O milagre de Dom Bosco

Carlo Couto

Este 21 de abril que entraria para a história como o dia do milagre de Dom Bosco, no qual uma “riqueza inconcebível” abateu-se sobre Brasília, este dia esplêndido amanhece sem uma nuvem sequer. Por isso o tenente-coronel Bruno Schulz, piloto do Esquadrão de Demonstração Aérea, a famosa Esquadria da Fumaça, entra no saguão do apart hotel radiante. Vem com uma mochila nas costas e puxando uma enorme mala de polipropileno azul escura.
̶ Bom dia, tenente! Como vai o senhor? Preparado para as cambalhotas?
̶ Bom dia, Anderson! Estou soltando fumaça! – Anderson ri, apesar de já ouvir essa piada há mais de dez anos.
̶ O senhor chegou cedo demais. A sua suíte preferida, a 221, ainda não está pronta. O hóspede está saindo, o senhor me perdoe.
̶ Não, meu caro, eu é que peço desculpas, sei que ainda é cedo para o check in. É que hoje é um grande dia para mim, será meu último voo e estou nervoso. Preparei uma manobra solo especial, com o helicóptero. A apresentação será daqui a pouco.
Na suíte 221, outro Bruno, o Soares, fecha a sua enorme Samsonite de polipropileno azul escura, alisa a tampa e dá um sorriso. Poe a gravata e admira a imagem de vencedor no espelho.
Lá em baixo, o tenente Schulz explica que pretendia deixar a Aeronáutica. Tinham sido trinta anos de dedicação à Força Aérea Brasileira. Estava cansado e pensou que seria um bom momento para entrar para a política. Além do quê, queria voltar à capital. Candidatou-se a deputado. No show especial de despedida, sobrevoaria a Praça dos Três Poderes, seu futuro local de trabalho, com o helicóptero, e lançaria centenas de santinhos com a profecia de Dom Bosco sobre os espectadores, sendo que na frente, em vez da imagem do santo, tinha mandado imprimir uma foto sua com a auréola na cabeça. Sua candidatura cairia dos céus sobre o povo como uma benção, por assim dizer. Tinha trazido o material de Pirassununga na própria mala.
Bruno Soares fecha a porta do 221 e se dirige aos elevadores, puxando a mala cuidadosamente sobre o carpete.
De repente, o tenente põe a mão na barriga.
̶ Ai, Anderson, meu querido, me deu até um aperto. Onde fica mesmo o banheiro aqui em baixo?
̶ É logo aqui atrás da recepção, Tenente. Pode deixar que eu olho a mala para o senhor – e manda um boy colocar a mala no “séparée”.
Bruno Soares sai do elevador e quase tromba com o tenente em disparada a caminho do banheiro, já abrindo a braguilha. Vai até o balcão e entrega a chave a Anderson.
̶ Bom dia! Eu gostaria de fechar a minha conta.
– Qual o cartão, senhor?
̶ É dinheiro vivo – e tira um maço de notas do bolso. ̶ Você pode pedir para o manobreiro trazer o meu Mercedes? Ah, e manda já colocar essa mala sobre o banco do carona, por favor.
̶ Pois não – Anderson acena para o boy. – O senhor vai novamente ao Palácio da Alvorada?
̶ Não, hoje, não. Minha missão aqui está cumprida. Vou-me embora, mas antes quero dar uma volta e assistir ao show da FAB. Até a próxima, rapaz.
Bruno Soares sai, entra no Mercedes e acena para Anderson. É quando sente aquela queimação no sino. O sino preto, símbolo do chamamento, havia tatuado ainda rapazinho, depois da morte do pai, um político poderoso que acabou vítima de uma intriga e suicidou-se. A tatuagem no antebraço era uma espécie de amuleto e um lembrete, para ele não esquecer a sua missão: vingança. Tornou-se uma espécie de agente duplo. Fingindo servir ao governo e a seus opositores, na verdade, embolsava em dobro e colocava a corja toda para correr ou na cadeia. E toda vez que estava prestes a terminar mais uma ação, o sino ardia. Vai ver era auto-sugestão, pensou. Talvez não devesse ler tanto esses livros de bruchinhos ingleses.
Ao seu lado, a mala chacoalhava, ele quase podia ouvir o farfalhar das notas. Tinha recebido a “doação” na véspera, direto das mãos do Presidente da República. Gravou tudo com sua caneta câmera e passou o filme para frente antes de sair do hotel.
De volta à portaria, o tenente resolve deixar a mochila com Anderson para não perder mais tempo.
̶ Meu querido, me faça o favor, eu não quero esperar a limpeza, estou muito nervoso. Você põe esta mochila lá na minha suíte quando estiver pronta.
Pegou a mala com o boy e acenou para um táxi.
Na altura do Bosque dos Constituintes quase colide com um Mercedes que ia muito devagar. Das janelas, os olhares dos dois Brunos se encontram por um breve instante.
Na Base Aérea, o tenente Schulz entra no helicóptero e diz para o assistente:
̶ Ao meu sinal, abra essa mala e deixe chover o conteúdo.
̶ Às ordens, tenente.
O carrão de Bruno Soares desliza pelo Eixo Monumental quando ouve o barulho das hélices. Um helicóptero sobrevoa a Praça dos Três Poderes. O som encobre o toque do celular, mas Bruno Soares sente a vibração do aparelho no bolso. Era o alerta de notícias de última hora. No monitor, a mensagem grita em caixa alta:

