O pecado do cristal

José M. Umbelino Filho

A Sônia bateu o pé, fez aquele bico de menina mimada, e disse na cara do Otávio:
– Agora você já sabe, Otávio: eu tenho um amante. OK?
O Otávio nem nada. Impassível. Sentado na poltrona do papai, de bermuda e alpercatas, o crachá no colo.
– E quer saber? Ele é fera. Fera!
A Sônia dizia fera franzindo o nariz de um jeito engraçadinho. Otávio lembrou-se o quanto ela rejuvenescia quando estava irritada. Parecia uma adolescente. Ele perguntou:
– O moço é bom de cama?
– Se não fosse, pra que serviria?
– Então é só pelo sexo.
Otávio devolveu o crachá com a cara do fulano. Ele o havia encontrado nas coisas dela, misturado à lingerie rosa, perfumes de nomes impronunciáveis e toalhas de algodão egípcio. Sônia jogou o crachá de volta para Otávio. Ainda batia o pezinho no chão:
– Você não vai fazer nada?
– Você ainda me ama, né?
– Porra, Otávio.
– Diz que não me ama.
– Porra, Otávio.
A empregada entrou no quarto. Olhou a patroa esbaforida, eriçada como uma jaguatirica, e fez cara de sonsa. Foi a deixa para que Otávio se levantasse, beijasse Sônia na testa, e ensaiasse sair para a sala. Ele era bem mais velho que ela, já tinha visto muita coisa. Quarto casamento, terceiro com jovem dondoca cheia de vontade. Se ela quisesse o divórcio, ele assinava. Quisesse fugir com o amante, ele arranjava outra. Tinha dinheiro e idade suficientes para não ligar. Agora só queria mesmo ligar a televisão. Mas a Sônia estourava.
– E quer saber? Vou encontrar com ele agora!
Disse e foi. E pegou a camionete do Otávio; e cantou pneu. Ao ficar sozinho, Otávio tirou as sandálias. Eram as quartas de final, o Fluminense jogava. Mandou a empregada trazer amendoim japonês. Só aí percebeu que alguma coisa dentro dele doía.
– Ciúmes? Nessa altura do campeonato?
Otávio riu com desdém. Mas não adiantou muito; sentia uma fisgada fria bem dentro do peito, como se alguém fosse lentamente espargindo gotas de gelo atrás de seu coração. Não era exatamente ciúme, mas algum similar barato. Pensou de repente nos cabelos despenteados da Sônia ao acordar, e na forma errada como ela cantava With or without you do U2. Olhou de novo o crachá e viu a cara do fulano. Jeferson. Funcionário civil e terceirizado do quartel. Funcionário civil de quartel? Agora Otávio ria alto. Só a Soninha mesmo para mancar até nessa de amante: pegasse um funcionário público, um militar bonitão, um general, algo mais aventureiro ou ligeiramente kitsch, então sim. Mas pegou logo boy terceirizado. De repente sentiu carinho pela esposa. Disse à empregada que passava:
– Soninha é mais avoada que revoada de maritaca.
– Seu Otávio, dona Sônia te chifra e você necas?
– É. Tá certo então.
Enfiado no terno de desembargador, o Otávio ficava doutor. Engrandecia os ombros, enobrecia o semblante. Nessa vida, poucas visões são tão agressivamente fortes quanto a de um senhor grisalho num terno caro. Colocou o trinta-e-oito no bolso do paletó e foi. Por dentro, Otávio começava a mastigar fogo; agora sentia coisa parecida com ciúme. Raiva, talvez. Talvez aquela obsessão possessiva que um homem só tem enquanto realmente não perdeu algo na vida. Estava levando uma arma para um quartel. E isso, de alguma forma, o excitava.
– Hoje a manchete vai ser boa.
O Quartel General reluzia sob o sol da manhã. Otávio estacionou no lugar errado, na beira de uma praça, longe da portaria. Dez anos em Brasília e ainda errava a entrada das quadras. Ajeitou a gravata, sentiu o peso da arma no bolso e o comparou com o peso do próprio coração. O coração estava mais leve. Na verdade, era quase prazeroso sentir ciúmes. E faria um show bonito, com direito a morte e tiroteio. Ao fechar a porta do carro, Otávio viu as árvores refletidas pelo vidro e, ao invés de seguir diretamente para o Quartel, resolveu ir antes até a o lago da praça. Havia grandes poliedros saltando da água, e árvores cheias de pássaros. Qualquer coisa de delicado ou frágil no ar matutino, como se a secura do planalto central fosse cristalizada. O ciúme desapareceu. O coração abriu a boca num bocejo. Otávio lembrou que era um velho bonachão – um homem cansado, medroso.
Avistou a Soninha com seu amante no banco da praça, abraçados como pombinhos. Pareciam crianças. É claro, ele pensou, que eles não se pegariam dentro do quartel. Nem Soninha seria tão sonsa. Mas quando Sônia viu Otávio se aproximando, ela sorriu. Ela sorriu. Depois, num arrombo performático de diva do cinema, levantou-se e, a mão na testa, gritou:
– Oh, deus. Meu marido! Foge, Jeferson.
O fulano pulou em pé. Otávio fez pose, mostrou a borda do revolver no paletó. O fulano embranqueceu. Saiu corrido, fugido, esfumaçando pelo parque, para não voltar.
Quando ficaram sozinhos, Sônia desabou no banco, em silêncio. Otávio sentou ao seu lado. Olhavam para o lago.
– Achei que você não viria.
– Ele é tão bom de cama assim?
– Um pouco. Mas importa?
– Não conhecia esse parque.
– Chama Praça dos Cristais. Pouca gente conhece.
– Praça dos Cristais…você já conhecia?
– Eu venho aqui desde criança. Infância pobre, então diversão era praça, né?
– Não sabia.
– Um dia meu pai me trouxe aqui e disse: Soninha, Cristal é bem mais bonito que diamante. Já nasce bonito, nem precisa polir. Só que diamante é raro. Se cristal fosse raro também, aí seria mais precioso que diamante. O grande pecado do cristal é ter demais. Na vida, minha filha, é a mesma coisa. Eu demorei pra entender o que meu pai disse. Não sou muito esperta, sabe? Mas entendi.
Otávio não esperava filosofias da esposa. Nunca esperou. Olhou para ela e viu seus cabelos despenteados, pintados de loiro, brilhando sob o sol da manhã. Segurou sua mão com força.

