hergessel

O tom medieval não parece ter combinado com a proposta. Existe uma quebra de estilo entre o que vinha a ser descrito (a história de Wilhelm) e a compra do azulejo em Brasília. Não senti conexão; ao contrário: soou apenas como uma tentativa forçada de atender ao tema. Talvez, se o autor tivesse transformado Brasília literalmente em uma propriedade feudal e, a partir daí, desenvolvesse seu texto, seria mais convincente.

Oswaldo Pullen

A partir do trabalho de Athos Bulcão, o autor nos remete para o século XIII, na terra santa, onde o seu personagem vive estripulias quase inverossímeis. O conto perde um pouco somente em seu final que não tem a mesma força que o encaminhamento anteriormente dado.

Nota

 

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 9,5
Ana Vilela 8,0
Betty Vidigal 10,0
João Paulo Hergessel 6,5
Oswaldo Pullen 9,0