DEPOIS DE VAZAMENTO DE VÍDEO, PRESIDENTE DA REPÚBLICA RENUNCIA.

Nesse exato momento, uma chuva de dinheiro cai sobre a multidão aglomerada na Praça. Ouve-se gritos, risos, toques de telefones celulares, sirenes.
No dia seguinte, os jornais noticiariam incongruências em torno da renúncia do presidente, um intrincado esquema de corrupção, uma mala Samsonite cheia de santinhos boiando no Paranoá, um acidente com um helicóptero da FAB, um Mercedes abandonado no Memorial JK e um homem internado na emergencia do Hospital Santa Lúcia com uma tatuagem em chamas.
Como sempre, nada nunca seria esclarecido e após alguns poucos dias, a vida voltaria ao normal. Mas para o povo, este teria sido simplesmente o dia do milagre de Dom Bosco.

Contagem: 982 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Bom, sem grandes destaques positivos ou negativos (exceto “bruchinhos”, que deveria ser com “x”).
O “plot” da troca de malas poderia ter sido mais bem explorado.

Cinthia Kriemler

O conto foi uma tentativa de misturar MI6 e CIA. Achei confuso e com excesso de informação (para que nos precisávamos saber que o pai de Bruno2 era político e se suicidou?). Chegou uma hora em que eu não entendi mais nada. Havia dois Brunos. Um era bandido. Mas o quarto do hotel precisava ser usado pelos dois. Por quê? Desculpe, não peguei. Ele trocou uma mala de santinhos por uma mala de dinheiro de propósito? Cumpriu o desafio, porque os elementos estão aí, mas, para mim, não emplacou.
Atenção:
EsquadriLHA da Fumaça (frota) — (Esquadria é da construção civil).
embaixo — se escreve junto
Põe (tem acento)
autossugestão — é assim depois do Acordo
bruxinhos — sempre foi com “x”

Marco Antunes

“Esquadria da Fumaça” – É mais famosa a Esquadrilha da Fumaça, já a esquadria (Designação genérica de portas, caixilhos, venezianas, etc.) da fumaça, nunca ouvi falar. “polipropileno” – Jura? Achou mesmo que ajudaria a fluidez do conto esse paralelepípedo para tropeço do leitor? “check in” e “séparée”. – expressões estrangeirs exigem itálico. “Poe” – revise o texto e não descuide da pontuação. “manobreiro” – prefira sempre a expressão mais usual, no caso manobrista, pois o trecho ficou com certo colorido lusitano indesejado. “Ouve-se gritos” – cuidado com a concordância! Gritos são ouvidos, logo: “ouvem-se gritos”. “emergencia” – estude acentuação! De fato, o tom de crônica, episódio ligeiro ou anedótico, predomina. Falta para o conto o conflito real, a transformação das personagens, no entanto, vou desconsiderar esse aspecto pela zona nebulosa em que o texto se encontra. Adorei o entrecho, achei a solução divertida e plausível. As duas personagens dos proprietários das malas, como personagens de crônica estaria perfeitos, para o conto, eu peço mais consistência. De toda forma, em que pese a seus errinhos, é um texto muito bom.

Nálu Nogueira

Olha, eu achei o enredo bom, embora previsível. Um conto que caminha bem até o ultimo parágrafo, que é totalmente desnecessário. Deveria ter acabado na chuva de dinheiro. Fora isso, é uma narrativa correta, sem grandes genialidades mas mantendo a tensão no ponto certo, envolvendo o leitor. Porém, alguns deslizes ortográficos e gramaticais me deixaram muito entristecida. É estranho ver esse tipo de erro numa narrativa que parece de alguém que sabe escrever, mas “bruchinhos” foi broxante.

Wilson Pereira

O conto atende ao proposto no desafio. A trama está bem estruturada e bem articulada, com um desenvolvimento pertinente e um desfecho bem arrematado. A linguagem é bem elaborada, com correção e domínio da técnica narrativa.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal  8,0
Cinthia Kriemler 7,0
Marco Antunes 9,0
Nálu Nogueira 8,0
Wilson Pereira  8,5
Total 32,0