Contagem:  982 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

Incrível história, parabéns. A narrativa tem pontos de virada bem montados e tanto narração quanto diálogos estão impecáveis.
A variação das emoções do personagem principal é convincente e muito bem construída, a cena do encontro é hilariante e a cena final de uma profundidade e singeleza exemplares.
Para não dizer que não há erros, apenas na frase “resolveu ir antes até a o lago da praça” há um erro, ou uma liberdade artística que foi longe demais.

Ana Vilela

Bons diálogos, diretos, claros. Sensibilidade e poesia permeiam a história, sem exageros: o amor, ou o apego, que ainda resta; o homem que não consegue matar o amante da mulher, o que o torna forte, e não fraco; a mulher que trai para ver se o homem que ama reage… São dois seres humanos que erram, que não sabem dizer o que sentem. E o autor mostra isso sem dizer. Mostra com cenas, com a história.
“Ao ficar sozinho, Otávio tirou as sandálias. Eram as quartas de final, o Fluminense jogava. Mandou a empregada trazer amendoim japonês. Só aí percebeu que alguma coisa dentro dele doía.” – muito boa esta casualidade. Cena comum, que cabe em qualquer vida.
Excessos: “[…] se alguém fosse lentamente espargindo gotas de gelo atrás de seu coração”. O texto é tão limpo, melhor manter, não?
O texto cativa. O final é delicado, mas marcante.

Betty Vidigal

Muito bom. Personagens críveis, construídos com ternura pelos humanos e suas fragilidades.

Revisão:
“Ao fechar a porta do carro, Otávio viu as árvores refletidas pelo vidro”. Nesta frase, melhor não repetir o sujeito. Não precisa. Deixa “Ao fechar a porta do carro, viu as árvores refletidas pelo vidro”

João Paulo Hergesel

O conto é quase perfeito, não fosse pelo tom infantil do início: “bico de menina mimada”, “poltrona do papai”, “jeito engraçadinho”. Achei, a princípio, que fosse uma brincadeira de crianças: a garotinha dizendo ao coleguinha que arrumou um “amante”. Apenas quando o sexo é colocado em discussão é que se tem noção de que os personagens são adultos. Excetuando isso, o desenrolar da narrativa é ótimo, e eu não esperava menos (nem mais) do casal, digno da realidade conjugal brasileira em muitos lares.

Oswaldo Pullen

Talvez poucos enxerguem assim, mas este conto é lírico. O desfecho é prenunciado pelo decorrer do conto onde Otávio, um homem experiente, lida com sua esposa infantilizada, sem tomá-la muito a sério. No entanto o autor consegue manter suspense sobre qual afinal será o seu comportamente perante a dupla romântica.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 9.9
Ana Vilela 10,0
Betty Vidigal  9,8
João Paulo Hergesel  9,9
Oswaldo Pullen  9,5
Total 49,1